Em 14/11/2011 | Resenha - SWU (Paulínia, 13 e 14/11/11)

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Resenha - SWU (Paulínia, 13 e 14/11/11)

Por Vitor Bemvindo | Fonte: Mofodeu

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O MOFODEU esteve no festival SWU, em Paulínia, com o objetivo principal de prestigiar o show do Lynyrd Skynyrd, uma das poucas bandas do evento que estavam dentro do recorte temporal abordado no programa – anos 60 e 70. Mas isso não quer dizer que deixamos de assistir os demais shows dos dias 13 e 14 de novembro.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

Algumas dessas bandas, mesmo não sendo sessentistas ou setentistas merecem todo o nosso respeito e fizemos questão de presenciá-las. E não foi a toa: tivemos a oportunidade de presenciar alguns bons shows e podemos dizer que valeu a pena deixar o Rio de Janeiro para prestigiar o festival.

Nesse pequeno artigo, faremos uma breve análise dos shows que pudemos assistir. Adiantamos que muitas das opiniões aqui expressas soaram como polêmicas, já que o analista que vos escreve tem muito pouca paciência com certos tipos de grupos que tem muito pouco a mostrar.

Nesse texto, o foco ficará nas apresentações musicais e, em breve, divulgaremos uma análise da estrutura do festival.

Vamos às análises:

Dia 13 de novembro

Chegamos ao festival no dia 13 com muito atraso, devido às fortes chuvas que assolaram a região de Campinas naquele dia. O nosso voo previsto para chegar à cidade às 15:30 foi atrasado e precisamos ficar no ar por mais de uma hora além do previsto até que as condições climáticas permitissem a aterrisagem.

Com isso perdemos boa parte dos shows daquele dia, o que nos deixou bastante desapontados. Tínhamos um especial interesse em acompanhar a apresentação da Tedeschi Trucks Band, grupo pelo qual temos bastante simpatia por conta das referências musicais de Derek Trucks, um legítimo sucessor de Duane Allman.

Chegamos ao evento por volta das 20:30 e não presenciamos os problemas entre os roadies de Peter Gabriel e Ultraje a Rigor, portanto, não entraremos no mérito da questão. Quando chegamos , quem se preparava para entrar no palco era o Duran Duran e, a partir daí, nos esforçamos para tentar prestigiar o maior número de apresentações possível.

Uma grande surpresa para nós foi o público, que compareceu em pequeno número a esse dia. As pessoas que assistiram aos shows pela TV talvez não tenham tido essa noção, já que a transmissão restringiu as imagens ao público perto do palco. Mas quem caminhou pelo local do evento certamente se decepcionou com a presença do público.

DURAN DURAN: Nunca admirei o som do grupo, pelo contrário, acho a contribuição deles abaixo de algo que possa ser considerável importante. Para mim, eles conseguiram tornar o new wave dos anos 80 – que para mim é algo perto do intragável – em uma coisa melosa e ainda mais sem graça. Por isso, fazer uma avaliação positiva da apresentação do grupo é algo quase impossível. Mas acredito que para quem curte a música do grupo, o show deve ter agradado. Eles tocaram os hits que infernizaram nossas vidas nos anos 80 e 90 com uma fidelidade rígida às versões originais, mas se isso é bom ou ruim deixo para que o leitor avalie. Mostraram estar em forma e tocando da mesma forma de sempre. Confesso que depois dos primeiros vinte minutos de show, fui procurar outra atração pois aquele som passou a me incomodar. Não porque eles estivessem tocando mal, mas porque, para mim, o som deles não é bom. Pela forma apresentada dou um nota 5.

HOLE: Para fugir do Duran Duran, me dirigi ao palco New Stage, onde já rolava a apresentação da banda liderada por Courtney Love, outro grupo pelo qual não apresento qualquer simpatia. Confesso que ao chegar próximo ao local da apresentação me surpreendi pela forma de Courtney, que a distância (não havia telão nesse palco), parecia bem. Mas essa impressão logo se foi, quando a vocalista começou a falar com o público, demonstrando total embriaguez (para dizer o mínimo) em sua voz. O pior é que a “embriaguez” se fez notar não só na voz como na postura de Courtney que passou boa parte da apresentação falando com público (leia-se: falando pra caralho). O público pareceu receber bem as músicas mais conhecidas da banda como “Celebrity Skin” e “Violet”, se importando pouco com a forma ridícula como as mesmas eram executadas. Courtney parecia mais preocupada em ficar sacaneando seus companheiros de bandas, chamando-os de viado, do que em tocar com o mínimo de dignidade. O auge do constrangimento se deu quando a vocalista se irritou ao ver uma foto de Kurt Kobain na plateia. Depois disso começou a insultar os membros do Foo Fighters, provavelmente respondendo alguma provação do público. Love se retirou do palco e só voltou por insistência dos companheiros de banda e de uma pessoa da produção que veio ao palco pedir que ninguém mais mencionasse o nome da banda de David Grohl. Um espetáculo patético que, como tal, teve como ponto alto um inusitado cover de “Bad Romance”, de Lady Gaga. Na minha opinião, Courtney Love deveria voltar a se concentrar na sua carreira de atriz, na qual conseguiu fazer sua maior contribuição artística em “O Povo Contra Larry Flynt”. Por isso, pode-se dizer que, com muita boa vontade, o show alcança no máximo uma nota 4.

PETER GABRIEL: Escaldado pelas duas últimas apresentações, resolvi me focar em assistir de um lugar privilegiado o show do Lynyrd Skynyrd. Para isso, me dirigi ao palco Energia para reservar um bom local. Com isso, assisti o show de Peter Gabriel pelo telão, já que o mesmo se deu no palco Consciência. E acho que acertei! O show do ex-vocalista do Genesis parece mesmo ser feito para ser assistido assim. De preferência em um telão na sua casa, sentado numa confortável poltrona. O novo formato do show de Gabriel, com sua orquestra New Blood, não parece nada apropriado para um lugar aberto, menos ainda para um festival com uma variedade enorme de público. Resultado: a recepção do espetáculo foi a mais fria possível. Boa parte do público passou a apresentação sem dar muita atenção ao que acontecia no palco. Confesso que também tive dificuldade de me concentrar, já que estava ansioso para aquilo terminasse o show seguinte começasse. Peter Gabriel é conhecido pela ousadia em tentar coisas novas, e a apresentação só com versões orquestradas de suas canções não foi diferente. Para deixar o show menos atrativo ainda para o público, o set-list foi recheado de canções nada conhecidas do público brasileiro, que em versões orquestradas pareciam vir de outro planeta. Talvez a única canção um pouco mais familiar tenha sido “Biko”, mas que, ainda assim, não tirou da plateia mais do que alguns frios aplausos. Sem dúvida, aquela apresentação estava no local mais inapropriado possível e, por conta, disso, dou uma nota 6, pelo esforço criativo de Gabriel.

LYNYRD SKYNYRD: Ao circular pelo evento vi centenas de pessoas com camisetas do Skynyrd, bandeira dos Confederado, e paramentados com chapéus e roupas de motociclistas. Isso me deu a certeza de que a única banda daquele dia a trazer um público específico para o festival seriam os sulistas estadunidenses. Por conta disso, sem dúvida foi o Skynyrd a banda a ter a recepção mais calorosa daquele dia, apesar do público presente ser pequeno para um festival daquelas proporções. E acredito que aqueles que passaram o dia esperando por aquela apresentação – entre os quais me incluo – não saíram de lá insatisfeitos.

Desde a entrada do grupo, executando “Workin’ for a MCA”, a relação com a plateia foi de total cumplicidade. Em certo momento, eu e meu grande amigo Luiz Felipe Freitas, tomados pelo clima de empolgação do show fomos abordados por uma menina que espantada com aquela reação do público pergunto: “quem está tocando?”. A resposta deixou a menina mais intrigada ainda, com cara de quem nunca havia ouvido falar naquele nome, e incrédula de como aqueles “desconhecidos” podiam causar tamanha comoção dos que ali estavam presentes.

Apesar de serem uma lenda da música norte-americana, o Lynyrd Skynyrd é quase inexpressivo para os que só ouvem as novidades. Por conta disso, as pessoas que cercavam aquele palco estavam ali por um real interesse: a música. O grupo se mostrou totalmente revigorado, mesmo tendo apenas um remanescente de suas formações mais conhecidas nos anos 70. Ainda assim, todos que estavam naquele palco fazem jus ao nome da banda que carregam, não deixando nada a desejar ao som feito orginalmente por Ronnie Van Zant, Allen Collins, Steve Gaines e os outros que já não estão entre nós. Johnny Van Zant consegue levar com competência o legado do irmão, juntamente com o fantástico trio de guitarristas Gary Rossington (o sobrevivente), Rickey Medlocke e Mark Matejka. Essa trinca talvez seja o destaque do grupo. Os três conseguem com maestria manter intacta a tradição do grupo, fazendo trabalhos fantásticos de guitarras gêmeas, alterando-as entre os três. Observar o trabalho dos três guitarristas é um show a parte e vale por si só.

Mas o vigor da apresentação foi muito além disso: o repertório cheio de clássicos (“I Ain’t The One”, “What’s Your Name”, “That Smell”, “Gimme Three Steps”, “Simple Man”, “Sweet Home Alabama”, “Freebird”, entre outros) deixou o público em êxtase. Os hits foram intercalados por canções do último álbum da banda, “God & Guns” (2009), que também foram bem recebidos, mas que na minha opinião vieram em um número excessivo. É claro que toda banda quer mostrar o seu trabalho recente, mas tratando-se de um grupo que nunca havia tocado no Brasil, em uma apresentação curta, como são normalmente as de festivais, os clássicos deveriam compor quase a totalidade do set, dando espaço também para canções menos conhecidas do período áureo da banda e no máximo duas canções novas. Mas isso não foi um problema, já que o fundamental foi tocado e as músicas recentes não são de todo mal e foram bem recebidas. Mas o meu instinto de fã gostaria de ter ouvido algumas faixas como “Gimme Back My Bullets”, “Seaching”, entre outras de preferência pessoal.

Mas infelizmente o show não foi feito só pra mim, e reclamar disso seria um egoísmo. Os pontos altos, na minha opinião, ficaram por conta das baladas clássicas “Simple Man” e Freebird” que emocionaram não só o público, mas também a banda que nitidamente estava impressionada com a recepção e empolgação da plateia. “That Smell” e “What’s Your Name”, logo no começo do show, também fizeram parte da catarse coletiva. Mas nada comparado a execução primorosa do clássico “Sweet Home Alabama”, música pela qual nem tenho muita simpatia por com da demasiada execução – muito clichê –, mas que ao vivo é impossível de não se comover. Sem dúvida a versão que foi executada no festival foi a mais destruidora que já ouvi, com um peso e efeitos diferentes, sendo até difícil explicar o quão bem suou aos ouvidos. Portanto, não há muitos senões a dizer dessa magnífica apresentação, a não ser pelo fato de ter sido curta, por evidentes exigências do festival. Por isso, qualquer nota menor do que um 9, seria uma injustiça enorme.

Confira o especial sobre o Lynyrd Skynyrd feito pelo MOFODEU em:
http://www.mofodeu.com/?p=952

Dia 14 de novembro:

Após um curto período de descanso, voltamos ao SWU, obviamente mais cansados do que na noite anterior. Por conta da longa distância entre o nosso hotel em Indaiatuba e Paulínia, chegamos ao festival por volta das 15:30. Por isso, não acompanhamos o show dos Raimundos.

DUFF MCKAGAN’S LOADED: Quando chegamos a apresentação do Loaded estava quase na metade. Por conta da chuva e do cansaço, nos alojamos na arquibancada coberta, de onde acompanhamos a distância os shows não só do ex-baixista do Guns n’ Roses como os que se seguiram (BRMC, DOWN, 311 e SONIC YOUTH). Como fã do Guns na adolescência, confesso que estava curioso pela apresentação, porém com um pé atrás, pois sabia do gosto de Duff pelo punk rock e hardcore, manifestado em algumas ocasiões mesmo durante sua passagem na banda que o revelou. Exemplo disso foi as escolhas dos covers que Duff fez para fazer parte do disco “The Spaghetti Incident?", que ficaram entre New York Dolls, Stooges e Misfits. O som autoral de sua nova banda ficou numa sonoridade bem parecida às referências apresentadas por ele no “Spaghetti”. Nada que chame demasiado a atenção. O público recebeu bem as canções do Loaded, mas foi só quando o grupo começou a executar canções do Guns que eles realmente caíram nas graças da galera.

Nesse momento Duff trocou a guitarra que toca no Loaded pelo baixo que tocava no Guns e executou “ So Fine” , balada que ele dividia os vocais com Axl, a ótima “Dust ‘n Bones”, “Attitude” (cover do Misfits presente no “Spaghetti”) e “It’s So Easy”. Confesso que o final do show foi um alívio, já que o material da nova banda de Duff McKagan não me agradou em nada. Por ter trazido faixas obscuras do Guns no final do show e por ter tido uma relação muito boa com o público, dou uma nota 6.

BLACK REBEL MOTORCYCLE CLUB: Ter ido me alojar nas arquibancadas do evento foi um alívio, já que ficar de pé, embaixo de chuva, aturando as bandas que vieram na sequência do Loaded seria uma verdadeira tortura. A primeira a abrir a seção de atrocidades musicais foi a Black Rebel Motorcycle Club. Não se engane com o nome, eles não têm nada que remeta ao Motörhead nem ao Black Label Society. O grupo que se apresentou ali parece mais um bando de adolescentes que tocavam numa garagem úmida até semana passada e que acham que são os novos Stooges, só que com uma atitude de bunda-moles profissionais. Os moleques acharam que distorcer um pouco suas guitarras, cantar com voz esganadas e usar roupas de couro os tornariam os rebeldes da motocicleta. O andamento arrastado de algumas canções foi de dar sono e, por mais que pudesse identificar algumas referências do som setentista, a forma pueril com que tocam me fez ter pena do papel que eles estavam fazendo.

A reação do público foi a mais fria possível, fazendo-me pensar: “o que faz um organizador de um festival gastar milhares de dólares para trazer uma banda com nenhum apelo junto ao público brasileiro?”. A única resposta que posso encontrar é que alguma gravadora resolveu investir para tentar criar esse público por aqui. Mas acho que o investimento foi pessimamente empregado. Durante o show, as pessoas que estavam na arquibancada perto de mim se mostraram mais interessadas na gravação do programa de Fernando Caruso (De Cara Limpa, do Multishow) do que no som da banda que tocava. Confesso que também achei muito mais interessante a performance do comediante. Vai levar uma nota 4 para não voltar de mãos vazias.

DOWN: Um alívio foi dado quando o Down subiu ao palco Consciência. O show da banda de Phil Anselmo (ex-Pantera) foi muito prejudicado por conta da péssima qualidade do som que saia dos PA’s para o público. Para a banda o retorno parecia está bom, já que eles tocaram sem demonstrar maior insatisfação. O público próximo ao palco parecia não se importar muito com isso, já que o som que vinha do palco deve ter dado conta de resolver um pouco do problema. Mas quem estava a distância, como no meu caso, tinha a impressão que o bom baterista Jimmy Bower está batendo em baldes de plástico. O estranho é que ao assistir os vídeos da transmissão da TV o som estava bom.

Ainda assim, o show foi interessante. Confesso que não conhecia a banda a fundo e me surpreendi positivamente com o som do grupo. Esperava ver uma banda de thrash metal e vi uma boa banda de metal, com forte influência de Southern rock. A energia de Anselmo e seus companheiros atraiu sem dúvida o maior público da tarde. Essa energia se manifestou até em excesso quando logo no início do show o vocalista arrebentou a testa de tanto bater com o microfone na mesma. O grupo esteve conectado com o público o tempo todo, trazendo uma coleção de riffs pesados e de ótima qualidade. O ótimo de trabalho dos dois guitarristas (Pepper Keenan, ex-Corrosion of Conformity, e Kirk Windstein) deixou clara a influência das guitarras gêmeas imortalizada pelo rock sulista de bandas como o Lynynrd Skynyrd. O momento mais emocionante do show se deu quando Anselmo identificou um fã com um enorme logotipo do Pantera tatuado no peito e claramente se comoveu. Os companheiros de Down logo improvisaram um trecho de “Walk”, uma das mais conhecidas faixas do Pantera. Nesse momento o público que já estava na mão da banda foi ao êxtase. Para fechar, o grupo tocou “Stone The Crown”, seu maior sucesso, encerrando muito bem aquele que foi o melhor show da tarde. Nota 7.

311: O pesadelo da tortura auditiva voltou quando o 311 entrou no palco Energia. Sinceramente não consigo entender o porquê de trazer um grupo como esse para um festival no Brasil, e o pior, coloca-lo para tocar num dia em que nenhuma das demais bandas tem qualquer identidade com a mesma. O som do grupo é tão esdrúxulo que não consigo nem caracterizá-lo direito. Mas eles me pareceram algo como um Limp Bizkit para meninas (de no máximo 12 anos de idade). A mistura de rock e rap, que na minha opinião quase nunca dá certo, no caso do 311 é algo que vai além do constrangedor. O constrangimento vai além quando o DJ – sim, eles têm um DJ – resolve dividir os vocais com o banana do vocalista principal. O tal de S.A. Martinez tem a voz de uma adolescente que acabou de menstruar pela primeira vez. Mas o pior ainda estava por vir, o baterista resolveu fazer um solo que deixaria deuses como Keith Moon e John Bonham se revirando no túmulo. E quando achei que nada poderia piorar, os demais integrantes aparecem “tocando” tambores como se fossem o Olodum com síndrome de down. Um espetáculo patético e totalmente fora de propósito para aquele dia de festival. Eu espero sinceramente nunca mais ter o desprazer de ouví-los. O mais bizarro de tudo é descobrir que esses caras estão na estrada desde 1998 e que aqueles sujeitos todos têm mais de 40 anos de idade. Será que eles não perceberam que já passaram da idade para fazer esse tipo de som? Nota 2, com muita boa vontade.

SONIC YOUTH: “Nada é tão ruim que não possa piorar”. Maldita hora que Edward A. Murphy enunciou essa lei. Ela está sempre certa! Seguindo a linha dos adolescentes que não perceberam que cresceram, subiu ao palco o Sonic Youth. É certo que os adolescentes do Youth são de outro perfil, do tipo rebeldes-sem-causa que querem chocar a sociedade fazendo algo que acham que vai chocar a sociedade. O problema é que, apesar dos longos anos de carreira, a banda não percebeu que o som que eles fazem ao invés de chocar, irrita. Em matéria de show sonolento, o Sonic Youth ganhou com folga do BRMC e do Peter Gabriel. Eu não tenho outra palavra para adjetivar o show do grupo que não seja: enfadonho. Eu sinceramente já me aborreço só com a atitude do grupo, de se achar o suprassumo da alternatividade. Essa retórica do “não estou nem aí pro mainstream” enche o saco. Isso se reflete na postura blasé da banda no palco, que parece está dando um enorme “foda-se” para os magricelas fanáticos de camisa azul com uma máquina de lavar estampada.

Mesmo tocando a maioria dos “hits”, a banda não tirou mais do que meia dúzia de aplausos dos que não vestiam as referidas camisetas. Mas o que mais aborrece são as longas improvisações recheadas de barulhos e microfonias sem qualquer sentido. A soberba do grupo deveria ser combatida com a audição de bons discos do Frank Zappa para que eles entendam o que é fazer uma verdadeira improvisação com sons estranhos. Aquilo que eles fazem é simplesmente o compilado de sons desagradáveis que de maneira nenhuma pode ser tachada de música. Muitos atribuíram a baixa qualidade da apresentação ao clima ruim entre os integrantes do grupo, que estão em processo de separação. Eu atribuo a falta de qualidade mesmo. Sem dúvida foi o pior show que assisti nessa edição do SWU, e darei uma nota 2 só porque seria uma humilhação suprema dar uma nota menor que a dada ao 311.

PRIMUS: O suplício parecia terminar quando começou o show do Primus. Também não sou fã do grupo, mas tenho que admitir que Les Claypool é um show a parte. A figura do baixista, com uma roupa que mistura um visual de Inspetor Clouseau com Alex do “Laranja Mecânica”, já causa imediata estranheza, que só é superada pelo som que ele produz com o seu instrumento. O virtuosismo non-sense de Les Claypool causa ao mesmo tempo admiração e repulsa, num sentimento difícil de ser descrito, mas que inegavelmente faz atrair a atenção para o palco. A estranheza também está presente nas alegorias do palco (grandes astronautas infláveis) e nas insanas imagens do telão. A apresentação animou os presentes e não era raro ver pessoas dançando ao som do que eu resolvi chamar de “freak-funk”. Ao longo do show, toda aquela loucura começa a cansar, e o virtuosismo que antes encantava passa a parecer excesso de exibicionismo. Confesso que se tivesse sobre efeito de algum alucinógeno teria curtido mais o show. Mas como só estava com algumas cervejas na mente, não consigo dar nada mais do que uma nota 5.

Megadeth e seu metal no SWU (Gabriel Quintão)

MEGADETH: A espera foi longa e um pouco dolorosa aos ouvidos, mas a partir 21:30 finalmente passaria a acompanhar bandas que tenho alguma admiração ou simpatia. A primeira delas foi o Megadeth, banda que acompanho desde a minha adolescência mas com sentimentos bem ambíguos. Já tive momentos de adorar o grupo, e outros de achar a pior banda de todos os tempos. Atualmente achei o meio termo e consigo ouvir sem nenhum extremismo. Minha expectativa não era das maiores, pois em 2008 vi uma apresentação no mínimo lamentável da banda no Rio de Janeiro. Naquele show, o grupo parecia sem energia, em péssima forma e sem nenhuma cumplicidade com o público. Achei que veria uma repetição daquilo. Mas eis que veio a surpresa: o show foi bem diferente daquele de 2008. O Megadeth pereceu revigorado depois do lançamento dos bem-sucedidos “Endgame” (2009) e “Th1rt3en” (2011), que foram muito bem aceitos pelo público e pela crítica.

O novo vigor ficou evidente na apresentação logo de cara, em “Trust”, quando ficou claro que, ao contrário do que havia acontecido no Rio três anos antes, a banda estaria em sintonia com público. A atmosfera era muito boa e a plateia recebeu o grupo de forma muito calorosa. Apesar de um repertório curto, a banda conseguiu passar por todas as fases da sua carreira, desde os clássicos trash, passando pela fase menos pesada do meado dos anos 90, até a apresentação de novas faixas como “Public Enemy No. 1”. Um show sem muitas surpresas, mas que me surpreendeu muito positivamente por ter sido infinitamente superior ao que tinha presenciado em 2008. Parece que o Megadeth reencontrou o rumo. Nota 7,5.

STONE TEMPLE PILOTS: Sempre tive um pé atrás com o Stone Temple Pilots. A banda nunca me disse muita coisa e som meio hard sujismundo se não me incomodava também não me agradava. Por isso, minha expectativa para o show era baixa. E foi nisso que me surpreendi. A forma abrupta com que Scott Weiland e seus companheiros adentraram ao palco com a vigorosa “Crackerman” fez com que todos começassem a pular insanamente. A partir disso a banda levou o show com surpreendente competência e com a plateia na mão. A apresentação seguiu em alto nível com hits, como “Wicked Garden” e “Vasoline”, sendo intercalados por poucas canções do último disco do grupo. A forma de Weiland merece um comentário a parte. Após a saída do vocalista do Velvet Revolver por conta dos seus problemas com drogas, esperava vê-lo de uma forma meio deprimente.

No entanto, Weiland se apresentou em ótima forma, com uma presença de palco bem interessante, com a voz bastante preservada e aparentando estar completamente sóbrio. O show ficou um pouco morno após os primeiros vinte minutos, até que a banda tocasse o seu maior sucesso “Plush” e trouxesse o público de volta para o seu lado de forma definitiva. Dali pro final a banda desfilou mais um arsenal de hits como "Interstate Love Song", "Big Bang Baby" e "Sex Type Thing", até fechar de forma bombástica a apresentação com "Trippin' on a Hole in a Paper Heart". Vale ressaltar que todas as faixas executadas ao vivo ganharam uma roupagem bem mais interessante que as versões originais de estúdio, com muito mais peso. Surpreendente! Um dos melhores show do SWU 2011. Nota 8.

ALICE IN CHAINS: A mesma desconfiança que tinha sobre o STP, tinha sobre o Alice in Chains. Nunca fui ardoroso fã das bandas de Seattle, apesar de respeitá-las em sua maioria. Mas o Alice in Chains, de todas, era a das que menos me chamava atenção. No entanto, mais uma vez fui surpreendido com um ótimo show. A minha antipatia pela banda se dava muito por conta de uma certa implicância que tinha com o falecido Layne Staley.

Como me identifiquei com o seu substituto, William DuVall, pude examinar o show com mais isenção. DuVall é sem dúvida um bom vocalista e bastante carismático e conseguiu fazer com que os fãs não se sentissem tão órfãos. O público demonstrou muita empolgação com os hits da banda, apesar da chuva intensa que caia naquele momento sobre Paulínia. No entanto, as três faixas do primeiro disco da nova encarnação do grupo (“Back Gives Away to Blue”) foram encaradas com total indiferença. Algumas canções soam um pouco cansativas para o meu gosto e poderiam ser um pouco mais curtas. Mas gostei muito da atuação do guitarrista Jerry Cantrell, que além de executar bons solos se saiu muito bem como vocal de apoio e também como principal. Mike Inez continua com a mesma competência de sempre, aliada a ótima de presença de palco conhecida também por conta de sua passagem na banda de Ozzy Osbourne em meado dos anos 90. Um show em que a banda demonstrou carisma e competência acima da expectativa. Nota 7.

FAITH NO MORE: A banda que esperava com maior ânsia naquele dia era, sem dúvida, o Faith No More. Ela sempre foi uma das minhas bandas favoritas dos anos 90 e acompanhei o amadurecimento do grupo, que por conta da minha idade, coincidiu também com o amadurecimento do meu gosto musica. O grupo nunca se contentou em ser aquela banda de funk metal que estourou no final dos anos 80 com o “The Real Thing”. Patton e seus companheiros, apesar das inúmeras mudanças de formação, sempre conseguiram fazer bons discos, se reinventando a cada lançamento. Por isso, se tornaram a banda de mil facetas, assumindo a personalidade de seu louco e eclético vocalista – que curiosamente não é membro original do grupo, mas que acabou assumindo o papel de líder. Portanto, nunca pode-se saber o que esperar do Faith No More.

Em 2009, tive a oportunidade de assistir a uma apresentação impecável da banda, no Rio de Janeiro, que logo entrou no hall dos meus shows favoritos. As impressões sobre aquele show, deixei em uma resenha que escrevi na época para o Whiplash (link abaixo). Por isso, não poderia deixar de prestigiar novamente a banda.

Faith No More: maturidade com o vigor adolescente no Rio

E como previsto, o Faith No More apresentou um caminhão de surpresas. O insano concerto começou com a insanidade do poeta Cacau Gomes, convidado pessoalmente por Patton que tem uma forte ligação com a cultura brasileira. Logo em seguida, a banda trouxe a faixa mais insana – e das menos conhecidas – do “The Real Thing”: “Woodpeckers From Mars”. Logo de cara, eles mostraram para que vieram: ensandecer a plateia. O insano Patton, vestido como um Zé Pilintra, é a essência de um showman: presença de palco impecável, carisma, uma voz privilegiada e, é claro, insanidade. A galera foi a loucura com o hit “From Out of Nowhere”, que foram seguidas da energéticas “Last Cup of Sorrow” e “Caffeine”. O ritmo de insanidade deu uma brecada quando Patton e companhia entoaram a balada “Evidence”, em português, como sempre tentam fazer em países lusófonos. A simpatia de Patton pelo Brasil vai além do esforço em falar a nossa língua. Ele passa longos períodos no Brasil e conhece bastante da nossa música e cultura e tenta sempre incorporar esses elementos em sua arte. A decoração do palco e os figurinos dos músicos, por exemplo, são claramente inspirados na umbanda. Em “Midlife Crisis”, após o público cantar por conta o refrão, o grupo emendou uma improvisação que tentava ser algo como um samba.

O ritmo pegado do show era intercalado sempre por baladas como “Easy” (cover dos Commodores). O maior hit do grupo “Epic” – que teve uma recepção extasiada do público – foi seguida por “Just a Man”, acompanhada pelo Coral de Crianças de Heliópolis, que fez um final emocionante para a balada. A banda ainda voltaria ao palco para o primeiro bis programado, no qual executaram uma faixa inédita, que Patton tem dito que é um outtake de “King For a Day” como forma de despistar especulações sobre um novo trabalho. Seguiram-se “Digging The Grave” e o inusitado cover de Burt Bacharach “This Guy's in Love with You”.

A banda se retirou uma vez mais, mas todos esperavam mais um bis, que foi cortado por conta de uma queima de fogos, aparentemente fora de hora, de que acabou por encerrar o show antes do previsto. Infelizmente, pois ainda estavam previstas “Stripsearch” e “We Care a Lot”. A ausência das duas canções, no entanto, não fez com que o show não pudesse ser qualificado como excelente, sendo, sem dúvida, o melhor daquele dia. No entanto, ainda fico com o show de 2009 como um dos meus favoritos, principalmente por que naquela ocasião só haviam fãs da banda no local, ao contrário do público do festival que é muito mesclado e as vezes faz parecer que o público é mais frio. Mas com tudo isso, dou uma nota 8,5 para o show, sendo que Mike Patton merece um 10 pelo artista que é. Para definir o show e Patton, só usando mais uma vez a palavra que mais repeti nessa análise: INSANO!

Podemos dizer que o festival valeu a pena, apesar de muitos equívocos na escalação, em especial na introdução de bandas que não tem o mesmo perfil no mesmo dia. Mas os grandes shows de Lynyrd Skynyrd, Megadeth, Stone Temple Pilots, Alice In Chains e Faith No More, fizeram com que os problemas fossem superados, fazendo valer todo o esforço empreendido não só pelos organizadores, mas pelo público que se dirigiu a Paulínia para prestigiar a edição 2011 do SWU.

Que 2012 seja ainda melhor.

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Sobre Vitor Bemvindo

Historiador de formação, tem verdadeira adoração pelo Rock and Roll desde sua infância. Seu instinto de pesquisador fez com que "se especializasse" em bandas velhas, especificamente as das décadas de 1960 e 1970. Produz e apresenta o MOFODEU (www.mofodeu.com), o Programa que tira o MOFO do ROCK, juntamente com seu parceiro Luiz Felipe Freitas (a Enciclopédia do Rock). O Programa está no ar desde 2007, tocando só bandas sessentista e setentistas sempre com muita informação e bom humor.

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