O maior fiasco de público da história dos shows de metal em BH? Provavelmente. Durante a (ótima) apresentação do Hangar, apresentando material de seu recente álbum, “The Reason Of Your Conviction”, pude contar, cabeça por cabeça, pouco mais de 300 pessoas no Chevrolet Hall. Estimo que, na melhor das hipóteses, os presentes tenham chegado a 550 pagantes. Imagine a expressão de você conseguir contar, um por um, na maior casa de shows de Belo Horizonte (excetuando o Mineirinho)... constrangedor. Pelo menos, quem foi era realmente fã de Queensrche, compensando na empolgação.
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Quem esperava que o grupo se abatesse com isso, se enganou. Geoff State, Mike Stone, Michael Wilton, Eddie Jackson e Scott Rockenfield fizeram um concerto absolutamente profissional, ignorando o recinto vazio. Heavy, prog, pop... a verdade é que a banda se definiu como uma entidade única, sem igual no cenário. Ao vivo, o acento nitidamente progressivo de sua atuação, em especial de Tate, fica evidente. O vocalista é um “mastermind” por excelência. Interpreta as letras e os sentidos das composições, sente e atua cada trecho cantado, introduz as músicas com palavras ora filosóficas, reflexivas, ora com histórias que levaram a elas, ora com curtas estorinhas... impossível não perceber a óbvia influência de Peter Gabriel, do Genesis. Tanto no aspecto teatral quanto no modo como se comporta no palco, transposto para o metal, obviamente. Como se não bastasse, Tate é um monstro. Além da classe e da performance sem igual, tem os melhores agudos e graves que já vi. Muito vocalista que se diz influenciado por ele tem que ralar muito para poder se arrogar a citá-lo. Se antes eu já o considerava um dos cinco melhores, depois...
“The Whisper” abriu o set. E os 550 privilegiados, a partir dali, além da certeza de que eles nunca mais pisam em Belo Horizonte, puderam conferir, como o prometido, uma limpa na carreira da banda, cobrindo os principais álbuns e alguns lados b, como “Last Time In Paris”, maravilhosa. Apenas “Hear In The Now Frontier” e “Tribe” não estiveram presentes no set-list.
O vexame de público pode ser explicado de diversas formas: a proximidade com o show do Whitesnake, fazendo com que muita gente tivesse que escolher entre ir em um ou outro (embora as bandas sejam de estilos bem diferentes), a fraca divulgação do evento, o fato do Queensryche não ter tantos fãs na capital mineira, o erro na escolha da casa – muito maior do que o indicado... enfim, mas nada justifica um fiasco de tamanha magnitude. Alheio a isto, o grupo de Seattle tirou o melhor do som e da acústica no local. Poucas vezes se viu o som tão estável, nítido e bem distribuído. O cenário ideal para se ouvir composições como “Damaged”, “Hostage”, “The Killing Words” e “Anybody Listening”.
Os outros integrantes, mesmo estáticos, entregavam execuções perfeitas e backings irretocáveis. Mike Stone e Michael Wilton, a dupla de guitarristas, é uma das mais cerebrais e talentosas do metal, mesmo quando brincam de heavy tradicional, suas contribuições nunca são óbvias e fáceis (ainda que o primeiro tenha a responsabilidade de suprir a ausência do eterno Chris DeGarmo, o faz com muita propriedade). Um show que saciou tanto os perfeccionistas quanto entreteu e se impôs pela performance, hipnótica. Falando em tradição, “Neon Knights”, do Black Sabbath, foi a escolhida entre as presentes no interessante “Take Cover”, momento nostálgico de exaltação do melhor que o estilo produziu.
Já “Bridge” é a típica balada que possui o DNA da banda. A princípio “boba” para um ouvinte desavisado, ao vivo cresce absurdamente, ganhando tons e cores ainda mais vivas e marcantes, tornando-se não só uma pérola “pop”, como exemplo ideal da mescla de climas e influências que o grupo pratica.
E o que dizer da seqüência de “Jet City Woman”, “Eyes Of A Stranger”, “Best I Can”, “The Lady Whore Black”, “Empire”, “Take Hold Of The Flame” e “Silent Lucidity”? Apenas uma das coisas mais impressionantes e memoráveis que alguém poderia ver. Sete clássicos, todos com sua vida própria. Músicas que possuem identidade, feeling, que respiram e dialogam com o ouvinte, trazendo-o para dentro de si. “Silent...”, escolha inusitada para fechar o set, é uma das baladas mais lindas que o metal possui, e a interpretação de Tate nela é nada menos que assombrosa. Uma experiência forte, que não pode ser exprimida com palavras. Um dos problemas de se ver o Queensryche ao vivo é que seu nível de exigência para outros shows passa a ser muito maior. Eles, definitivamente, são uma exceção no cenário.
E se optaram por não trazer ao Brasil a turnê onde executam os dois “Operation:Mindcrime” na íntegra, com todo o suporte teatral, de luzes e ares grandiosos de um espetáculo magnífico, por ser muito caro, o público teve a sorte de receber o presente de um show calcado nos melhores momentos de seus 25 anos de estrada. E, seja amparado por uma enorme montagem, seja apenas com um simples pano de fundo e uma iluminação modesta, a banda provou estar num patamar muito acima da maioria, fazendo o peso, a calma, as melodias, a agressividade, o dramático, a ovação e o silêncio renderem-se a eles.
Set-List:
1 – The Whisper
2 - Damaged
3 - NM 156
4 - Screaming In Digital
5 - Hostage
6 - The Hands
7 - Bridge
8 - The Right Side Of My Mind
9 - The Killing Words
10 - Another Rainy Night
11 - Gonna Get Close To You
12 – Neon Knights
13 - Last Time In Paris
14 - Breaking The Silence
15 - Anybody Listening
16 – Jet City Woman
17 - Eyes Of A Stranger
18 - Best I Can
19 - The Lady Whore Black
20 - Empire
21 - Take Hold Of The Flame
22 - Silent Lucidity
Site Oficial: www.queensryche.com
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Maurício G. Angelo odeia definições. Acha que não entende nada de música, mas o suficiente. Pseudo-jornalista, pseudo-crítico e pseudo-escritor. Não gosta de explicar ironia. Escreve no Whiplash! desde 2003. Colaborou para uma série de veículos, como a revista Roadie Crew e os sites Rock Press, Duplipensar e Simplicíssimo. Ouve tudo aquilo que lhe interesse: do blues ao metal extremo, passando pelo pop, progressivo, clássico, jazz, eletrônico e MPB. Peca pelo tesão, nunca pela inércia. Alfabetizado, chato, detalhista e exigente: está continuamente tentando aprender a ler, e tem orgulho disso. Passou bons momentos ao lado de Rubem Braga, George Orwell, Pink Floyd e tantos outros. É apaixonado por palavras, pelo som e pelo silêncio. Erra muito. Muda mais ainda. E se permite ser hiperbólico, às vezes.
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