Em 07/11/2009 | Resenha - Maquinária Festival 2009 (Chácara do Jockey, São Paulo, 07/11/09)

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Resenha - Maquinária Festival 2009 (Chácara do Jockey, São Paulo, 07/11/09)


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Dizer que as apresentações do Faith No More e do Jane’s Addiction foram os grandes momentos do primeiro dia do Maquinária Rock Fest 2009 seria recorrer a um expediente óbvio. O festival conseguiu ser muito mais do que isso.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

Marcos Hermes
Marcos Hermes
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Wilian Aguiar
Marcos Hermes
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Marcos Hermes
Com um investimento agressivo em organização, infra-estrutura e, é claro, no porte das atrações internacionais, o Maquinária saiu do nicho do rock pesado – como foi o caso de sua primeira edição, nitidamente voltada para os headbangers iniciados – e abriu as portas para a diversidade. Sob o calor escaldante deste sábado, dia 7 de novembro, o público paulistano foi recebido na Chácara do Jockey ao som de AC/DC, Nirvana e Bob Marley (!), mostrando que todos podem conviver muito bem juntos, sim senhor. Era possível ver no gramado metalheads cabeludos e vestidos de preto, patricinhas de salto alto e maquiagem, indie rockers multicoloridos, emos e até senhores e senhoras distintos em trajes sociais. Valia tudo e todo mundo era bem-vindo.

No segundo palco do evento, patrocinado pelo MySpace Brasil, as bandas independentes tinham um espaço para mostrar seu trabalho em apresentações de meia-hora nos intervalos dos shows do palco principal. A tarde foi aberta pelos paulistanos do Lotus, uma adição de última hora ao line-up original. Fazendo um punk rock corretinho, eles mexeram pouco com os ânimos dos recém-chegados – mas foram corajosos ao investir em um setlist apenas de canções próprias. Ao longo do dia, passaram por ali o horror rock perverso e energético dos paulistanos do Comodoro, fazendo referência direta a Misfits e The Cramps; o peso cheio de groove percussivo dos cariocas do Sayowa (que já tiveram um disco produzido por Andreas Kisser, do Sepultura); e a irreverência infernal do Maldita, com direito à habitual performance diabólica do vocalista Erich, pronto para ganhar nova geração de fãs.

No final, pouco antes de começar o show do Faith No More, quem subiu ao palco foi o duo Brothers of Brazil. Se o nome não lhe lembra nada, saiba que é o projeto musical do punk Supla com o seu irmão MPB João Suplicy. O resultado foi o disco mezzo rock, mezzo bossa nova “PunkaNova”, que serviu de base para a sua divertida apresentação – que, por sinal, foi muito bem-recebida pela galera que arriscou se deslocar de seus lugares à frente do palco principal. Além das canções próprias, a dupla relembrou os clássicos solo de Supla (“Green Hair”, “Garota de Berlim”) e ainda mandou ver dois covers totalmente distintos: “Johnny B.Goode” (Chuck Berry) e “Mas Que Nada” (Jorge Ben Jor), renascida numa recente versão dos Black Eyed Peas com Sérgio Mendes. Podem parecer diferentes, mas não poderiam ser mais complementares.

Já o palco principal teve os trabalhos abertos, rigorosamente dentro do horário previsto, pelos pernambucanos da Nação Zumbi. A guitarra venenosa de Lúcio Maia ditou o ritmo e não deixou ninguém parado, misturando peso e sabores regionais sem qualquer reação contrária dos espectadores cabeludos sedentos pelo Sepultura. No setlist, canções do recente disco “Fome de Tudo”, como “Bossa Nostra” e “Inferno”, e clássicos como “Manguetown” (em versão ainda mais cheia de suíngue do que a original), “Hoje, Amanhã e Depois”, “Rios, Pontes e Overdrives”, “Maracatu Atômico” (releitura de Gilberto Gil), “Côco Dub” e a poderosa “Meu Maracatu Pesa uma Tonelada”, que levou a galera à loucura. Para encerrar, a paulada sonora de “Quando a Maré Encher”. Quem ainda tinha qualquer dúvida sobre a presença dos caras no Maquinária, teve que engolir em seco.

Paulada também foi a apresentação do Sepultura – que não apresentou lá muitas novidades para quem já vem acompanhando os caras na turnê do disco “A-Lex”, é verdade, mas que teve aquela mesma energia de sempre, por mais que você faça parte da legião de detratores que insistem em dizer que “eles já não mais os mesmos sem nenhum Cavalera na formação”. Enquanto isso, o sol ardia sem dó e o vento quente levantava a poeira das laterais do gramado. Clima infernal no ar. Introduzindo com a furiosa “Moloko Mesto”, eles já foram disparando torpedo atrás de torpedo, alternando novidades como “Filthy Rot” (que fez o chão tremer – literalmente!) e “We’ve Lost You” com lendárias faixas como “Inner Self”, “Sepulnation”, “Troops of Doom”, “Refuse / Resist”, “Territory” e “Arise”. Para encerrar a uma hora de show a qual tinham direito, Andreas Kisser e cia. não poderiam deixar de soltar “Roots Bloody Roots”, que fez até quem não conhece muita coisa do trabalho dos brasileiros bater cabeça com vontade. Foi bonito.

Pode até parecer estranho, mas os americanos do Deftones, primeira atração internacional a dar as caras no evento, foram responsáveis por um dos raros, senão únicos, momentos de cisão de públicos neste Maquinária. Os mais velhos, nitidamente presentes para prestigiar os shows dos “noventistas” Jane’s Addiction e Faith No More, não entraram muito no clima da gritaria nu metal do vocalista Chino Moreno e seus comparsas. Enquanto trintões e quarentões aproveitaram a oportunidade para abastecer os copos de cerveja, o frontman mostrou que está com os pulmões afiados e soltou a voz, gritando o quanto podia, parecendo em transe enquanto cantava hits como “Knife Party”, “7 Words” e “Feiticeira” – homenagem da banda à personagem da modelo Joana Prado na TV tupiniquim. Os jovens fãs que desfilavam inúmeros modelos de camisetas da banda cantaram um a um, com as mãos erguidas em sinal de respeito. Disposto a apagar de vez a imagem negativa deixada pela apresentação sem sal do Rock in Rio 3, em 2001, Chino parecia querer dar o melhor de si. Apanhando um lenço jogado pela platéia, tratou de colocar na cabeça e proclamou: “Meu nome é Tupac”, referindo-se ao rapper morto em 1996. Na quase sussurrada “Change”, transbordou delicadeza e sentimento. E em “Hexagram”, iniciou o pesadelo dos seguranças ao descer para cantar a faixa integralmente no meio da galera, com mãos que puxavam suas roupas por todos os lados, querendo chegar mais perto do ídolo. Mas, caríssimos seguranças, o pior ainda estava por vir. Calma que eu chego lá.

Na categoria “vocalista alucinado”, Chino ainda teria muito que aprender com os dois sujeitos que viriam a seguir. O primeiro deles é Perry Farrell, líder do Jane’s Addiction – que não escondia um baita sorriso de satisfação por estar pela primeira vez diante dos alucinados fãs brasileiros. Com um figurino preto brilhante, parecendo uma mistura de Aladdin com uma versão glam de Rob Halford, o sujeito roubou a cena. Performático até dizer chega, ele simplesmente não parava quieto no palco, pulando pra lá e pra cá e chegando a tropeçar por duas vezes, quase dando com a cara no chão. Sempre rodeando o guitarrista Dave Navarro, a quem provocava no clássico esquema “cantor andrógino / guitar hero machão”, Farrell foi bastante comunicativo com o público, falando o tempo todo em alegria e celebração, mandando beijos e rebolando. Um verdadeiro showman, responsável por uma apresentação ao mesmo tempo sexy e cheia de pegada.

Mas não pense você que o Jane’s Addiction foi apenas carnaval, porque a parte musical não foi esquecida, sempre com direito a um bom quinhão de improvisação. Introduzida por um clipe do filme “Rio Selvagem”, com o ator Kevin Bacon e no qual a banda é citada, a ótima e gigantesca canção “Three Days” trouxe ao palco mais do que as duas gueixas rebolativas que deixaram os marmanjos babando (sendo que uma delas é esposa de Perry, aliás) – mas sim um brilhante trabalho de guitarra de Navarro. Quem só se lembra dele como apresentador de reality shows ou marido da gostona Carmen Electra por vezes acaba esquecendo que o cara é tão talentoso. Destaque para a cumplicidade do público no frenético refrão de “Been Caught Stealing” e para as mulatas sambando em “Jane Says”, quando todos os instrumentistas da banda (e mais alguns convidados especiais) assumiram uma coleção de enormes tambores. A festa estava pronta. Pensando bem, o carnaval esteve presente no show do Jane’s Addiction, afinal de contas.

A chuva que tanto ameaçou desabar por causa do calor intenso acabou caindo durante a noite, pouco antes do Faith No More entrar em cena. Capas de chuva pra lá, correria pra cá, a produção se apressando em cobrir os instrumentos. Mas a tempestade logo deu lugar a uma garoa fininha e, com um tolerável atraso de quase 20 minutos, eis que surge o aguardado quinteto – todos impecavelmente vestidos de terno e gravata. São todos senhores agora, não é mesmo? Tá bom, acredite nisso. De terno vermelho e flor branca na lapela, o alucinado vocalista Mike Patton fez, de guarda-chuva em mãos, uma suave versão da balada açucarada “Reunited”, do grupo Peaches & Herb, considerada canção-símbolo da reunião do grupo. Os olhos dos fãs brilharam. Logo depois, a porrada: “From Out of Nowhere”. A mágica noite estava apenas começando – e o que Faith No More fez a partir dali foi uma verdadeira declaração de amor ao Brasil, com Patton falando repetidamente em seu hilário português macarrônico. “Boa noite a todos” e “obrigado pela presença” em nosso idioma foram só algumas demonstrações de um carinho que ficou claro em “Evidence”, que foi dedicada pela banda ao cineasta Zé do Caixão e cujo refrão “I didn’t feel a thing” tornou-se “não estou sentindo nada”. Assim mesmo, na língua de Camões. Não era a primeira vez que eles faziam isso no Brasil. Mas não deixa de ser simpático – assim como foi bastante simpático da parte de Patton interpretar a quase bossa nova “Caralho Voador”, também com versos em português e cujo título singelo é uma homenagem à nossa terra.

Por falar em interpretação, aliás, Mike Patton deu um show à parte ao mostrar na prática porque é um dos vocalistas mais versáteis e disputados do mundo da música. Com a mesma facilidade, ele fez a linha soft e bonitinho na balada “Easy”, cover do The Commodores que fez os casais suspirarem juntinhos, para logo depois deixar baixar o diabo no corpo na violenta “Surprise! You’re Dead”. O setlist foi um desfile de clássicos: “Last Cup of Sorrow”, “The Gentle Art of Making Enemies”, “King for a Day”, “Midlife Crisis” (com direito à já conhecida emulação de um ataque epilético em pleno palco) e o seu maior sucesso comercial, “Epic”. Logo depois de “Ashes to Ashes”, vem o anúncio: “Temos apenas mais uma canção para vocês”, disse o cantor. O público reclamou. “Ora, nós já estamos velhos”, brincou. Muito pelo contrário: mesmo décadas depois, a banda ainda demonstrava aquele contagiante vigor de anos anteriores. Com “Just a Man”, encerrou-se a primeira parte do show.

No bis, Mike Patton retornou ainda mais endiabrado, com sangue nos olhos. “Depois de mais ou menos 10 anos, nós voltamos ao Brasil. E talvez seja a última vez”, declarou, levantando um coral de vozes desapontadas. “Sabe como é, talvez”, complementou, meio sacana. Corintianos, são-paulinos e santistas não ficaram lá muito felizes ao ouvi-lo gritar o nome do Palmeiras fora de controle, por algum motivo que só aquela cabeça poderia responder – mas quem ficaria contrariado de verdade seriam os seguranças. Em “Stripsearch”, ele meteu na cabeça que ia descer para interagir com o público na grade. Se desvencilhando dos engravatados que tentavam controlá-lo, levava o microfone para os fãs, conclamando-os a gritarem “porra! caralho!”. E a equipe de segurança ainda achava que Chino Moreno deu trabalho – mal sabiam eles quem vinha pela frente... Para finalizar, toda a força do refrão de “We Care a Lot”, cantado em uníssono.

Eles ainda teriam força para um segundo bis, que pegou muita gente de surpresa, fazendo uma onda de gente correr de volta ao perceber que a banda tinha retornado. Em outro momento de fofura, Patton e equipe interpretaram “This Guy is in Love With You”, balada romântica composta por Burt Bacarach e que se tornou famosa na voz de Herb Alpert. Por mais que seu público pedisse insistentemente por “Falling to Pieces”, tocada tanto no Rio de Janeiro, os músicos preferiram dar aos paulistanos uma canção até então inédita na turnê brasileira: “Digging the Grave”. Agora sim, era o fim. E a palavra que ficou para descrever a experiência de ver novamente o Faith No More em ação não pode ser outra senão “memorável”.

O sucesso desta segunda edição do festival já estava na cara – e a produção também tinha plena confiança de que este era um tiro certo. Afinal, os telões o tempo todo anunciavam: “Vem aí Maquinária 2010”. Pois é, ano que vem tem mais. Façam suas apostas sobre as próximas atrações.

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Sobre Thiago El Cid Cardim

Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema, séries de TV e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração, marvete de carteirinha. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Iron Maiden, Judas Priest, Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Kamelot, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no www.observatorionerd.com.br e no www.twitter.com/thiagocardim.

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