Em 08/03/2010 | Resenha - Guns N' Roses (Ginásio Nilson Nelson, Brasília, 08/03/10)

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Resenha - Guns N' Roses (Ginásio Nilson Nelson, Brasília, 08/03/10)

Por Sabrina Felinto

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Só o que não foi publicado é que não foi dito sobre GUNS N’ ROSES até hoje, de “a banda mais perigosa do mundo” até “cabide de empregos”, nos anos mais recentes. A brincadeira que eu tenho feito por esses dias de Guns no Brasil é que, com oito integrantes, bastaria Axl chamar dois percussionistas e estaria formada uma versão hard rock do Monobloco. :)

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

Foi com esse espírito, meio brincalhão e absolutamente incrédulo – afinal, estou em Brasília, e a nossa versão para “o dia de São Nunca” era “o dia em que o Guns N’ Roses vier tocar aqui” – que me dirigi ao Ginásio Nilson Nelson, também conhecido como O Vale dos Ecos, pra ver a banda do meu coração, a minha primeira e definitiva ligação com o rock.

Eu confesso que estava ressabiada. Depois de (no meu caso) sete anos esperando pelo lançamento de "Chinese Democracy" (um bom disco, mas não o melhor) e várias alterações na banda, eu não sabia se encontraria uma banda coesa, com o talento a que eu estava acostumada ou, como disse um não-simpatizante aqui da cidade, “Axl & Funcionários”.

Cheguei ao ginásio por volta das 18h30 e aquilo fervia. Não estamos acostumados a tanta gente junta por uma (boa) causa. As camisetas, bandeiras e bandanas estavam em meninos de dez anos e em homens de cinqüenta. Alguns cambistas anunciavam “compro ingresso”; tive que rir: que fã em sã consciência, a menos que estivesse, sei lá, com a mãe morrendo, venderia o seu?

Infelizmente – muito! – eu estava na pista comum. O ginásio é relativamente pequeno, e eu achei que minha visão não seria assim tãããão prejudicada. Mal eu sabia que ficaria de tal modo eufórica, que desejaria mais tarde ter visto o show pendurada na barra da calça de Axl – que ele reclamou o tempo todo que estava caindo, talvez por força do meu pensamento!

Às 20h30, numa pontualidade surpreendente, entrou a “pré-abertura”, uma banda local de metal progressivo chamada Khallice. Vou me abster de maiores comentários mas, para que se tenha uma idéia, na terceira música já se comentava que a banda poderia trocar de nome e se chamar Cale-se. Daí vocês tiram.

Por volta de 21h15, Sebastian Bach deu o ar de sua (muita) graça. Com as pernas longuíssimas dentro de calças de couro (hhmmmmm!!) e o cabelo louro esvoaçante, cumprimentou o público e disparou a falar em português entre as músicas. De “boa noite, Brasília!” a “Hoje Brasília vai ser a capital do rock n’ roll !!!”, o empolgado e simpaticíssimo Bach lembrou um pouco o Axl do RIR3, tamanho o fuzuê que fez com a platéia. Em termos musicais, não sei o que ele fez para conservar a mesma voz de 20 anos atrás, mas, seja o que for, se fosse ele, eu engarrafava o segredo e vendia, porque dá certo!

Eu conheço muito pouco de seu repertório novo – e ele hoje canta bem mais heavy metal do que no passado – então só “tirei o pé do chão”, como ele mesmo pediu, nas clássicas "18 And A Life", "Monkey Business" e na suprema e inigualável "I Remember You"; na qual não só tirei o corpo todo do chão como quase o esvaziei de alma também, de tanto que chorei ao ouvir uma das músicas que mais gosto na vida executada ao vivo, pelo artista original, e com uma perfeição embasbacante.

Depois do show do Bach eu sabia que a espera seria longa. Eu não contava era com o arrastão – sim, lembram da moda no RJ, de roubos disparados na multidão? – pois é, ele mesmo. Acabei sendo “levada” para ainda mais longe do palco. Felizmente, não me machuquei nem fui roubada.

Depois de um senta (no chão) - e - levanta de quase duas horas, de uma parte do público vaiar (não entendi, ninguém conhece os atrasos do Axl não?) , do cansaço se apossar do meu corpo e de observar o surgimento “mágico” (de onde saiu aquele palco monstro?) das toneladas de equipamentos, finalmente "Chinese Democracy World Tour" começou em Brasília, mais ou menos às 00h15.

A primeira figura que se vê é Ashba, sua sombra contra um fundo amarelo. O cenário é maravilhoso, uma produção que me surpreendeu. Acima do palco de dois níveis, bateria no centro, há três telões e quatro colunas de laser onde brilham caracteres chineses, jogos de luz e clipes que se revezam e se fundem; além de colunas de fogos, fogos de artifício, explosões, tudo ressoando numa altura e num alcance que a mera visão dos reflexos coloridos fazia o público todo ficar espantado feito criança. O teto se ilumina de vários tons. Diante da grandiosidade, meu olhos se encheram de lágrimas só por estar ali; toda a produção parecia uma gigante festa surpresa.

"Chinese Democracy" é a primeira música. Olhando em volta, percebi espantada que praticamente só eu sabia a letra. Acho uma das melhores do disco, então cantei como se o show fosse acabar ali. Mas, como eu escrevi anos atrás, nada se compara com a sensação de fim do mundo, de maravilhoso caos, de bomba atômica que é "Welcome To The Jungle". Quando eu ouvi aquela voz rouca e metálica berrar “Do you know where the fuck you aaaaaare??” eu posso ter me elevado uns dois metros do chão, pelo pulo que dei. Não podia acreditar que eu estava ali. Não eu. Não depois desses anos todos. Não podia ser Axl Rose. Mais uma vez, chorei (enquanto pulava!).

Em "It’s So Easy", DJAshba já começava a mostrar a que veio, e também sua boa interação com Axl, que até esta altura não foi reconhecido pelos meus olhos como estando, de fato, ali. Parecia um boneco que canta, como assim ele veio na minha cidade? As pessoas podem falar o que quiserem de Axl Rose, provavelmente com razão, mas ele é como carne vermelha: todo mundo critica, mas se aparecer na sua frente, você quer roer até o osso. O ginásio delirava com a mera visão do cara, poucos artistas promovem a histeria que ele causa só por estarem presentes. Alguém jogou uma bandeira do Brasil, Axl a pegou, rodou, pôs no ombro. O público baba e se esgoela.

Então ele fez a famosa dancinha em "Mr. Brownstone". Não me lembro se foi nessa hora, mas alguém da platéia VIP lhe jogou um baseado. Axl pegou, pôs na boca, sentiu o gosto e disse: “Huuummm, thanks, man!”. Risadas gerais, foi a primeira vez que ele interagiu “de verdade” com a platéia.

Em seguida, uma interpretação estranha de "Sorry", mais falada do que cantada. Mais tarde, os jornalistas presentes – descobri que a imprensa não manda repórteres pra esses shows, manda odiadores, deve ser pra punir os maus funcionários! – dirão que Axl estava “sem voz” (uma crítica velha, aliás, porque não escrevem que ele está barrigudinho? Pelo menos isso é verdade!). Há opiniões divergentes entre o público. A platéia VIP conseguia ouvir Axl respirar. Na pista, de fato, os graves estavam saindo prejudicados. Na arquibancada, os efeitos sonoros saíam tão altos que muita gente declarou não tê-lo ouvido em boa parte das músicas. Considerando que a acústica do ginásio, apesar do bom equipamento, é uma bosta, não se pode chegar a uma unanimidade. Minha opinião é que, ao contrário de Sebastian Bach, Axl não preservou em todos os aspectos a voz do “antigo” Guns N’ Roses, e não há nada de surpreendente nisso. Um homem tem 48 anos e bebeu, fumou e usou quase todo tipo de substância lícita e ilícita conhecidas, além de ter tido um bom hiato de anos sem cantar com freqüência, Axl está como se esperaria de alguém que levou a vida como ele. Porém seus agudos, drives e modulações de voz estão absolutamente preservados: disso, ninguém pode dizer o contrário. Bach, de fato, é um fenômeno, porque viveu quase do mesmo jeito e teve a voz preservada.

Praticamente sozinha, de novo, me animei com "Better", que também acho muito boa. Em seguida, Fortus entra pro solo e... como ele é glam, não? A cara do Joe Perry do Aerosmith, alguém precisa dizer isso pra ele! :) "Live And Let Die" é acompanhada de muitas explosões, e meu corpo felizmente ainda agüenta pular. O de Axl agüenta correr de um lado pro outro, várias e várias vezes. Barrigudo, mas em forma! :)

A performance de "If The World" me soou meio desafinada, mas os instrumentos estão perfeitos. É uma música muito gostosa, adoro a linha do baixo. Por falar em baixo, Tommy Stinson traz a mesma competência e menos lápis de olho do que usou no RIR3. :) Também vai muito bem nos vocais, mas achei-o mais contido no palco do que quando ele havia recém-começado na banda.

Foi tão bom ouvir "Rocket Queen" ao vivo! Tem gosto de adolescência, minha fase inicial de fã. Nos telões, um desfile de mulheres de silhueta atraente. Então, Dizzy ao piano, um solo lindo, emendado com o início de Street Of Dreams, de novo uma do meu coração. Pra quê eu fui parar de pular? Agora, o cansaço bateu mesmo. De certa forma é bom, me recupero encostada na mureta da mesa de som, cantando – sozinha – aquela letra inspirada.

Eu, particularmente, não gosto muito de "Scraped". Tudo bem que é animadinha e tal, mas, fora o refrão, nunca me liguei muito nela. Aproveitei pra olhar o ginásio, repleto. Como já diziam: “sonho que se sonha junto é realidade”, então nesse momento eu fui me dar conta que havia outras milhares pessoas ali, e que pelo menos a maior parte delas devia estar se sentido realizada. Ri bobamente, sozinha, e pensei: “cara(lho!), como estou feliz!”

Nessas divagações, quase perdi o início do solo do lindo, maravilhoso, vitaminado, salve, salve DJAshba. Ashba é um caso à parte no Guns. Seu carisma, animação, a forma como interage com o público, são só a cereja no enorme bolo de talento que ele tem. Com perdão dos saudosistas, se eu não estivesse olhando, acharia que Slash estava escondido em algum lugar no palco. Ashba é perfeito, e é melhor que Buckethead. Se é verdade que essa banda é “Axl & Funcionários”, pelo menos Axl sabe contratar os caras certos. Ashba não pára! Pede palmas, deixa o público agarrá-lo, joga palheta, chapéu, garrafas d’água (chegou mesmo a buscar água pra quem pediu!), conversa com o público, se joga na galera – literalmente, ele deu o jump de costas! Em termos de simpatia e espontaneidade, ele é tudo o que Axl não é. Minha impressão era que a gente ia sair de lá dando carona pra ele até o hotel. ;)

Quando Axl sentou ao piano, instalou-se uma atmosfera elétrica no ginásio, e todos sabiam o que viria a seguir. De surpresa, então, a banda mandou um mini-cover de The Wall, do Pink Floyd, com Axl nos vocais, acompanhado em coro frenético pela platéia. Eu descobri a Grande Contemplação quando percebi que era inútil tentar cantar algumas músicas. Eu estava tão emocionada, tão emocionada, mas tããããão emocionada, que minha vida parecia ter se esvaído pelo pé. Eu balbuciava as palavras e, escorada na muretinha amiga, esperava que Deus me levasse, porque eu estava pronta. Eu tinha ouvido "Sweet Child O’ Mine" (execução perfeita!!!) e "November Rain" ao vivo. "Sweet Child O’ Mine" ultrapassou a categoria de música e alcançou a de hino, e nessa hora Ashba mostra porque foi tantas vezes eleito o melhor guitarrista do mundo. Em "November Rain", Axl está ao piano branco, cai uma chuva de fogos de artifício, e rola a clássica “paradinha” antes do final. Creio que descobri ali o sentido da vida. :)

Eu estava muito cansada – ou muito em êxtase – pra pular em "You Could Be Mine" (que Axl ironicamente anunciou como “uma música de amor”), mas não para reconhecer que Frank Ferrer é um puta baterista – e era nessa música mesmo que ele tinha que mostrar serviço. O solo de Bumblefoot, meu guitarrista mais querido da banda, é o tema da Pantera Cor-de-Rosa. O público adora, o cara é mesmo divertido!

Quando Axl entrou, de chapéu branco, pra cantar "Knockin’ On Heaven’s Door", o amigo que estava comigo disse, falando sério: “Que susto! Pensei que fosse o Geraldo Azevedo!”. Aí acabou a música pra mim, porque era eu olhar pro Axl e disparar numa crise de riso. Arruinou a beleza do momento! :D
Taí, eu não gosto mesmo de "Slacker’s Revenge". Acho um som muito “sujo” pros padrões do Guns. Passo por ela sem comentar. "Patience" também me desagradou, o Ashba fez umas mudanças no arranjo, e pra mim a música deveria ser imutável.
Fiquei surpresa ao ouvir "Nightrain", pensei que seria "My Michelle". Gosto demais de "Nightrain", e ali dei a pulada final que meu corpo agüentava. Encerramento. Obrigado e boa noite. Claro que quase ninguém arredou pé, e logo Axl estava de volta com "Madagascar", pra mim a pérola de "Chinese Democracy". Que arranjos, que letra! Ela é a "Estranged" dos dias de hoje.

Quando vi que o final estava chegando, desesperei. Deu vontade de sair correndo e pular em todo mundo. Me juntei a alguns amigos mais na frente e pulei louca e alucinadamente em "Paradise City". Tive não sei saída de onde a energia do início do show. Chorei de novo. Mais uma vez, o mundo acabando. A platéia VIP então desenrolou a bandeira de 5 metros de comprimento que fizeram em homenagem a banda, e que cobria todos os fãs daquela área. Axl, espantado, parou de cantar um momento e mandou um “Holy Shit!” engraçadíssimo. Ele sorriu e chamou Ashba. Todos os músicos ficaram sorrindo, bobos. Enquanto a bandeira terminava de se desdobrar, caiu a chuva de papel picado. Parecia uma cena final de filme. Meio engasgado, Axl agradeceu, disse que demorou muito pra voltar ao Brasil. Era visível que ele estava emocionado, mas estava segurando a onda. Disse, então, mega-irônico, que se desculpava por ter nos mantido a nós, “crianças”, acordadas até tão tarde. “Sei que vocês têm um grande dia na escola amanhã!”. Ah, Axl, Axl...

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