É triste quando uma ocasião que tinha tudo para ser perfeita acaba prejudicada por fatores alheios e aparentemente pequenos, mas muito relevantes. A ocasião perfeita: a primeira visita do HEAVEN & HELL a São Paulo. A imperfeição que quase arruinou uma bela noite: o sistema de som do Credicard Hall. Para o bem de todos e felicidade geral da nação, a lembrança que ficará deste show – e nem seria justo se fosse diferente – é a alegria de ver os monstros sagrados Ronnie James Dio, Tony Iommi, Geezer Butler e Vinnie Appice tocando ao vivo antigos e novos hinos da mais respeitada instituição do heavy metal (chame-a de Black Sabbath ou HEAVEN & HELL, não importa. O que vale é o legado).
Entre tantas coisas fantásticas que poderiam ser ditas a respeito deste show, é triste ser obrigado a dedicar algumas linhas para algo tão estúpido. E não foi a noite fria e chuvosa de São Paulo, ou o trânsito caótico nas imediações do Credicard Hall, ou a fila quilométrica para entrar no salão. Nada disso. A nota triste ficou por conta do pior som que já ouvi dentre todos os shows que presenciei naquela casa – e olha que não foram poucos, dos mais variados estilos e gêneros. O microfone de Dio falhou diversas vezes (ninguém ouviu a primeira estrofe de "Bible Black", por exemplo), a bateria de Appice soou como uma fanfarra de parada cívica em boa parte do espetáculo e os instrumentos de cordas estavam desproporcionalmente altos. O panorama geral era um som ensurdecedor e totalmente embolado, no qual todos os instrumentos competiam entre si para ver qual era mais inaudível. Se Dave Mustaine (MEGADETH) fosse o frontman da noite, o show teria parado em seus primeiros minutos e o técnico de som nem apareceria para trabalhar no dia seguinte.
Mas quem estava no palco, felizmente, era o HEAVEN & HELL, liderado pelo sempre simpático Dio (cantando e agitando como um garoto) e pelo gentleman Iommi (com a fisionomia serena, a fineza e a precisão de sempre). Alheia a tantos desacertos técnicos, a banda fez o que dela era esperado e presenteou o público com pérolas de um repertório tão básico quanto essencial ao heavy metal. Então, falemos de coisas boas.
Às 22h35, com "E5150" ecoando pelos alto falantes, o quarteto tomou o palco para abrir a noite com "Mob Rules". Depois de colocar fogo na galera, Dio deu boa noite e ofereceu "a primeira música que compusemos juntos": "Children of the Sea" – uma das melhores do espetáculo, por sinal. A reação do público realmente emocionou o frontman: "Obrigado, vocês fazem com que nos sintamos em casa", derreteu-se o vocalista.
Dio evocou o "incompreendido" álbum "Dehumanizer" para anunciar "I", outra música que ganhou execução de gala. Já a primeira incursão ao novo disco, "The Devil You Know", ocorreu com "Bible Black", que ficou ótima (pesada e profunda) ao vivo – embora o vocal tenha sido sensivelmente prejudicado pelas falhas no microfone. Na sequência veio "Time Machine", fechada por um solo magistral de Vinnie Appice.
"Fear" e "Follow the Tears" foram as duas outras canções de "The Devil You Know" apresentadas ao público. Embora o álbum não tenha sido lançado oficialmente no Brasil, a platéia respondeu muito bem e deu o seu aval à nova empreitada do quarteto. Entre estas duas músicas, porém, houve espaço para a ótima "Falling off the Edge of the World" – "Uma música que escrevemos numa época em que o mundo era um lugar difícil para se viver. Bom, hoje em dia continua sendo assim...", explicou o bem-humorado Ronnie Dio.
A parte final do show foi aberta com "Die Young", que contou com um impressionante solo de Tony Iommi em sua introdução. Por último, a música que batizou a banda e fez o Credicard Hall cantar "ô - ô ô ô – ô – ô - ô ô ô – ô" em uníssono: "Heaven & Hell", numa inesquecível execução de quase 15 minutos. Verdadeiramente lindo.
Após a falsa despedida e muitos gritos por Dio e Iommi, o grupo voltou para o bis solitário: "Neon Knights", aberta com trechos de "Country Girl". Muita gente ficou na esperança de alguma surpresa – como "TV Crimes" ou "Lady Evil" – para presentear a galera paulistana, mas o set list da turnê foi seguido à risca. Uma pena, mas nada que estrague a grandeza da noite.
Podemos admitir que caras como Dio, Iommi, Geezer (um deus do baixo) e Appice já levam uma bela vantagem apenas pela reputação e pelo legado que construíram ao longo dos anos, mas a performance do quarteto na noite desta sexta-feira comprova que os caras ainda trabalham duro no palco e no estúdio. Eis um bom alento para acreditarmos que o HEAVEN & HELL tem chances reais de se tornar um projeto mais longevo e sustentável do que as diversas idas e vindas do Black Sabbath (especialmente por causa do temperamento e da saúde de Ozzy Osbourne e sua mulher, Sharon). Então, longa vida e muita energia para eles!
Heaven & Hell – Credicard Hall (São Paulo), 15/5/09
E5150 (intro)/Mob Rules
Children of the Sea
I
Bible Black
Time Machine
Fear
Falling off the Edge of the World
Follow the Tears
Die Young
Heaven and Hell
Country Girl/Neon Knights (bis)
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Paulistano, são-paulino, nascido nos "loucos anos 70" (1979 ainda é década de 70, certo?) e jornalista. Sua profissão já o levou a cobrir momentos antológicos da história da humanidade, como o título paulista do São Caetano, a conquista da Copa do Brasil pelo Santo André, a visita de Paris Hilton a São Paulo e shows de bandas como Judas Priest, Whitesnake, W.A.S.P., Megadeth, Slayer, Scorpions, Slipknot, Sepultura e por aí vai. Ainda tem muito gás para o nobre ofício jornalístico, mas acha que não vai muito mais longe depois de ter entrevistado Blackie Lawless, Glenn Tipton, Rogério Ceni e, claro, Paris Hilton.
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