Motley Crue: chuva e público inflamado na Argentina

Resenha - Motley Crue (Pepsi Music, Buenos Aires, 11/10/2008)

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Por De Paiva, Fonte: HardZone
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Imagine a cena: Uma noite de céu vermelho e chuva torrencial. De um lado, um bando de vinte e cinco mil loucos fazendo subir uma espessa nuvem de vapor e de outro uma das maiores bandas da história do hard rock, em plena forma: estes são os principais ingredientes de um show homérico, o do Mötley Crüe em Buenos Aires.

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Pela primeira vez na América do Sul em toda a sua carreira, era evidente a satisfação da banda ao tocar na Argentina e ao ver um público tão pirado - em todos os sentidos. Ao ouvir de Tommy Lee que aquele era "o melhor lugar que já tinham tocado até hoje", a primeira reação que temos é pensar: Ele deve dizer isso em todos os shows. Mas o que se viu no Club Ciudad de Buenos Aires deixa realmente no ar que pode ter sido mesmo o melhor, pois realmente não há nada como estar em um show como este em terras portenhas!

Não havia um aglomerado de pessoas mais empolgadas pulando à frente do palco: eram vinte e cinco mil pessoas ensandecidas, sem conseguir fincar os pés no chão, tamanha a "fúria" e a felicidade de ter o Mötley Crüe à sua frente, depois de esperar a vida toda! O público cantava todas as letras e todos os riffs de todas as músicas, em uníssono. "Cantar riffs" não é costume em lugar algum do mundo (exceto em umas duas músicas do Iron Maiden), mas o resultado - que lembra muito os gritos de uma torcida de futebol - é perfeito, empolgante. Além disso, o calor da "hincha" contrastava com o frio que a chuva trazia, fazendo subir do local uma grande nuvem de vapor: um autêntico caldeirão!

E esta empolgação se refletiu no palco: a banda toda não se fez de rogada e por diversas vezes foi pra chuva também, esbanjando simpatia e disposição. A execução das músicas foi excelente, apesar de algumas falhas nos equipamentos - certamente por causa do toró - e por algumas vezes onde a banda parecia não se escutar muito bem sobre o palco. Nikki Sixx estava possuído, muito animado. Vince Neil não parava um instante (mesmo não estando com o físico de outros tempos) e até Mick Mars, sempre parado por causa de sua doença, foi pra chuva ao final do espetáculo. Tommy Lee, além de dar um show à parte atrás de seu bumbo gigante, resumiu, em castelhano mesmo, todo o sentimento hard rocker que envolvia aquela noite: "Me gusta la fiesta"!

O show começou com "Kickstart My Heart" e "Wild Side", e já de cara o bicho pegou de acordo. Era complicado permanecer em pé, dada a recepção impressionante do público a esses clássicos. Existem públicos frios, públicos mornos, públicos empolgados e o público argentino. Nunca vi uma reação daquela em um show de rock, e acho que os integrantes do Mötley Crüe também não, pois dava pra ver no semblante dos caras a perplexidade em ver aquela euforia toda.

O set seguiu com outros clássicos, como "Shout At The Devil", "Primal Scream" e "Live Wire" (este após um solo meio desnecessário do Mick Mars). Como esse era um show da turnê do excelente "Saints Of Los Angeles", claro que esse disco teria que ser representado, e assim o foi, com a faixa titulo e "Motherfucker Of The Year", que não tiveram a mesma recepção empolgada das outras músicas, fato até compreensível, pois clássicos sempre irão sobrepujar músicas novas na preferência do público, independente da banda que esteja tocando.

Mas os clássicos voltaram a dar o ar da graça com "Don´t Go Away Mad (Just Go Away)", "Same Old Situation" e "Looks That Kill", e o público continuava a dar seu espetáculo particular. "Red Hot" e "Louder Than Hell" foram as surpresas da noite, músicas mais "lado B" dos seminais "Shout At The Devil" e "Theatre Of Pain", respectivamente.

Momento marcante aconteceu quando o Vince Neil pediu pra galera colocar o punho direito no ar, e fazer o movimento típico de quem está acelerando uma moto, e assim que o público respondeu a esse pedido, obviamente veio o hino máximo da banda, "Girls Girls Girls", emendada com nada mais nada menos que "Dr. Feelgood".

Depois de um breve intervalo, a banda volta (com Vince Neil usando a camisa da Argentina) para o bis com a linda "Home Sweet Home", a aí não tem jeito, aquele momento histórico, com aquele toró de proporções bíblicas que caía, e aquela música sensacional, só sendo um ser inanimado pra não se emocionar, e o público cantou em uníssono, colocando um ponto final naquele que foi certamente um dos melhores shows já assistidos por quem esteve presente.

Show perfeito, banda extremamente profissional (com a chuva que caía, o som dando pau a toda hora e mesmo assim em momento algum se viu algum traço de insatisfação por parte dos músicos), público impressionante, set list excelente, tudo colaborando para marcar essa noite eternamente na vida dos fãs. E, depois disso tudo, fica uma certeza: eles voltarão.

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