Dream Theater: Resenha e fotos do show no Rio de Janeiro

Resenha - Dream Theater (Citibank Hall, Rio de Janeiro, 07/03/2008)

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Por Rafael Carnovale, Fonte: Fotos pelo sistema antigo
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Um dos fatos que mais me assusta em quase 6 anos de cobertura de shows de rock e heavy metal é ver como os fãs estão transformando suas bandas favoritas em verdadeiras instituições do estilo, dando-lhes endeusamento e “status” de gigantes além do que podemos considerar tolerável. Ok, eu entendo perfeitamente que a música como forma de arte toca profundamente os ouvintes, mas não deixo de me surpreender com reações como as que ocorreram assim que o Dream Theater confirmou este giro sul-americano, que passou pelo Brasil no fim de semana passado. Discussões acaloradas surgiram em fóruns, listas e aonde mais você puder imaginar, acerca do que a banda iria tocar, os “set-lists” que vinham sendo executados nas turnês européias e até mesmo como os músicos iriam se portar no palco. Mas aí reside a grande magia do heavy metal: o fã consegue se re-inventar a cada momento, gerando reações que assombram até os próprios músicos. É algo enigmático... porém excitante. Por isso, resenhar um show do Dream Theater é como escalar o arco-íris atrás do famigerado pote de ouro, uma incógnita, ou uma surpresa... só vendo (ou escrevendo) para crer.

Fotos: Rodrigo Simas

Viagens a parte deste que vos escreve, é muito legal chegar ao Citibank Hall por volta das 18h e ver que fãs já se aglomeravam na entrada da pista, esperando a abertura dos portões. Tivemos a chance de entrevistar o guitarrista John Petrucci (você irá conferir tudo aqui na Whiplash!) e o mesmo, extremamente simpático, prometia um show aonde a banda seria a grande supresa. Como já fora noticiado, os brasilienses do Khallice seriam o “opening act” da noite, jogando por terra qualquer chance de vermos mais um show nos moldes do “An Evening With Dream Theater”. Petrucci ressaltou que a banda tocaria por 2h, ou no máximo 2h20 e que o “set” seria baseado no mais recente CD, “Systematic Chaos”. Eu entendo perfeitamente que o fã de Dream Theater prefere os shows com quase 3 horas, aonde a banda executa várias músicas, ou até mesmo álbuns inteiros, mas a execução de um “set” calcado no novo CD é antes de tudo um indício de que o Brasil virou rota fixa nas turnês da banda, logo, podemos esperar que os caras voltem quando estiverem com trabalho novo nas mãos. Então, há algo positivo nisso.

A casa abriu por volta de 20h, e a banda Khallice não demorou a começar seu show. Tocando por cerca de 40 minutos, os brasilienses mostraram porque são chamados por muitos de o “Dream Theater brazuca”, com um prog-metal pesado e certeiro, com destaque para a ótima performance do vocalista Alírio Neto, e a técnica apurada do guitarrista Marcelo Barbosa. A recepção do público foi muito boa (o que em se tratando de Dream Theater é a glória suprema para qualquer banda que abra seu show) e músicas do CD “The Journey”, mescladas com novos números do EP “Inside Your Head” (que teve 1000 cópias distribuídas gratuitamente para 1000 felizardos que estavam na fila, atitude feita pela própria banda), que ratificaram a mais que merecida escolha desta boa banda para o evento. Entraram famosos, saíram consagrados.

Perto das 21h30 o pano de fundo que cobria todo o palco foi retirado e pudemos observar que o Dream Theater caprichou na produção de palco desta vez. A banda trouxe um telão de alta resolução (vale citar que várias músicas da mesma eram executadas no som mecânico no famoso estilo “Apocalyptica”, com cellos) e artefatos de palco que remetiam nossas mentes a capa do novo CD, incluindo formigas que se deslocavam pelo fundo, um sinal de trânsito bem no alto (o mesmo funcionava!) e postes de luz. Por falar em luz, tão logo a mesma foi apagada na casa, o sinal (que estava vermelho) passou para a cor amarela, e uma “intro” ecoou no telão misturando músicas da banda com partes de clipes, documentários, num trabalho muito legal. Isto sem contar o tema de “Psicose”, que fora executado alguns instantes antes. O caos estava instalado no Citibank Hall e os cerca de 4000 fãs presentes foram à loucura.

Sinal amarelo, atenção! Sinal verde, e é hora do show, com a banda entrando aos poucos no palco para executar uma versão adaptada para o tema do filme “2001”. Nesta hora até mesmo quem não é fã dos caras se emocionou, afinal, era um tema clássico, interpretado por uma banda famosa, e a felicidade estava exposta nos rostos de Mike Portnoy (bateria), Petrucci, Jordan Rudess (teclado e barba de bode) e John Myung (baixo), que se olhavam como se estivessem prontos para o ataque, que começou com “Constant Motion” (cujo vídeo passou simultaneamente no telão). James Labrie (visivelmente fora de forma – depois seria informado que o mesmo combatia uma incômoda virose) entraria em seguida para cantar, e era tal de pula-pula misturado com filmagens feitas por celulares e câmeras (sim, o headbanger do novo milênio filma para colocar tudo no Youtube, você sabia?).

“Never Enough” seria tocada em seguida, dando lugar a uma versão “extended” da ótima “Sorrounded” (com direito a um trecho de “Sugar Mice”, do Marillion). Neste momento já era possível traçar o perfil deste show do Dream Theater: músicas novas, muita improvisação e “jams” intermináveis (Jordan por mais de uma vez abandonou seu teclado fixo levando um móvel para duelar com John Petrucci), com milhões de solos e improvisações. Este aspecto da banda me irrita profundamente, já que os caras possuem músicas a dar com o pau e trocam um bom espaço para executá-las para ficar dando provas de virtuosismo e massagem de ego, afinal... quem não sabe que os caras são músicos de mão cheia? Mas para compensar inteligentemente o telão foi usado como suporte, dando vários closes na sincronismo dos dedos de Petrucci e Rudess quando solavam em conjunto, e exibindo imagens que casavam com cada momento do show. Desta vez tenho que dar o braço a torcer e dizer que a masturbação musical do Dream Theater não foi um pé no saco.

O Dream Theater estava mandando bala com músicas como “The Dark Eternal Night” (com um filme sensacional no telão), “Lines In The Sand” (que fez muita gente chorar e pular) e a boa “Forsaken” (as músicas do CD novo funcionaram muito bem ao vivo). Para deixar os fãs já loucos em êxtase os músicos executam “Misunderstood”, antes de emendar na íntegra as duas partes da nova “In The Presence Of My Enemies”, que na opinião deste foi o grande vacilo, pois deu uma caída bisonha na adrenalina. Nesta nem o telão salvou. Por sinal as “jams” corriam soltas, e até partes de “Money” (Pink Floyd) foram executadas.

Ao final de 26 minutos de duas músicas que são uma só (UFA!) a banda se despede... cara... já havia passado 1 hora e meia de show! Neste momento vale refletir se tal idéia da banda foi bem sucedida... que estávamos diante de um grupo inspirado é verdade, que as músicas foram executadas com perfeição é verdade (o som estava muito bom), mas será que vale a pena executar “apenas” oito números em quase 1h30? Em todo caso não há como negar que a performance da banda foi bem superior à de 2005, embora o “set” daquele show tenha sido mais interessante.

Pausa para respirar e os caras retornam com tudo com um “medley” (chamado de “Shmedley Wilcox”), que abrangia “Trail Of Tears” (com direito a “Xanadu” do Rush na “intro”), “Finaly Free” (cantada por todos e mais alguns), “Learning To Live” (mesmo efeito), “In The Name Of God” (com imagens emocionantes no telão, aliás que espetáculo visual) e o “gran finale” com “Razor´s Edge” (uma das partes da suíte “Octavarium”), para deixar os fãs em desespero total. Vale citar que este “medley” foi a melhor parte do show na opinião deste e de várias pessoas, pois a banda demonstrou estar muito mais a vontade do que no restante do concerto (embora o Dream Theater tenha sim neste evento sido uma banda bem mais relaxada e com uma presença bem mais ativa, para citar até John Myung, que pouco se move, arriscou umas batidas de cabeça!).

Ao final do “medley” a banda se despede e várias reações podem ser sentidas: indignação, surpresa, ódio, loucura, êxtase e delírio. Afinal, a relação do Dream Theater com seus fãs é algo que foge dos padrões humanos, e o fã é esse ser esquisito e impressionante, que dá espetáculo, antes e depois do show, ao contrário da banda, que só pode fazê-lo no palco. E de fato o fizeram, tanto público quanto banda. Só um questionamento... quem passa o show todo filmando e tirando fotos de fato assiste o evento? Ou vai assistir depois em casa?

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Sobre Rafael Carnovale

Nascido em 1974, atualmente funcionário público do estado do Rio de Janeiro, fã de punk rock, heavy metal, hard-core e da boa música. Curte tantas bandas e estilos que ainda não consegue fazer um TOP10 que dure mais de 10 minutos. Na Whiplash desde 2001, segue escrevendo alguns desatinos que alguns lêem, outros não... mas fazer o que?

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