Chris Cornell parece cansado. Cansado do estrelato alcançado nas bandas que liderou e, sobretudo, cansado do rock em si. Sua aparência, no início do show, demonstrava uma apatia incompatível com a figura emblemática que puxou o Soundgarden para os holofotes da fama, no início da década de 1990. Hoje, prefere a tranquilidade e liberdade da carreira solo. Livre das amarras que uma banda de sucesso impõe.
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Mas estar só tem seu preço: seu trabalho solo não chega perto (seja em qualidade ou popularidade) dos feitos quando pertencia ao Soundgarden e Audioslave.
Misturando tudo isso, a avenida Cornell proporcionou um longo - duas horas e quarenta minutos - desfile de canções, passando pelos sucessos dos grupos, faixas pouco conhecidas de sua carreira solo e pérolas escondidas.
Despojado e se movimentando lentamente, Chris e sua banda abriram o show com a novata "Silence the Voices", do irregular "CARRY ON". Com tantos trabalhos diferentes, a escolha do setlist poderia ter tornado a apresentação desigual. Porém, ele soube dosar tudo na medida certa. Fica difícil reclamar quando, só na primeira parte, podemos conferir "Original Fire", "Show me how to Live" e "Be Yourself" do Audioslave; "Outshined" e "Spoonman" do Soundgarden; e "Hunger Strike" do Temple of the Dog. Se as músicas dos dois primeiros entusiasmaram, foi com a faixa do projeto dividido com os membros do Pearl Jam - para homenagear um amigo morto por overdose -, que o show teve seu momento mais emocionante. A platéia cantou em uníssono e foi perceptível a alegria com que o cantor e banda receberam a reação do público. Se o show tivesse acabo ali, já teria valido.
Fim do primeiro ato. Saem os músicos, entra o violão. Set acústico. Se com a banda e com o repertório mais pesado houve demora para se entusiasmar, sozinho ele estava mais a vontade. O que poderia funcionar como um banho de água fria, serviu para mostrar que suas composições se sustentam apenas(?) com a voz e o violão. As maravilhosas "Call me a Dog", "Like a Stone" e "Getaway Car" (nunca tocada nesse formato antes) são exemplos disso. Nessa última, nem o ótimo solo, do Tom Morello, fez falta. Ainda teve a soturna versão para "Billie Jean", de vocês-sabem-quem. Diferentemente do recém-lançado CD acústico, aqui a sua voz estava perfeita.
Atingindo todas as oitavas e sublinhando tudo com afinação e emoção. Poderia ter continuado assim, pois essa foi a melhor parte do show. Parece não fazer mais sentido para ele os distorcidos decibéis das guitarras, mas sim a delicadeza e intmidade do despojamento acústico. Seu próximo CD deveria contemplar esse formato.
"Doesn´t Remind Me" (a melhor música que o Pearl Jam não fez nos últimos tempos) trouxe os músicos de volta. Trazendo também a pérola "Pushing Foward Back", do Temple of the Dog, logo após o trovão zeppeliniano de "Cochise". Quem esperava ouvir "Jesus Christ Pose" teve que se contentar com uma pequena intro emendada em "Arms Around Your Love". Era melhor que tivesse sido o contrário. Atendendo a pedidos de músicas do Soundgarden, mandou mais 3: "Fell On Black Days", "Black Hole Sun" e "Rusty Cage". Hora de descansar.
A parte final mostrou um Cornell mais participativo e reservou algumas surpresas. "Can't Change Me", única faixa do mal-compreendido "Euphoria Morning", teve uma discreta recepção. Desenterrando outra obscuridade, atacou de "Sunshower". Faixa composta para a trilha do filme "Grandes Esperanças". Depois de mais duas do Soundgarden ("Burden in my Hand" e "Slaves and Buldozers", que teve citações de "Searching With My Good Eye Closed", "4th of July", "Like Suicide" e "The End") o show aterrisou com o zeppelin de chumbo em "Whole Lotta Love".
Ficou claro que Chris Cornell está em busca de um caminho diferente do já trilhado. Se um dia esteve a frente do "Black Sabbath dos anos 90" e despejou a influência do grupo de Page e Plant no Audioslave, seu trabalho solo ainda procura identidade. Tentar um caminho acústico talvez seja uma saída. Mas o show foi irrepreensível.
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