Resenha - Andre Matos (Concha Acústica, Salvador, 27/04/08)

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Resenha - Andre Matos (Concha Acústica, Salvador, 27/04/08)


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Andre Matos dispensa apresentações. Uma das maiores vozes do metal nacional e internacional, ele, agora em carreira solo, continua mostrando toda a versatilidade e a ousadia que o consagraram. Suas passagens pelo Viper, pelo Shaman e, principalmente, pelo Angra, elevaram o heavy metal nacional a novos patamares ao fundir o estilo com a música clássica e com ritmos regionais brasileiros. Foi esse artista multifacetado, inquieto e inovador que os headbangers soterapolitanos tiveram a oportunidade de conferir no domingo, dia 27 de Abril, na Concha Acústica.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

O show, que estava marcado para começar às 17h, atrasou, e a primeira banda de abertura, a baiana Nomin, só entrou em cena por volta das 18h. O grupo, que faz um som mais calcado no hard rock com claras influências de Bon Jovi e Whitesnake, conquistou a platéia com um repertório empolgante que, entre outras canções, incluiu a bela balada “Deep Inside My Heart” do EP Secret Dreams e ótimos e eficientes covers da clássica “Burn” do Deep Purple, da dançante “Jump” do Van Halen e do hit “Living on a prayer” de Bon Jovi. Tecnicamente, a banda é bastante coesa, com claro destaque para os solos e bases precisos do guitarrista Hugo. Já o vocalista Lucas pecou por uma performance um tanto quanto exagerada e repleta de agudos desnecessários – cantar bem não é sinônimo de soltar agudos estridentes a cada segundo –, o que, no entanto, não chegou a comprometer a atuação do quinteto.

A outra banda baiana encarregada de abrir o evento, a novata Face on Fact, noves fora buracos e erros gritantes em alguns covers clássicos, fez uma apresentação correta, mas que demorou mais que o necessário, deixando a audiência, principalmente aqueles que desde o início da tarde já se aglomeravam em frente aos portões da Concha, bastante impaciente. O grupo toca um Thrash metal genérico, com uma grande quantidade de solos e riffs saturados e previsíveis. Desta forma, o ponto alto da perfomance, como não poderia deixar de ser, foram os covers de “Peace Sells” do Megadeth, “Creeping Death” do Metallica, “Sole Survivor” do Helloween e “Caught Somewhere in time” do Iron Maiden. Esses dois últimos covers, em particular, foram executados com um peso além do recomendável para músicas cujas principais características são as melodias marcantes e cantáveis. Individualmente, quem se destacou positivamente foi o vocalista, que cantou os covers e as composições próprias da banda – “Kill By the Butcher”, “Abduction” e “Black and White” - com muita segurança, originalidade e competência.

Quando os ponteiros já se aproximavam das sete e meia da noite, eis que, enfim, o carro-chefe da noite entra em cena para delírio do ansioso e sedento público. Andre Matos (vocal e piano), Hugo Mariutti (guitarra), Andre Hernandes (guitarra), Eloy Casagrande (bateria), Luis Mariutti (baixo) e Fábio Ribeiro (teclado) já sobem ao palco com o jogo ganho, tamanha é a qualidade das músicas que seriam executadas em uma noite que se mostrou inesquecível.

De cara, ouve-se a faixa introdutória de "Time To Be Free", a bela “Menuett” – uma valsa de Strauss –, escolha perfeita para aumentar ainda mais a expectativa e a ansiedade da platéia que, a esta altura, já estava em estado contemplativo, absolutamente hipnotizada. Em seguida, vem a apoteótica e pujante “Letting Go”, o mais novo hino do metal melódico nacional. Arrisco a dizer que, em função da recepção calorosa dos fãs e das evidentes semelhanças com a fase Angels Cry do Angra, essa música se tornará presença obrigatória em todos os shows que Andre Matos fizer daqui para frente. “Distant Thunder”, música do primeiro álbum do Shaman, o ótimo Ritual, foi a próxima a ser executada e cantada em uníssono, aumentando ainda mais o êxtase dos presentes e deixando claro que, caso continuasse, o Shaman ainda poderia dar bons frutos ao heavy metal nacional.

Ao fim da terceira canção, Andre cumprimenta a platéia e diz que a presença dos headbangers ali seria uma prova de que, ao contrário do que é alardeado pela mídia, também há espaço para o rock e o metal em terras baianas. Contudo, depois que se soube que apenas cerca de 1200 pessoas compareceram ao show – um público vergonhoso se considerarmos o cacife da atração – ficou claramente demonstrado que o cenário metálico em Salvador ainda se encontra em fase de gestação.

Depois desse breve ínterim, em que Andre também teceu comentários a respeito de um vindouro DVD que conterá imagens da apresentação em Salvador, os fãs foram agraciados com a agressiva e pesada “Rio”, outra boa música de Time to Be Free. “Here I Am”, uma das melhores composições do Shaman, veio a seguir e teve seu contagiante refrão cantado a plenos pulmões. Mais uma breve pausa. Agora, Andre pede desculpas pelo atraso aos que estiveram presente na desorganizada e mal planejada sessão de autógrafos do dia anterior na Saraiva do Shopping Salvador. Mea culpa à parte, o show prossegue com a clássica e comovente “Living for the Night”, uma das canções de maior sucesso do Viper e cujo início foi cantado apenas pelo público, deixando Andre Matos um tanto quanto surpreso e emocionado. Em seguida, é a vez do primeiro solo da noite. André Hernandes, que se mostrou bastante simpático durante toda a apresentação, sempre agradecendo o público, fez um solo bastante técnico e curto, sem soar cansativo em nenhum momento, o que, no entanto, não muda a minha visão de que solos são quase sempre desnecessários e servem, antes de tudo, para massagear o ego dos músicos.

A banda retorna ao palco para executar “Crazy Me?”, música do Virgo, projeto de André e Sascha Paeth, um dos produtores de "Time to Be Free". Essa música teve uma recepção bastante fria por parte da platéia, que demonstrou não conhecê-la. Mas, inteligentemente, o grupo retoma o domínio sobre o público com a mais do que clássica “Nothing To Say”, música de abertura do Holy Land, álbum que o próprio André Matos considera como o melhor do Angra. Em sequência, a banda esfria os presentes com duas baladas: “Fairy Tale” – o maior sucesso comercial do Shaman – e a comovente “Lisbon”, cujo refrão foi cantado por toda Concha Acústica. Mais uma breve pausa e é hora do segundo solo da noite, agora do jovem baterista Eloy Casagrande. Ele, que com apenas 17 anos fez um show indefectível, apresentou um solo pouco inovador, bem parecido com aquele executado por Aquiles Priester no disco Live in São Paulo, do Angra. Falta de criatividade à parte, o garoto tocou seu instrumento com uma fúria e um punch bem destacáveis.

Depois de uma pequena pausa, o sexteto retorna tocando “Wings of Reality”, faixa que abre o disco Fireworks do Angra. Mais uma vez, a resposta do pequeno público foi mais do que satisfatória. “How Long”, música que só se salva pelo empolgante refrão, foi prejudicada pelas constantes falhas no microfone de Andre, cuja voz desapareceu por vários momentos. Para loucura dos fãs, sai dos altos falantes a orquestração de “Unfinished Allegro”, anunciando a obrigatória “Carry On”, que, desde o início, já era pedida pelos mais pentelhos e apressados. Nem é preciso dizer que essa foi a música que causou maior empolgação no público.

Para finalizar, “Endeavour”, a música que fecha "Time to be Free", é tocada. Como todos já estavam cansados e como essa canção foi uma péssima escolha para terminar a apresentação, não houve tanta comoção.

Emocionante, sim, foi o que veio depois: todos os integrantes saíram aos poucos até ficar apenas Andre Matos no teclado. Bela sacada para concluir o show de um dos maiores vocalistas que o mundo já ouviu. Como diria o velho e sábio ditado popular: Quem sabe faz ao vivo. E Andre executou fielmente aquilo que gravou em estúdio. Sua voz estava lá como sempre intocável e inabalável.

De uma qualidade desconcertante.

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Sobre Guilherme Vasconcelos Ferreira

Ano 2000. Então com 12 anos, entrei na secção de CDs de um supermercado para gastar o dinheiro da mesada que meu pai dera dias antes. Sem o mínimo de discernimento, deixei-me fascinar pela bela capa do Brave New World, do Iron Maiden. Não me decepcionei. Aqueles vocais operísticos e as guitarras melodiosas foram a porta de entrada para o heavy metal, estilo que muito contribuiu para a formação dos meus valores e da minha personalidade. Hoje, aos 21 anos, estou no último ano do curso de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e trabalho com assessoria política. A música pesada, porém, nunca me abandonou. Além da Donzela, nutro sincera paixão por Black Sabbath, Deep Purple, Dio, Metallica, AC/DC, Rush, Pink Floyd, Dream Theater, Judas Priest, Yes e Motörhead. As bandas emo, indie ou qualquer uma que tire onda de moderninha e bem comportadinha me exasperam profundamente. Odeio instrumentais paupérrimos e rebeldia de boutique. Rock n’ roll existe para questionar noções consagradas de normalidade e tensionar padrões morais e estéticos dominantes. Para cultivar a estupidez e exaltar o artificialismo, já existe a música pop. Sim, sou um old school empedernido.

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