Aerosmith: pelo menos no palco, novamente de bem com a vida

Resenha - Aerosmith (Parque Antártica, São Paulo, 29/05/2010)

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Por Bento Araújo
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Parecia um sonho assistir o Aerosmith pela terceira vez em Sampa: em 1993 eles vieram em pleno gás da tour de Get A Grip; voltaram em 2007, novamente no gigantesco estádio do Morumbi, e agora se apresentaram no menor, mais aconchegante e bem mais bem localizado estádio do Palmeiras, o Parque Antártica.

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Depois de muita lavação de roupa suja em público e ameaças de processos, a banda fez as “pazes” afetivas e financeiras e voltou a excursionar com Steven Tyler, que chegou inclusive quase a ser demitido do grupo. Para o bem geral da nação do rock n’ roll, Tyler voltou, e assim continua dando sequência à saga da gloriosa banda, uma das poucas no globo que ainda pode bater no peito e bradar que está na estrada com sua formação clássica original, a mesma que gravou o primeiro álbum lá em 1973.

A abertura do show desta noite ficou por conta do Cachorro Grande, que fez uma bela apresentação; com a garra, energia, simpatia e rock de sempre. Bela escolha dos organizadores como supporting act!

Depois de um intervalo, desce da parte superior do palco o imenso pano negro com a logomarca da banda, para o delírio dos presentes. Atrás da cortina, adentra ao palco cinco autênticos rock n’ survivors e a coisa esquenta pra valer com a percussão tribal jorrando dos PAs, sim, é “Eat The Rich”, que coloca o estádio do Palestra Itália abaixo em questão de segundos...

Ali na frente do palco o som estava bom, coisa rara aqui no Brasil, e foi muito agradável encontrar esses nossos velhos companheiros: Brad Whitford está diferente, com visual meio “mano”, com óculos escuros e toca de rapper; Tom Hamilton continua elegante e discreto como sempre; Joey Kramer mantém o gás e seus “tiques” típicos dos bateristas; Steven Tyler é um mestre da performance e do entretenimento rocker, com milhares de pessoas nas palmas de suas mãos durante todo o show; e Joe Perry... Espera um pouco, esse cara merece um parágrafo só pra ele...

Cheguei no Parque Antártica, peguei minha cerveja e busquei o lado direito do palco, onde Joe “fuckin’” Perry logo estaria começando mais uma de suas aulas de puro rock. No primeiro módulo ele ensinou como se vestir: couro dos pés a cabeça, digno de um sujeito com pedigree no assunto, membro de um seleto time de caras como Marlon Brando, Gene Vincent, Jim Morrison e John Lennon no comecinho, na época de Quarryman; todos devidamente trajando couro negro. No segundo módulo, o mais extenso da aula do dia, Perry demonstrou como tocar guitarra, ter pegada autêntica, ter carisma no palco e ainda como ser um cara de estilo único, assimilando os ensinamentos de seus três guitar heros dos Yardbirds (Page, Beck e Clapton) e passando adiante isso tudo, influenciando caras como Slash e 99% dos guitarristas do hard rock dos anos 80. Em certos momentos do show, Perry duelou com sua versão virtual do game Guitar Hero no telão, garantindo e mostrando que a “the real thing” é sempre infinitamente superior; e em outros, usou o teremin, instrumento imortalizado no rock por Jimmy Page. Perry também desfilou algumas de suas 600 guitarras: Stratos, Les Pauls, SGs, peças de um ou dois braços, e sua clássica Dan Armstrong transparente de corpo sólido em acrílico. Que sustain!

A segunda canção da noite foi uma surpresa para os fãs das antigas, “Back In The Saddle”, hino que abre o disco mais denso, dark e dopado da banda, Rocks, de 1976, um ano em que cerca de 80% da plateia dessa noite sequer havia nascido. Impressionante a quantidade de teens no show do Aerosmith, banda que graças a seu renascimento comercial e criativo no final dos anos 80 vem reciclando seu público a cada instante. Falando dessa fase de renascimento, a próxima é “Love in an Elevator”, do disco Pump, de 1989, um marco da fase mais “moderna” da banda.

De se louvar também o fato do grupo a cada apresentação mudar seu set list, dando um toque de aventura e surpresa no show. Além disso, são poucas as bandas que podem se dar ao luxo de fazer três shows diferentes, repleto de hits, sem repetir nenhuma canção; e o Aero tem bala na agulha suficiente pra isso. Esse tipo de coisa fica nítida na medida em que o show ia se desenrolando: “Falling in Love (Is Hard on the Knees)”, “Pink”, “Livin’ on the Edge”, “Jaded”, “Crazy” e “Crying”. Nessa última, Steven Tyler faz tradicionalmente aquele solinho de gaita no final; o fato hilário da noite é que ele não achava a sua gaita, e ficou procurando nos bolsos de sua calça. O instrumento estava lá onde você deve estar imaginando: Steven lascou a mão nas suas partes íntimas, deu uma “cheiradinha” nas mãos e na gaita (para as gargalhadas do pessoal) e mandou ver em seu solo. No telão de alta definição no fundo do palco, câmeras captavam a plateia: garotinhas adolescentes mostrando um coração de pelúcia com o nome “Steven Tyler” estampado... Pois é, Tyler, com seus 63 anos nas costas, passado junkie, e corpinho de 30, bate ombro a ombro com qualquer banda teen. Ainda bem que essa garotada está no show do Aerosmith, mas pelo visual de algumas garotinhas da plateia, bem que elas poderiam estar no show dos Jonas Brothers. Hilário.

Em “Dream On”, a composição mais dramática e liricamente séria da banda, o estádio entra em transe com Tyler e na excelente “Kings and Queens” o vocalista promove uma volta no tempo a 1977, época de Draw The Line. No comecinho de “What It Takes”, Tyler vai para a ponta do palco e canta sozinho as primeiras frases da música. Quer dizer, quase canta, pois a galera literalmente tira o microfone de suas mãos para cantar em uníssono; o cara, é claro, fica visivelmente emocionado e vai à loucura com os paulistas. “You Rock São Paulo” ele gritaria no final do show...

A melhor faixa da noite foi a clássica “Lord of the Thighs”, de Get Your Wings, de 1974, época em que o grupo era genuinamente perigoso a ponto de Tyler posar na capa com seu lenço repleto de drogas penduradas. Nesse momento do show o clima pesava e o Aerosmith voltava a ser a banda que topava qualquer parada nos anos 70. Rock pra cacete, com direito a muito improviso (com Whitford mandando ver num belo e longo solo e Tyler nas maracas). O clima continuou vibrante em “Stop Messin' Around”, “Sweet Emotion” e “Baby Please Don't Go”. Em “Sweet Emotion”, Perry desenterrou seu indefectível talk box, um artefato para guitarra muito usado nos anos 70, e totalmente fora de moda atualmente, assim como o teremin. No meio da canção, parecia que estávamos vendo o Led Zeppelin em alguma parte de “Whole Lotta Love”, com Joey Kramer inclusive brincando com ataques e viradas inspiradas nas de John Bonham. Delírio total! Durante o solo de Kramer, Tyler deu uma canjinha, atacando surdos e tons com suas baquetas. Pra quem não sabe, ele era baterista no início de sua carreira musical.

Outro ápice da noite foi “Draw the Line”, com Perry assumindo de vez a imagem bad boy da banda. Com sua guitarra transparente de acrílico, e seu slide infernal, o guitarrista foi minando a canção que literalmente explodiu no final, com Perry descendo ensandecido do praticável da bateria e rolando pelo chão, com guitarra e tudo! O guitarrista se levantou e deixou o palco com o restante da banda a tiracolo... Na escuridão completa, sua guitarra agonizava, ainda no chão, emitindo feedbacks e microfonias por um bom tempo. Era o final mais apropriado de um set perfeito...

Para a encore a banda voltou com tudo. Um roadie pendurou uma bandeira brasileira com o símbolo do grupo nos amplificadores de Tom Hamilton e Joey Kramer puxou a batida inconfundível de “Walk This Way”. Festa total no estádio. A despedida foi com a visceral “Toys in the Attic”, em versão ainda mais vitaminada do que a do disco homônimo de 1975. Adrenalina pura.

Tudo termina, e com as luzes do palco todas acesas, Tyler apresenta a banda toda... Perry fica por último e na sequência apresenta Tyler como “o maior vocalista do planeta”. A multidão entra em colapso e grita ao mesmo tempo... Parece que pelo menos no palco, Tyler e os rapazes estão novamente de bem com a vida e com o rock n’roll...

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Sobre Bento Araújo

Bento Araújo nasceu em 1976. É jornalista profissional e adora a música dos anos 60 e 70. É o editor chefe da Poeira Zine, a única publicação do país dedicada à música dos bons tempos. Lá ele escreve os textos, faz a diagramação, cuida da arte, do visual, faz 'a social' com os anunciantes, distribui, faz correio, banco, responde os e-mails e as cartas e também limpa o banheiro da redação... Além de tudo isso, o cara ainda tira uma onda tocando contra-baixo pela noite paulistana, além de vez ou outra fazer um 'bico' em alguma loja de discos em troca de raridades vinílicas... O Editor também oferece seus serviços jornalísticos e musicais a quem se interessar... (nada que uns bons dólares não possam resolver...)

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