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Porão do Rock (Esplanada dos Ministérios, Brasília, 20/09/09)

Por Marcus Vinicius Leite | Em 24/09/09 | Fonte: Porao do Rock
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Domingo, dia 20 de setembro de 2009. Existe uma energia diferente na cidade. Uma atmosfera mais leve, como se o que viesse fosse realmente me surpreender ao longo do dia. Duas horas da tarde e resolvo passar no Porão para ver como andam as coisas por lá. A agitação típica de um dia do festival. Produção, imprensa e voluntários de um lado para outro num ritmo frenético. Sempre com muitas coisas de última hora para acertar.

O texto representa a opinião do autor e não a opinião do Whiplash.Net ou de seus editores.

De repente o som de uma guitarra rompe o silêncio. Seguida por uma bateria compassada. Param e começam várias vezes. As notas de uma música bem conhecida de qualquer um.

- Isso é Legião.

Digo em voz alta. Olho para o lado e vejo o Marcos Pinheiro, atônito. Corremos para o palco. Chegando lá nos deparamos com um sujeito de chapéu Panamá tocando bateria. Magro, o rosto já riscado pela idade. Os mesmo cabelos louros, lisos. À sua frente, de camisa quadriculada vermelha, cabelos castanhos, a mesma expressão de menino de sempre. São eles mesmos! Marcelo Bonfá e Dado Villa Lobos.

Os acordes de “Que País é Este” tocados pelos caras da Legião Urbana, bem de frente ao Setor de Diversões Sul. Mais ao longe se via a Torre de TV, o céu com várias nuvens. As lágrimas caiam nos rostos da multidão que se aglomerava perto do palco.

A passagem de som termina, as bandas começam. Mais emoção. Detrito Federal, Plebe Rude (em seu melhor show dos últimos tempos), Paralamas e Escola de Escândalo. Depois, um suspense. Os telões projetam um vídeo que conta um pouco da trajetória de Renato Russo. Mostram alguns shows, depoimentos do cantor. Revivem a notícia da morte de Renato, noticiada por vários programas na televisão nacional. As lágrimas invadem os rostos de quase todos o espectadores. Nessa hora sobe ao palco Dado e Bonfá, acompanhados por um guitarrista. Tocam várias músicas da Legião.

Nos bastidores o clima era de comoção. Bi Ribeiro, Barone, Herbert Viana, Toni Platão e Phillipe Seabra se abraçam, emocionados. Logo aparece Loro Jones, convidado a cantar Geração Coca Cola: - “Não sei cantar essa porra não. Coloca Veraneio Vascaína!”. O primeiro vocalista é André Gonzales, do Móveis Coloniais de Acajú, visivelmente emocionado.

Um grande encontro de amigos no centro da Meca do rock nacional. Um show que há muitos anos é esperado pelo público brasiliense, órfão do Legião Urbana desde 1988. O maior presente em termos musicais que Brasília poderia ter recebido em seus 50 anos.

Final do show, correria para a sala de coletiva de imprensa. Dado e Bonfá sentados lado a lado falam da emoção e do medo que sentiram ao serem convidados para tocar novamente em Brasília. Negaram a volta da Legião Urbana que, segundo eles, não existe sem Renato Russo. Falaram do show fatídico de 1988 que ficou gravado na memória dos caras, que até o momento não tinham superado o trauma que a cidade lhes proporcionou na época. Disseram que quando subiram ao palco do Porão, ouviram algumas vaias no começo, que depois se transformaram em aplausos, lágrimas e música. Que tiveram vontade de sair correndo, mas que logo viram que a recepção era outra.

O público também é outro. Ninguém mais vai queimar discos da Legião no meio da rua. Não haverá pichação em posto de gasolina pedindo para que eles deixem a cidade. Não terão que ir embora para o Rio de Janeiro escondidos do público. Muito pelo contrário. Voltam para o Rio deixando um gosto de quero mais. Um gosto de nostalgia, e até de tristeza pela lembrança de um tempo que não volta. As pessoas olhavam para o palco como quem pede para não ser abandonado novamente.

Nesses dois dias de Porão vi muitas crianças assistindo aos shows, sempre acompanhadas de seus pais. Certamente adolescentes dos anos 80 ensinando ao rebento mais uma aula do puro rock´n roll candango. E elas acompanhavam cada lição com atenção, querendo saber o porquê de tanta devoção.

Foi uma noite memorável. Mais uma página na história do rock da cidade. Lembrei-me de Carlos Marcelo (autor de Renato Russo, o filho da revolução) quando disse que Renato Russo estava preparando uma volta à cidade antes de morrer. Infelizmente morreu antes que isso pudesse ter acontecido. Bobagem Renato! Ontem tivemos a prova concreta de que você nunca saiu daqui.

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Sobre Marcus Vinicius Leite

Tentou ser guitarrista e baixista e viu que não era tão simples fazer acordes como o Malmsteen. Jornalista, trabalha em duas empresas ligadas à comunicação diária e se aventura na escrita e no trombone. Também escreve roteiros e assessora uma companhia de comédia.

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