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Ratos de Porão (Hangar 110, São Paulo, 11/11/11)

Por Fernanda Lira | Em 13/11/11
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A última sexta-feira em São Paulo prometia ser histórica para o underground brasileiro no que diz respeito à música pesada. Sei que esse começo parece meio clichê, já que boa parte das resenhas que vemos por aí sempre começam com algo que engrandeça o evento, mas dessa vez, o que estava por vir era REALMENTE inesquecível. Isso porque o Ratos de Porão celebraria seus nada menos que trinta anos de carreira com um show no Hangar 110, que na semana recebeu a banda Satyricon.

O texto representa a opinião do autor e não a opinião do Whiplash.Net ou de seus editores.

Como se apenas o fato de comemorar essa incrível marca não bastasse, a banda prometeu a participação especial de quase todos os ex-integrantes do grupo, coisa que muitos jamais imaginariam estar vivos para ver, afinal, acompanhar ao vivo a formação, por exemplo, que gravou Brasil e Anarkophobia, dois de meus favoritos, é digno de muita emoção.

Só uma coisa me incomodou desde o começo e o que eu previa infelizmente ocorreu: o Hangar, apesar de já tradicional, é uma casa pequena que comporta shows de pequeno e médio porte apenas. Levando em conta que esta seria uma data especial e que o RDP é uma das poucas bandas nacionais que unem e agradam sem problemas a fãs de punk, hardcore e metal, eu sabia que o público seria bem grande, e o que tristemente aconteceu foi que muita gente ficou de fora, já que os ingressos já haviam se esgotado boas horas antes do show. Uma pena, já que certamente muitos daqueles fãs die hard acabaram ficando sem poder fazer parte de uma noite tão memorável.

O outro ponto negativo, pelo menos pra mim, foi o fato de eu não poder ter acompanhado as bandas de abertura, devido ao já famoso trânsito quase imóvel da capital. Mas, segundo quem conferiu as apresentações dos americanos do Conquest for Death e dos brazucas do D.E.R., eles cumpriram muito bem seu papel de aquecer o público para a grande atração da noite.

Quando entrei no já então abarrotado Hangar 110 (nunca tinha visto mais cheio), estava passando no telão o maravilhoso e recém lançado (pela produtora Black Vomit) documentário sobre o Ratos, Guidable, que é uma boa dica para entender melhor a trajetória desses caras e entender o por quê de ver todos os integrantes reunidos nesse dia, era tão especial para quem estava ali.

Um pouco depois das dez da noite e após a extensa fila ter toda adentrado o local, subia ao palco sob muitos aplausos Jão, acompanhado pelo ex-baixista Jabá (seu companheiro de banda no Periferia S.A.) e Betinho, para tocar a música "Por quê?", a primeira composição do grupo, lá em meados de 1981.

O RDP preparou um set list que foi um verdadeiro presente para os fãs mais aficionados e que realmente conhecem a banda a fundo, como vocês perceberão ao longo do texto. A fim de que todos os ex-integrantes participassem, foram tocados sons de toda a carreira em ordem cronológica, fazendo com que um verdadeiro filme se passasse na cabeça de que acompanhou música a música. Essa formação tocou apenas mais uma música, "Corrupção", e em seguida Mingau se juntou para que fossem tocadas "Vida Ruim", "Não Podemos Falar", e também para prestar uma homenagem a Redson, vocalista da banda de punk Cólera, que faleceu recentemente.

Betinho deixa o palco e quem agora entra, após cumprimentar seu filhinho Pietro que assistiu a tudo com vista privilegiada ao lado de um dos amplificadores, é João Gordo, um dos vocalistas com performance mais carismática que conheço. Outra mudança que ocorreu, foi Jão ir para a bateria para que fossem tocadas a clássica "Morrer" e "Asas da Vingança". Pude perceber que além de alguns probleminhas recorrentes no som, o vocal do Gordo se mostrou baixo e muitas das partes do show. Durante toda a apresentação, entre uma música e outra ele falava coisas da história da banda relacionadas à música que iria ser executada em seguida, mas, pelo menos do ponto em que eu estava, por diversas vezes, mal pude escutar o que ele dizia! Porém, me lembro que ao apresentar o próximo a fazer uma jam, ele falou algo como "ele saiu por causa de mulher". Quem assistiu ao documentário sabe muito bem que ele falava do baterista Spaguetti, que assumiu as baquetas e fez, na minha opinião, uma das melhores participações da noite. Além de aparentar estar extremamente em forma e tocando algumas músicas até mais rápidas do que são, foi mágico ver a formação que gravou alguns dos álbuns que eu mais gosto. Foram tocadas "No Junk", "Tattoo Maniax", "Morte e Desespero", "Terra do Carnaval", "S.O.S. País Falido" e "Escravo da TV".

Novamente há substituições, e quem dá as caras são o baixista Walter e o batera Boka, integrante que permanece até hoje no time do RDP. Eles mandam o inusitado cover de Peter Frampton, "Breaking All the Rules", que integra o considerado um pouco mais fraco álbum "Just Another Crime in MassacreLand" e "Quando Ci Vuole". Após um breve de discurso de Jão sobre a ausência de Rafael "Pica-Pau", alegando algo relacionado a Igreja Budista, Gordo oferece a música "Atitude Zero" a ele enquanto Fralda fica a cargo das quatro cordas, para suprir a falta dele. Na sequência, são tocadas "Guerra Civil Canibal", "Engrenagem" e "Necrochorume", encerrando essa jam, para a entrada de Juninho Sangiorgio, que firma a formação atual da banda.

Antes de começar a falar sobre a parte final da noite, sem dúvida é preciso comentar sobre o público, que teve um papel essencial para que o show fosse tão marcante. Além de, novamente, terem lotado o bar, cantaram quase todas as músicas, até aquelas mais obscuras, não cessaram por um minuto os moshpits, tão comuns em shows da banda, e ovacionaram e gritaram o nome de todos os integrantes ali, mostrando a eles a importância de cada um deles para a sólida carreira do Ratos até hoje. Foi emocionante ver a participação intensa dos fãs, de vários estilos diferentes entre si, dos quai muitos eram headbangers. Legal ver isso bem na mesma semana em que ocorreu uma enorme polêmica acerca da "morte do metal nacional", que "só é representado pelo Sepultura e Angra". Alfinetadas à parte, palmas para os fãs.

Já próximo ao fim do set, foram tocadas Pedofilia Santa, Expresso da Escravidão e Paradoxos da Soberba. Após isso, aconteceu um dos momentos mais agitados da noite, onde foram tocados aqueles clássicos absolutos, fugindo da lógica cronológica adotada até então. Quando anunciada, "Crucificados pelo Sistema" alterou para mais agitado os ânimos de todo mundo ali, inclusive de quem escreve a vocês. Os stage-dives, cada vez mais intensos e os bate-cabeças absurdamente grandes tomaram conta também durante "Sofrer" e "Beber Até Morrer". Outra matadora foi "Aids, Pop, Repressão", cantada a plenos pulmões e celebrada por quem está mais íntimo das mais conhecidas da banda.

Com a introdução parecidíssima com a do indispensável álbum ao vivo lançado em 1992, "Herança", pelo menos para mim, inédita e inesperada, foi hiper bem recebida e foi nela que adquiri belos três 'galos' na cabeça e um joelho imobilizado por conta de um mosh de cabeça no p.a. e um mal-sucedido que me fez cair de cara no chão. Mas, com "Crise Geral" e "Periferia" na sequência, quem se importa com uma hematomazinho ou outro? Isso nada mais é que o resultado de ouvir músicas tão intensas e particularmente especiais - quem saiu de lá suado, com a roupa suja e abarrotada e roxos pelo corpo estava apenas cumprindo o imortal lema de estar "vivendo cada dia mais sujinho e agressivinho"!

Com todos os integrantes no palco, chegava a hora do fim. Poucas bandas conseguem atingir a marca de trinta anos de estrada de forma tão louvável como o Ratos e sem dúvida me orgulhei de estar presente em uma noite histórica como esta. Nada resta além de desejar que venham trinta anos mais e que possamos celebrar marcar como essa com outros grandes nomes da cena nacional, afinal, o que não faltam são bandas de qualidade.

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Sobre Fernanda Lira

Mora em São Paulo e cursa o 3º ano de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Atua na área como jornalista e fotógrafa há um bom tempo, colaborando com matérias para sites e outros meios especializados no gênero. Já foi redatora e assistente de edição da revista Rock Brigade e atualmente, além do Whiplash!, colabora para a rádio Heavy Nation da UOL. Tem 21 anos, e há mais de dez encara o metal não como um estilo de música, mas como um estilo de vida. Curte de Slayer a Stryper, de Motley Crue a Napalm Death, de Nightwish a Venom, enfim: aprecia desde a NWOBHM até o mais extremo do Death Metal.

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