Em 25/08/2013 | Resenha - Angra (HSBC Brasil, São Paulo, 25/08/13)

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Resenha - Angra (HSBC Brasil, São Paulo, 25/08/13)


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Assim como seu ex-frontman Andre Matos, os remanescentes do ANGRA também não deixaram passar a data de comemoração dos 20 anos de lançamento do seu debut, o clássico “Angels Cry”, realizando uma turnê especial tendo o italiano Fabio Lione (Rhapsody of Fire, Labyrinth) no comando do microfone. Fechando o ciclo de apresentações, no último domingo foi agendada a gravação do DVD/Blu-Ray que eternizará o momento atual do quarteto, hoje formado pelos guitarristas Rafael Bittencourt e Kiko Loureiro, bem como pelo baterista Ricardo Confessori e Felipe Andreoli no baixo. Para a feita ainda contaram com as presenças de Tarja Turunen (ex-Nightwish), Uli Jon roth (ex-Scorpions), Almícar Cristófaro (Torture Squad) e a Família Lima. Acompanhe nas próximas linhas as minhas impressões sobre o evento, além dos cliques certeiros do fotógrafo Diego Cabral da Camara.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Fotos: Diego Camara

A escolha para o registro foi acertada, pois o HSBC Brasil é uma casa de acústica boa, em especial quando cheia, o que para o Angra não é lá muito complicado lotar as casas por onde passa. Se o local não estava exatamente “sold out”, pelo menos o que se via era pista e camarotes com presença considerável de fãs ávidos pelo início do espetáculo, o que se deu por volta das 21h, quando uma introdução ecoou nos PA’s, acompanhada de um belíssimo mosaico contando a trajetória dos paulistanos em fotos muito bem escolhidas. Assim que a cortina caiu, uma projeção do já citado “Angels Cry” iluminou a plateia, que foi abaixo logo nas primeiras notas da canção que batiza aquele álbum, perfeita escolha para iniciar a festa. O som, ainda embolando e abafado, foi melhorando em tempo de seu refrão ser cantado em uníssono. A mesma interação permaneceu com “Nothing To Say”, hino de abertura do disco seguinte, “Holy Land”, provavelmente o mais ousado e certeiro de toda a discografia deles. A “era” do vocalista Edu Falaschi fora logo lembrada com uma das melhores do período, “Waiting Silence”, do ótimo “Temple of Shadows”, a qual se mostrou adequada ao timbre de Lione, algo que não ocorreu tanto assim durante a execução de algumas canções originalmente gravadas por André Matos. Escrevo mais sobre isso mais a frente.

“Tudo bem, São Paulo? Quero ver se meu português está ficando melhor. Levantem as mãos!”, foi discorrendo em nossa língua o italiano nascido em Pisa, cheio de bom humor e visivelmente feliz por estar ali. Nada melhor do que “Lisbon” para simbolizar seu esforço por arriscar um pouco de português. Esta balada é uma das mais bonitas já escritas pelo Angra e fiquei particularmente satisfeito com a performance geral nela. “Time” veio sem grandes alardes, mas nem precisa pela qualidade que já possui. Infelizmente nela já pude notar certa dificuldade por parte de Lione, que apesar de um baita cantor, encontra desconforto em manter o tom original de Matos. As coisas melhoraram com “Millennium Sun”, um dos pontos altos não só do álbum “Rebirth”, como de todo o concerto. Destaque total para atuação feroz de Moisés Lima no cello, algo que remeteu imediatamente aos finlandeses do Apocalypctica pela pegada e interação com o público. Antes de tocarem a seguinte, Fabio disse que poderíamos ouvir “um pouco de tudo” naquela música, inclusive ritmos latinos, parafraseando-o. Se é mesmo assim não sei, mas de fato “Winds of Destination” é rica em groove e melodias atípicas em bandas de heavy metal, algo que os fãs do Angra nem estranham. E que voz bacana o Andreoli realizou ali substituindo as partes originalmente cantadas por Hansi Kürsch, do Blind Guardian. Valeu a música inteira! Em tempo, menciono ainda o cuidado com as projeções que, mesmo apresentando algumas falhas, mostrou-se extremamente eficaz e abrilhantou o pacote que víamos ali em cena.

Para a sorte dos apreciadores – como eu – do álbum “Fireworks”, tocaram uma das mais inspiradas ali, “Gentle Change”, música a qual é a cara da banda por misturar elementos da música nordestina, em especial de nomes como Alceu Valença e Luiz Gonzaga, com melodias acessíveis e grudentas. Arrisco a dizer que esta canção foi a que melhor encaixou-se à voz de Lione. Rafael Bittencourt vem ao microfone na sequência e alerta que irá cantar a próxima. A escolha foi acertada com “The Voice Commanding You”, sem dúvidas a melhor de “Aurora Consurgens”, talvez o disco mais, digamos, controverso do Angra. Muito bem cantada, afinal o guitarrista possui uma ótima voz como é sabido, senti a falta de Falaschi, pois sua performance nesta é louvável. A presença de Amon Lima no violino agregou bastante também, justiça seja feita. Emendar com “Late Redemption” foi interessante, além do quê o coro fazendo a parte de Milton Nascimento (Nota do redator: A saber, “Eu vou contando os dias/ E já, já não tenho medo/ Eu lhe peço/ Eu imploro/ Quando a minha hora chegar/ Meu descanso, minha paz), entoada sobrenaturalmente bem por audiência e banda, foi qualquer coisa de perfeito! Quero muito rever isso quando lançarem o Blu-Ray. Fabio Lione não deixou por menos e mandou “Cante uma canção desconhecida/Poisoning with hope the hearts around you”, assim mesmo como na versão em estúdio e fez bonito. “Silence and Distance”, outra jóia de “Holy Land”, encerrou a primeira parte do set plugado, mas percebi certo desencontro entre os brasileiros e seu vocalista. Por isso acabaram regravando-a mais tarde, assim como fizeram com algumas outras.

Uma breve pausa e surgem dentre as coxias apenas Kiko Loureiro e Rafael para iniciarem um pequeno set acústico. Eles justificaram a situação como sendo para mostrar ao público como as músicas da banda nascem originalmente. Começaram por “Reaching Horizons”, composta por Rafael ainda aos 17 anos. Belíssimo item, inclusive, mas prefiro com Andre Matos. De “Unholy Wars” eu já gostei mais, até porque o respeito pelo maracatu de Pernambuco soa bastante sincero nas letras e melodias, só que esta merecia ter sido tocada pela banda inteira por ser uma das melhores em “Rebirth” e nesta roupagem ter sido resumida apenas ao seu início. Colaram com “Caça e Caçador”, do EP “Hunters and Prey”, provocando um belo momento com os fãs. “A Monster in Her Eyes”, do fraco álbum “Aqua” bem que poderia ter sido deixada de fora em favor de uma “Lullaby For Lucifer”, por exemplo, mas não foi e deixei-a passar enquanto tomava alguma coisa. Uma breve fala que a antecedeu mostrou um Kiko incrivelmente otimista agradecendo a todos os membros que já passaram pela banda, inclusive deixando um “as portas estão sempre abertas” para o aplauso geral. “Make Believe” foi a escolha seguinte, esta trazendo mais os vocais de Loureiro, que neste cargo é um excepcional guitarrista! Sei que foi repleta de boas intenções, mas sua execução deve ter sido uma das piores desde que a mesma faz parte do repertório do quinteto. Tanto que precisaram repetir de cara, mesmo o Kiko tendo dito que a “culpa” foi de um recado da produção ali na frente que pedia algo a eles. Enfim, o pessoal pareceu gostar mesmo assim e a canção foi finalizada a contento.

O encore veio com “No Pain For the Dead”, bem executada por todos, em especial por Rafael, o qual cantou brilhantemente as partes de Sabine Eldesbacher (Edenbridge), chegando a ficar bem parecido com o timbre da moça, pasmen! Nesta a Família Lima fez-se 100% presente, assim como na seguinte, “Stand Away”, que provou um alvoroço sem precedentes por contar com Tarja Turunen dividindo os vocais com Lione. Esta valeu a noite pela belíssima roupagem, inclusive sua reprise foi providencial para acertar pequenos detalhes. Melhor assim do que um amontoado de overdubs em estúdio. Fabio incorporou um verdadeiro tenor italiano e não tenho dúvidas de que será uma das favoritas dos fãs e críticos quando lançarem o show no mercado. Foi hilário quando, ao término, Rafael bradou “obrigado Família Lima, seus lindos, seus fofos...”. Tarja permaneceu em cena, mas desta vez dividiu os holofotes com o deus alemão nas guitarras Uli Jon Roth, para uma linda versão de “Wuthering Heights”, cover de Kate Bush imortalizado em “Angels Cry”. Enfim fiquei satisfeito em ouvir esta ao vivo, pois das duas outras oportunidades recentes (Nota do redator: incluindo o pavoroso show no Rock In Rio, em 2011), esta foi de longe a melhor. E, sim, estou falando também da versão de André Matos no Via Marquês, em maio deste ano. Aliás, quem quiser relembrar o link está logo abaixo. Contando com a pegada nervosa de Almícar Cristófaro, dono das baquetas no grande Torture Squad, mandaram “Evil Warning”, outra das que precisaram de uma segunda versão. Para esta em especial comemorei o repeteco, pois esta primeira tentativa ficou bem fraquinha.

Andre Matos: 20 anos de Angels Cry em São Paulo

Para o segundo encore, “Unfinished Allegro/Carry On” fez as honras e aqui confirmei algo que já ouvi inúmeras vezes: esta música pertence ao André Matos. Não tem jeito, parece até mandinga, mas nunca escutei uma versão – afora com Matos – que tenha realmente feito jus à versão de estúdio em “Angels Cry”. Podem já ter chegado perto com Edu Falaschi, mas Lione sofreu (muito!) para manter o nível de excelência que a canção exige! Olha, em algumas finalizações cheguei a cerrar meus olhos pelo desconforto. Já estou vendo as críticas contra minha opinião, mas quem prestou atenção percebeu que realmente esta ficou a desejar. Já “Rebirth” casa perfeitamente com a voz dele, que não só possui um timbre único, como soube imprimir muito de si nela, reinvento-a até. Uli Jon Roth é novamente chamado para a execução de um hino de sua ex-banda, Scorpions, não podendo ser outro que não “Sails of Charon”, uma das mais importantes composições do quinteto germânico, presente no maravilhoso “Taken By Force”. Sobrou ao Rafael cantar esta haja vista a ausência de Russell Allen (Symphony X) após sofrer um acidente a caminho do aeroporto para pegar o vôo que o traria a São Paulo. Mesmo não tendo sido culpa do cantor norte-americano, o fato provocou um pequeno mal-estar e certo desapontamento não só na plateia, mas também dentre os músicos, visivelmente chateados pelo ocorrido. Precisaram tocar novamente esta também, mas com ela encerraram o ciclo de repetições. Só faltava ela, “Nova Era”, que veio e agradou. Sim, as músicas com Falaschi adequam-se bem mais ao Fabio Lione que as de André Matos, mas isso se deve ao estilo similar do primeiro ao italiano, falando em termos de alcance e timbres menos agudos. Por fim, ficou por conta da instrumental “Gate XIII” musicar a despedida da banda e seus convidados, os quais agradeceram efusivamente a presença dos fãs que ficaram ali até o final, mesmo já sendo as primeiras horas da segunda-feira, dia normal de trabalho para boa parte dos que saíram de casa ainda no domingo para assistirem sua banda favorita encerrar mais uma etapa de sua carreira. E se pegarmos o “estamos apenas começando” de Rafael Bittencourt mais cedo, deve ter muita coisa por vir.

Line-up
Fabio Lione – vocais
Rafael Bittencourt – guitarras/vocais
Kiko Loureiro – guitarras
Felipe Andreoli - baixo
Ricardo Confessori - Bateria

Set-list:
Intro
Angels Cry
Nothing to Say
Waiting Silence
Lisbon
Time
Millennium Sun
Winds of Destination
Gentle Change
The Voice Commanding You
Late Redemption
Silence and Distance

*Acoustic set*
Reaching Horizons
Unholy Wars
Caça e Caçador
A Monster in Her Eyes
Make Believe

Encore:
No Pain for the Dead
Stand Away
Wuthering Heights (Kate Bush)
Evil Warning

Encore 2:
Unfinished Allegro
Carry On
Rebirth
Sails of Charon (The Scorpions)
In Excelsis
Nova Era
Gate XIII

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Sobre Durr Campos

Graduado em Jornalismo, o autor já atuou em diversos segmentos de sua área, mas a paixão pela música que tanto ama sempre falou mais alto e lá foi ele se aventurar pela Alemanha, país onde reside atualmente e possui família. Lendo seus diversos artigos, reviews e traduções publicados aqui no site, pode-se ter uma ideia do leque de estilos que fazem sua cabeça. Como costuma dizer, não vê problema algum em colocar para tocar um Scum do Napalm Death, seguido de Substance do New Order ou Black Celebration do Depeche Mode, daí viajar no tempo com Stormbringer do Deep Purple, se acabar ao som do Bounded By Blood do Exodus e finalizar o dia com alguma coisa do ABBA ou Impetigo. Simples assim.

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