Em 06/11/2012 | Resenha - Slash (Espaço das Américas, São Paulo, 06/11/12)

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Resenha - Slash (Espaço das Américas, São Paulo, 06/11/12)


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Show do Slash? Numa terça-feira? Evidentemente, numa cidade com um trânsito “light” como é o caso de São Paulo, isso traria alguns probleminhas; a diferença de público nos dois shows foi visível, certamente causada – para além daquela minoria que, com efeito, não tinha interesse em ver a banda de abertura – por dificuldades em chegar à Barra Funda. Sei que por questões logísticas, isso por vezes acontece. E eu achando que agendar o Mötley Crüe numa terça-feira no ano passado foi ruim; o Credicard Hall, ao menos, é de fácil acesso pela marginal. Já o Espaço das Américas... Mas, de qualquer modo, o que se pôde ver no palco naquela noite valeu todos os esforços.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

EDGUY

Às 20h em ponto, as luzes se abaixaram e um tema circense começou a ser tocado; e com a característica saudação “welcome to the freak show”, o Edguy inicia seu show. Os alemães foram os escolhidos para aquecer o público; confesso que fiquei surpreso e – ao mesmo tempo feliz! – com o anúncio do Edguy como banda de abertura (ou “banda convidada”, o eufemismo utilizado pelas produtoras!): fiquei surpreso porque, definitivamente, o Edguy não é e nunca foi uma banda de Hard Rock; fiquei bastante feliz, todavia, pois sou fã de longa data da banda e não tinha, ainda, tido a oportunidade de ver Tobias Sammet em ação com sua banda de original. Pude, apenas, conferir, no ano passado, a passagem de seu megalomaníaco projeto “Avantasia” por terras brasileiras.

O som dos alemães, no início da carreira, era um Power Metal bastante próximo do Helloween da década de 80; com o passar dos anos, foram sendo incorporados ao som pitadas de elementos mais próximos ao Hard Rock – como letras irreverentes e bem-humoradas, baladas “à la Bon Jovi” e ausência de pedal duplo –, cujo ápice foi o excelente álbum Rocket Ride (2006). No álbum de divulgação da turnê, Age of the Joker (2011), porém, a banda parece ir se encaminhando para uma retomada de suas raízes metálicas.

Eu estava um pouco receoso quanto às músicas que seriam escolhidas para aquela noite: ou eles tocariam mais suas músicas com pegada mais Hard Rock – o que, certamente, agradaria mais aos presentes –, ou divulgariam seu mais recente trabalho, tocando músicas que fugiriam um pouco ao perfil do evento. Os alemães optaram pela segunda opção e meu receio ganhou corpo: embora os músicos sejam excelentes e Tobias seja um exímio “frontman”, como faltou “feeling” na condução do show e na escolha das músicas a serem tocadas, o público em geral, acostumado com a energia rock n’ roll, ficou um pouco apático durante algumas músicas não tão diretas do set, empobrecendo um pouco o espetáculo; lembro-me, inclusive, da imagem do pessoal da pista vip nos telões, numa pegada mais Walking Dead do que show de rock, enquanto eu, juntamente com dois “colegas ad hoc” – Alessandro e Roberto, salvo engano –, feitos ali mesmo, apenas para celebrar o show do Edguy, cantávamos e curtíamos insanamente o show. Certamente, a culpa não foi do público; talvez a reação tivesse sido outra se mais músicas do Rocket Ride (2006) tivessem sido tocadas. Ou talvez nem isso resolvesse a sede por Slash daquele Espaço das Américas quase lotado! Ponto negativo para a chata “Robin Hood” – que parecia não ter fim! – e pontos positivos para a irreverente “Lavatory Love Machine” e para a tríade que encerrou a apresentação, a bela balada “Save Me”, a excelente “Superheroes” e a emblemática “King of Fools”.

SLASH FEAT. MYLES KENNEDY AND THE CONSPIRATORS

Slash deve ter uma obsessão por pontualidade – talvez adquirida após a era áurea de Guns N’ Roses, com seus épicos atrasos. Exatamente às 21h30, um locutor, de maneira bastante similar aos shows do antigo Guns N’ Roses, anuncia o show, trocando o antigo slogan “Guns N’ Fucking Roses” por “Rock N’ Fucking Roll”. Slash entra no palco “cortando” tudo com o som afiado de sua Les Paul! Em plena forma, o icônico guitarrista da cartola parecia melhor do que nunca: com o riff na pegada Metallica de “Halo”, em especial depois da virada de bateria, ele fez tremer o Espaço das Américas! A próxima da noite foi “Nightrain”, da época de Guns N’ Roses, com o refrão cantado em uníssono por todos os presentes. Interessante observar que, em alguns momentos, o público cantava tão alto que acabava abafando um pouco a voz de Myles Kennedy, dado que não tinha para onde o som de todas estas vozes se dissipar; isso se repetiu em quase todas as músicas do Guns N’ Roses ao longo do show. Essa música, bem como as outras de antigas bandas de Slash, não é um cover, pelo simples fato de que não existe cover de uma música que se escreveu ou ajudou a escrever; estas músicas carregam um fardo histórico bastante representativo, o que as torna difícil de ser objeto de consenso por parte dos ouvintes. A minha opinião a respeito dos “covers” do Guns N’ Roses, como desenvolverei mais à frente, é que a voz limpa de Myles não combina perfeitamente com o espírito das canções.

As músicas seguintes foram “Standing in the Sun”, uma de minhas favoritas de “Apocalyptic Love”, “Back from Cali”, que embora tenha sido gravada com Myles Kennedy, é do primeiro álbum solo e homônimo de Slash e “Just Like Anything”, do Slash’s Snakepit, o modo encontrado pelo guitarrista cabeludo para manter viva a chama desta fase menos famosa de sua carreira. As músicas que vieram em seguida foram, ao menos para mim, uma dobradinha que eu achei que não fosse ouvir naquela noite: “Civil War”, minha favorita dos “Illusions” e “Rocket Queen”, minha favorita de “Appetite for Destruction”; nesta última, inclusive, Slash prolongou o solo, deixando-o mais bonito e inspirado do que na versão original. As duas seguintes foram do mais recente álbum: a empolgante “Shots Fired” e a bela balda “Far and Away”, esta última numa excelente interpretação de Myles Kennedy.

Slash parece mesmo gostar de um baixista mais “punk rocker”: o carismático Todd Kerns, além de tocar seu instrumento – repleto de adesivos de bandas como The Clash e Ramones – com competência, mostrou que também canta muito bem. Ele foi o responsável por assumir os vocais em “Doctor Alibi” – cantada originalmente por Lemmy Kilmister (Mötorhead) no primeiro álbum solo de Slash – e numa versão mais acelerada de “You’re Crazy”, na qual abusou do falsete; a interpretação de Todd Kerns foi mais visceral, combinando melhor com o espírito destas duas músicas – e do Guns N’ Roses antigo como um todo – e sua demanda por uma voz suja e escrachada.

Com Myles de volta ao palco, foram executadas “No More Heroes” e seu refrão grudento e a bela balada “Starlight”, pertencente ao álbum homônimo de Slash, mas cantada também por Myles. Na versão de estúdio, o vocalista canta com intensa carga emocional e sentimental, e que foi reproduzida em sua execução ao vivo. Em seguida, Slash toma o centro do palco para a animada jam que precede àquela que é, talvez, a melhor música desta nova fase da carreira de Slash: com seu riff poderoso, refrão de fácil assimilação e boa performance de Myles Kennedy, devolveu o fôlego para a parte final do show. E deixo a pergunta: para que quatro dedos se é possível fazer miséria com a guitarra apenas com três? A próxima foi “You’re a Lie”, a primeira música de trabalho do mais recente álbum, na qual é possível perceber a enorme extensão vocal de Myles Kennedy. Sem tempo para respirar, Slash já emenda com o eterno clássico “Sweet Child O’ Mine”; houve uma espécie de catarse coletiva e atemporal quando da execução das primeiras notas desta música: garotos, rapazes, jovens, adultos, tiozões, todos cantando e dançando juntos. Em seguida Myles apresenta a banda – e é apresentado por Slash – ao público; para finalizar a primeira parte do set a escolhida foi “Slither”, do Velvet Revolver, a excelente e premiada música responsável por devolver Slash a um lugar de destaque no mainstream.

No retorno para o “falso encore”, como já era de se esperar após a novidade introduzida no show do Rio, as escolhidas foram “Welcome to the Jungle”, cantada novamente por Todd Kerns – que buscava emular – sem sucesso, (in)felizmente! – em alguns momentos a voz de Axl Rose – e, como não poderia deixar de ser, o encerramento apoteótico com “Paradise City”, com direito a apito no início e chuva de papel picado ao fim.

Myles Kennedy se mostrou muito feliz e empolgado com o que está fazendo ao lado de Slash; esta deve estar sendo, para ele, a oportunidade de sua vida. E ele me parece, inclusive, o cara certo para estar ao lado do guitarrista da cartola: embora ele não tenha uma voz distinta, marcante e única, como a de um Sebastian Bach, de um Steven Tyler e – críticas em 3, 2, 1 – de um Axl Rose, ele é, com efeito, um excelente cantor – tecnicamente melhor, inclusive, que os três citados –, já que faz miséria com sua voz aguda, alcançando notas altíssimas, e está se mostrando um grande “performer”, já que é bastante carismático, se movimenta por todo o palco e conduz os ânimos do público como poucos.

Contudo, a meu ver, sua voz não combina perfeitamente com os antigos clássicos do Guns N’ Roses, pois aquelas músicas demandam por sujeira, isto é, soam melhor com a voz esganiçada e rasgada do antigo vocalista, já que foram feitas para uma voz com características deste tipo. Por exemplo: gosto bastante quando Sebastian Bach canta “My Michelle”, mas percebo que falta algo quando Myles Kennedy canta “Nightrain” com voz limpa. Vejam: não estou dizendo que um é melhor que o outro, mas que há músicas que soam melhor com determinado tipo de voz. Em suma: Myles é um “bom rapaz”, que canta – e muito bem – com voz limpa; o som da guitarra de Slash, ao menos nas músicas antigas, pede por sujeira, combina melhor com ela, ainda mais se levarmos em consideração o contexto das composições e a mensagens que elas desejam transmitir, baseadas, sobretudo, no paradigma “sexo, drogas e rock n’ roll”.

Ultrapassando um pouco o âmbito estritamente musical, é possível perceber que Slash se cansou de vocalistas que possuem egos de tamanho igual ou maior do que seu talento, e é aí que a escolha de Myles me parece acertada. Quer dizer: a hierarquia é clara: o show é de “Slash featuring Myles Kennedy and The Conspirators” e não de uma banda democrática – ainda que se diga o contrário! – na qual a participação de cada um é igual: Slash é a estrela e para quem os holofotes são direcionados; Myles é um coadjuvante com mais crédito que os demais, pois ele já era um artista mais ou menos reconhecido e consolidado no meio musical. Ou você, caro leitor, seria hipócrita o suficiente para me dizer que pagaria R$ 200,00, numa terça-feira, para ver apenas Myles Kennedy com os Conspirators ou com os “antigos atuais” membros do Creed? Tenho lá minhas dúvidas se eles conseguiriam, sequer, vir ao Brasil em turnê sem a presença de uma figura de peso como Slash.

A atual fase da carreira de Slash é excelente: as músicas são boas, diretas e expressam o rock n’ roll pretendido por Slash; os músicos que o acompanham são excelentes e estão perfeitamente entrosados. Posto isso, o ideal, a meu ver, seria que Slash focasse mais nos trabalhos recentes, tentando se libertar de vez dos grilhões que o prendem ao passado; porém, penso que isso não seja factível, uma vez que foi a primeira fase de sua carreira que o tornou o que ele é hoje, sendo difícil abdicar dela. Assim, ignorá-la, mesmo ela sendo tão diferente da fase atual, me parece um erro; até porque, imagino eu, nenhuma casa de show permaneceria de pé se Slash não tocasse alguns dos clássicos que o permitiram chegar ao lugar que ocupa hoje no mundo do rock.

Edguy

Tobias Sammet - Vocais
Jens Ludwig - Guitarra Solo
Dirk Sauer - Guitarra Rítmica
Tobias “Eggi” Exxel - Baixo
Felix Bohnke - Bateria

Setlist:

Nobody's Hero
Tears of a Mandrake
Lavatory Love Machine
Ministry of Saints
Robin Hood
Vain Glory Opera
Save Me
Superheroes
King of Fools

Slash feat. Myles Kennedy and the Conspirators

Myles Kennedy – Vocal
Slash – Guitarra
Frank Sidoris – Guitarra
Todd Kerns – Baixo
Brent Fitz – Bateria

Setlist:

Halo
Nightrain (Guns N' Roses song)
Ghost
Standing in the Sun
Back From Cali
Just Like Anything (Slash's Snakepit song)
Civil War (Guns N' Roses song)
Rocket Queen (Guns N' Roses song)
Shots Fired
Far and Away
Doctor Alibi
You're Crazy (Guns N' Roses song)
No More Heroes
Starlight
Blues Jam
Anastasia
You're a Lie
Sweet Child O' Mine (Guns N' Roses song)
Slither (Velvet Revolver song)

Encore:

Welcome to the Jungle (Guns N' Roses song)
Paradise City (Guns N' Roses song)

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Sobre Fernando Araújo Del Lama

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