Em 30/01/2010 | Resenha - Metallica (Estádio do Morumbi, São Paulo - SP, 30/01/10)

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Resenha - Metallica (Estádio do Morumbi, São Paulo - SP, 30/01/10)


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No decorrer de quase 30 anos, já foi falado praticamente tudo sobre eles, sejam todos os tipos de elogios, sejam acusações e críticas contundentes e recorrentes. É difícil falar algo sobre o METALLICA que já não tenha sido dito antes. Por isso mesmo, para tentar explicar a sensação provocada pela apresentação da banda norte-americana neste sábado em São Paulo, vamos usar uma expressão criada e utilizada por alguns visitantes do Whiplash e que cabe muito bem aqui: o show do METALLICA no Morumbi foi “uma experiência perturbadora”. No bom sentido, é claro...

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Fotos: Leandro Anhelli

Contrariando todas as expectativas e um mês inteiro de precedentes, São Paulo viveu um dia de calmaria no quesito ‘clima’. A esperada chuva forte acabou não dando o ar de sua graça neste sábado. Desde o começo do dia, o que vimos nos arredores do Morumbi foi aquela cena que já se tornou comum em dias de grandes espetáculos de rock e heavy metal na capital paulista: trânsito difícil, vendedores ambulantes espalhados por todos os lugares e, o principal, um mar de camisetas pretas (e de todas as outras cores possíveis) composto por fãs dos mais variados locais, todos excitados e ansiosos por ver os “Four Horsemen” após praticamente 11 anos de espera. Dentro e fora do estádio, apesar de alguns problemas que sempre acontecem, o ambiente era ótimo.

Coube ao SEPULTURA a tarefa de iniciar os trabalhos da noite. E cumpriram com competência o seu papel. Visivelmente satisfeitos por tocar para um Morumbi que já estava praticamente lotado àquela altura, a banda empolgou principalmente quando apresentou alguns de seus clássicos, como “Refuse/Resist”, “Dead Embryonic Cells”, “Arise” e “Inner Self”. Os pontos mais altos de sua apresentação foram durante a execução de “Territory” e “Roots Bloody Roots”. Individualmente, o destaque fica para o guitarrista Andreas Kisser, com uma presença de palco muito boa e cada vez tirando mais de sua guitarra.

À partir do momento de encerramento do show de abertura, tudo trabalhava a favor de se criar um clima lúdico, misto de euforia e ansiedade pela espera. A parte final da montagem do palco, a checagem dos microfones e instrumentos, os testes com a iluminação, o som que rolava nos PAs, até mesmo a lua que começava a aparecer por sobre as arquibancadas, tudo só fazia contribuir mais para o clima dentro do estádio e dava a certeza de que aquilo não poderia evoluir de outra forma que não fosse para uma catarse coletiva. E foi exatamente o que aconteceu quando o clássico tema de Enio Morricone, “The Ecstasy Of Gold”, avisava que a tão esperada hora finalmente havia chegado.

Foi com o clássico absoluto “Creeping Death”, do álbum “Ride The Lightning”, que James Hetfield, Kirk Hammett, Robert Trujillo e Lars Ulrich invadiram o palco, provocando na plateia uma reação impressionante e ensurdecedora. Visivelmente satisfeito com a resposta dada pelos fãs, Hetfield cumprimenta sorridente os 68 mil presentes, para emendar com “For Whom The Bell Tolls”, outro clássico de 1984 e que foi acompanhada de forma tão violenta pelo público que dava a clara impressão que o Morumbi inteiro estava balançando.

“The Four Horsemen” mostrava uma audiência cada vez mais envolvida com o show e uma banda cada vez mais satisfeita com a reação que estava conseguindo provocar nas pessoas, como podia ser observado pela clara expressão de alegria de Kirk Hammett, distribuindo sorrisos e cumprimentos aos fãs à sua frente. A mais cadenciada “Harvester of Sorrow” manteve a empolgação no alto e quando se ouviu os primeiros acordes de “Fade To Black”, com Hetfield tocando na plataforma mais alta presente no fundo do palco, ocorreu um daqueles momentos onde não há como descrever com palavras o que foi. Só quem estava lá e viu a expressão no rosto dos presentes pra saber.

Na sequência, após uma breve pausa, começaram a apresentar aos brasileiros as canções de “Death Magnetic”, álbum mais recente da banda. E foram 3 seguidas, começando com “That Was Just Your Life”, que ao vivo tem uma “pegada” até maior que a versão de estúdio. “The End Of The Line” tem uma das melhores introduções compostas pela METALLICA em muito tempo e nem mesmo as partes com um pouco menos dessa “pegada” diminuíram a energia da apresentação. Em certo momento, a distorção das guitarras era tamanha que o som chegou a ficar um pouco embolado nessa música. Logo depois, “The Day That Never Comes” teve sua letra cantada em uníssono pelo público, mostrando que ela começa a ocupar lugar no gosto dos fãs como uma daquelas semi-baladas que o quarteto da Bay Area sempre soube compor no decorrer de sua carreira.

A primeira incursão do popular “Black Album” no setlist veio com “Sad But True”, segundo palavras de Hetfield, “dedicada aos amigos do Sepultura” e que também foi acompanhada de forma ensurdecedora pela plateia. Antes de anunciar “Broken, Beat & Scarred”, James agradeceu a todos ali, pertencentes à ‘família Metallica’, que acompanharam a banda mesmo em seus maus momentos e que continuavam ali. Logo após, foi iniciado um espetáculo pirotécnico, com explosões simulando momentos de uma guerra, além de fogos de artifício, que foram a deixa para o início de “One”, clássica faixa de “...And Justice For All” e que, para deixar o texto repetitivo (só que não há outra forma de descrever o que aconteceu) foi cantada em uníssono pelos fãs.

“Master Of Puppets”... Tudo bem, cada um tem a sua preferência, baseada em seu gosto pessoal e, por isso mesmo, o ponto mais alto do show pode variar na opinião das pessoas. Agora, é inegável que a interação entre METALLICA e fãs nessa música está entre as coisas mais bonitas que se pode ver em shows de heavy metal. James Hetfield pouco cantou nessa canção, pois seu vocal foi atropelado por um coro de dezenas de milhares de vozes que tornavam até o instrumental quase inaudível. Além disso, o coro de vozes acompanhando a melodia das guitarras na parte mais lenta é algo para se guardar na memória e não mais esquecer. Antológico.

Mais um espetáculo de pirotecnia acompanhou a enérgica “Blackened”. Se não bastasse o calor que a simples execução dessa faixa já é capaz de provocar no sujeito, as labaredas de fogo que subiam do palco e de suas laterais eram capazes de elevar instantaneamente a temperatura logo à frente da estrutura. Para terminar a primeira parte do show, a indefectível “Nothing Else Matters”, executada com Hetfield sentado em um banco à frente do palco e Hammett ao seu lado, seguida por “Enter Sandman”, possivelmente a que teve o refrão cantado de forma mais alta pelos fãs.

Um breve intervalo e a banda retorna ao palco com “Stone Cold Crazy”, cover do Queen e que encontrou excelente acolhida por parte do público, para logo após emendarem com “Motorbreath”, que talvez seja a que mais se aproximaria de algo como ‘surpresa da noite’. Dispensável falar sobre a reação da plateia durante a canção. Por fim, a banda ensaia uma falsa saída do palco, ao som de milhares de vozes pedindo “Seek And Destroy”, enquanto a banda brincava dizendo que o show já havia acabado. Hetfield insistia em perguntar se o público queria mesmo ouvir a música e questionava o por que, para enfim encerrar a apresentação com a clássica faixa do “Kill ‘Em All”.

Os caras se movimentaram o tempo inteiro. Hetfield, Hammett e Trujillo se revezavam ocupando os espaços em todos os lugares do palco. Até mesmo Lars Ulrich, sempre que possível, arrumava um jeito de se levantar da bateria. Algo que chamou a atenção durante todo o espetáculo foi a expressão de contentamento da banda. Parece que realmente ficaram muito satisfeitos com toda a euforia do público. Esbanjaram cumprimentos e sorrisos entre si e para os fãs. No final de tudo, a banda foi de uma ponta a outra do palco agradecendo a audiência, além de promover uma farta distribuição de palhetas e baquetas. Por fim, mais agradecimentos, dessa vez ao microfone, e a promessa de repetirem a dose no segundo show em São Paulo, já no domingo.

O METALLICA mostrou-se em ótima forma técnica, muito acima do que podia ser visto há alguns anos atrás. O próprio vocal de James Hetfield encontra-se em fase bem melhor do que a observada num passado até recente. Lars Ulrich cumpriu bem o seu papel e manteve o ritmo o show inteiro, sem deixar a peteca cair em momento algum. Robert Trujillo é uma figuraça. Sua performance de palco exótica é um chamativo a mais para o excelente trabalho que faz no baixo da banda. No entanto, é bem provável que, individualmente, o destaque maior fique para a dupla de guitarristas, que se completam de uma forma impressionante e que são o que mais chama a atenção na sonoridade do grupo. Além disso, os anos fizeram com que Hetfield evoluísse de um rapaz introspectivo para um dos maiores frontman do heavy metal. Sua presença física e sua movimentação pelo palco impõem um respeito difícil de explicar.

Pra terminar, é uma satisfação ver uma banda essencial do heavy metal passando novamente por um bom momento e tocando com gana, com vontade. Não dá, e nem é o objetivo aqui, fazer um exercício de futurologia e querer especular sobre o que o METALLICA nos reserva para o futuro. Agora, uma coisa dá para dizer com toda a certeza: eles não se esqueceram de como se faz um show de metal pra lá de empolgante. Pois é como foi dito na introdução dessa matéria e como os usuários do Whiplash gostam de dizer: esse show do METALLICA em São Paulo foi uma experiência perturbadora. E no bom sentido. Valeu a espera. Vida longa ao METALLICA.

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Sobre Ronaldo Costa

Nascido na capital paulista em meados dos anos 70, teve a sorte de, ainda bem jovem, descobrir por meio de um primo o debut do Iron Maiden. Quando ouviu “Prowler” pela primeira vez, logo entendeu que aquilo passaria a fazer parte de sua vida. Gosta sobretudo dos clássicos, como Maiden, Judas, Sabbath, Purple, Zeppelin, Metallica, AC/DC, Slayer, mas ouve desde um hard bem leve até um bom death metal. Além da paixão pelo metal e pelo rock em geral, também adora cinema e um bom futebol.

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