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Resenha - Vince Neil (Carioca Club, São Paulo, 27/02/10)

Quase duas décadas depois, o sonho dos fãs brasileiros do Mötley Crüe estava prestes a se realizar – ainda que parcialmente. Não, a banda não resolveu finalmente esticar suas turnês pela primeira vez aos palcos brasileiros. Mas o vocalista Vince Neil faria um show por aqui, marcado para o último sábado (27/2), na casa de shows paulistana Carioca Club. Apesar de ser uma apresentação solo, no setlist constavam apenas hits de sua lendária banda. A expectativa era visível, com dezenas de fãs aguardando ansiosamente a chegada do músico. Os figurinos e, é claro, os penteados, evocavam diretamente a década de 80 fazendo de São Paulo uma pequena filial da Sunset Strip. Ao final da apresentação, no entanto, era possível detectar claramente um misto de satisfação e frustração nos rostos (por vezes maquiados) dos presentes. Porque, apesar de ter sido um show vigoroso, cheio da adrenalina roqueira que esperávamos, foi curto, mas muito curto mesmo. Apenas uma hora de apresentação, sem direito a bis, com um set de 12 músicas – sendo que três delas foram covers de outras bandas que não o Mötley Crüe.

O texto representa a opinião do autor e não a opinião do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Fotos: Makila Crowley

Por volta das 18h, uma hora antes do horário apontado para o início da performance, o Carioca Club ainda parecia meio vazio – mas, à medida que se aproximava o grande momento, a casa foi sendo tomada por jovens cabeludos, tiozinhos tatuados, belas loiras e morenas esbanjando sensualidade e ainda uma dupla sexy de enfermeira e policial que atiçou os marmanjos de plantão. Os alto-falantes disparavam clássicos do hard rock/metal para esquentar a galera, enquanto o telão, sintonizado no Cartoon Network (!) exibia o filme “O Máskara” (!!). Quando finalmente o telão subiu, mostrando a cortina, começaram os gritos – mas uma seleção de clássicos como “Detroit Rock City” (Kiss), “Still of the Night” (Whitesnake) e “Welcome to the Jungle” (Guns ‘n Roses) ainda estava reservada para deixar os nervos dos presentes ainda mais à flor da pele. Quando soou “For Those About to Rock” (AC/DC), no entanto, a mensagem estava dada. O show ia começar. Cortinas abertas, cenário simples, Vince Neil e sua banda dispararam a explosiva “Live Wire”. O público enlouqueceu. O som do microfone estava um tanto embolado no começo, e Neil aproveitou para testar os brasileiros e saber se eles sabiam acompanhar a letra. Ora, mas é claro que sabiam, Mr.Neil, :-)

Na sequência, já para ganhar as dezenas de fanáticos presentes, nada mais fácil do que emendar o clássico absoluto “Dr.Feelgood”. A voz de Neil continua impecável, quando aquele timbre rouco bem característico. E a banda de apoio, de altíssimo nível, não deixou a peteca cair em nenhum momento, tentando suprir a falta de Mick, Nikki e Tommy. Na guitarra, Jeff Blando (ex-Warrant e Saigon Kick, atual Slaughter); no baixo, Dana Strum, também do Slaughter; e na bateria, o performático e carismático Zoltan Chaney. Este último, por sinal, chegou a roubar a cena em diversos momentos, girando as baquetas, jogando pra cima, levantando as pernas, tocando de pé, tocando com o cotovelo, equilibrando as baquetas na cabeça. Em certa canção, ele chegou a fazer tudo isso junto (!!!). Um showman para encher os olhos da plateia. Lembra dos Muppets? Pois é. Chaney era praticamente o Animal por trás do kit de bateria. E isso é um baita elogio.

Depois do combo “Looks That Kill”, “Don’t Go Away Mad” e “Same Ol’ Situation”, com os brasileiros totalmente entregues, Neil sai do palco para o que parecia ser o solo de guitarra de Blando. Mas o guitarrista assumiu o microfone e, ao lado de Strum e Chaney, mandou ver duas releituras poderosas: “Whole Lotta Love” (Led Zeppelin) e “Heaven & Hell” (Black Sabbath). E além de ser um guitarrista com fogo no corpo, Blando também manda bem nos vocais, em especial ao emular Ronnie James Dio. Quando Neil retornou dos bastidores, foi para continuar o momento Led com o cover de “Rock ‘n Roll”. Mas todo mundo ali estava mesmo mais interessado em ouvir Mötley Crüe, e o riff inicial de “Kickstart My Heart” alucinou todo mundo e convenceu o frontman de que estava diante de um dos públicos mais roqueiros do planeta, conforme confessado pelo próprio.

“Ergam suas mãos direitas”, mandou o cantor, prontamente atendido. “Agora fechem as mãos. E mexam assim [para frente e para trás]. Sintam o som”. E dos alto-falantes, surgiu o ruído de uma moto acelerando. Estava claro que o que vinha era “Girls, Girls, Girls”. Para encerrar o que se esperava que fosse a primeira parte da apresentação, um convite para uma viagem ao lado mais selvagem com “Wild Side”, que fez todo o Carioca Club pular junto, sacudindo as cabeças e erguendo as mãos em sinal de respeito. Neil parecia bastante satisfeito com o que estava vendo.

Baquetas e palhetas jogadas para o público, “bye, bye, Brazil”, todo aquele protocolo de shows de rock. As cortinas se fecham. E a galera ali, esperando que eles retornassem para o bis. Mas os PAs, estranhamente, começaram a tocar a sintomática “Mama I’m Coming Home”, de Ozzy Osbourne. Os fãs insistiam, por mais que a equipe da casa já estivesse começando a desmontar os equipamentos de som e iluminação. Só quando alguns roadies surgiram por trás da cortina, fazendo sinal de que o show realmente tinha acabado e revelando a bateria sendo desmontada, é que todos pareceram encarar a dura realidade. Alguns fãs saíram de cara amarrada, outros atiravam coisas no palco em sinal de protesto. Varrendo rapidamente as latinhas de cerveja do chão e tentando colocar aqueles roqueiros esquisitos para fora, o Carioca Club precisava se preparar para reabrir algumas horas depois, quando subiria ao palco uma destas bandas de pagode da moda.

Não que o show tenha sido ruim. Longe disso. Mas justamente por se tratar de uma apresentação tão boa e protagonizada por um músico que os brasileiros tanto esperaram para ver ao vivo, ficou aquela pontinha de frustração. Nem ao menos uma música de bis? E três covers, que – com todo o respeito a Plant, Page, Iommi, Dio e demais monstros sagrados – poderiam ter sido substituídos por outras canções do Crüe? No fim das contas, o show de Vince Neil não ajudou a aplacar a vontade de, enfim, ver o Mötley Crüe em nossa terrinha. Só ajudou a aumentá-la ainda mais. Um pequeno e apimentado aperitivo, por assim dizer.

Line-up:
Vince Neil – Vocal
Jeff Blando – Guitarra
Dana Strum – Baixo
Zoltan Chaney – Bateria

Setlist:
LIVE WIRE
DR.FEELGOOD
PIECE OF YOUR ACTION
LOOKS THAT KILL
DON’T GO AWAY MAD (JUST GO AWAY)
SAME OL’ SITUATION
WHOLE LOTTA LOVE (Led Zeppelin cover – sem Vince Neil)
HEAVEN & HELL (Black Sabbath cover – sem Vince Neil)
ROCK ‘N ROLL (Led Zeppelin cover)
KICKSTART MY HEART
GIRLS, GIRLS, GIRLS
WILD SIDE

www.diaderock.com.br: Veja as fotos de quem foi no show e compartilhe as suas.

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Sobre Thiago El Cid Cardim

Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no mundodeelcid.blogspot.com.

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