Para muita gente, chegar aos 60 anos sem escorregar no banheiro e quebrar a bacia já é satisfatório. Não para Iggy Pop, o vovô do punk, que comemorou no sábado (21/04) sua sexagésima primavera com uma apresentação de deixar os mais novos sem fôlego no teatro Warfield em San Francisco. Sem medo de fraturar o osso que mais assusta idosos que descobrem que não sabem voar, Iggy pulou de cabeça na platéia.
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Vestindo jeans apertado de cintura baixa de fazer corar senhoras na mesma faixa etária, Iggy fingiu não se importar com a data e juntamente dos Stooges, banda que o consagrou no final dos anos 60, nocauteou a platéia com a energia bruta dos clássicos da banda. Mas mais do que testemunhar a quebra de um hiato que parece nunca ter existido, a platéia, com sua diversidade de faixa etária, era prova irrefutável de que o cantor criado em Michigan é um “highlander” do rock, um ser que parece infindável e imutável.
Sem camisa (como sempre foi), balançando os cabelos louros, (como sempre foi), ele permanece cantando que “ano passado tinha 21 anos” como se isso refletisse o tempo medido por humanos normais. Como sempre foi.
Mas Iggy não é uma pessoa normal. Para quem o assiste, a fantasia do rock nunca termina. Tanto jovens que ainda se preocupam com aparência quanto tiozinhos com cara de “tenho reunião importante na segunda-feira” dividiram espaço e se congregaram em torno da insanidade de Mr. Pop. Antes da terceira música, o clássico “I Wanna be Your Dog,” ele já havia escalado os amplificadores do baixista Mike Watt e pulado na platéia duas vezes.
No melhor espírito baderneiro, “No Fun” poderia se chamar “Total Fun.” “Get up here,” ordenou Iggy, e assim o palco foi tomado por pelo menos 50 pessoas ao mesmo tempo, que fizeram o caminho inverso ao que Iggy percorreu várias vezes durante a noite. Mike Watt e Ron Ashton tiveram que recuar liberando espaço para aquela gente maluca que dançava e tentava ficar bem perto do vocalista, devidamente cercado por um segurança. Um dos fãs, no entanto, conseguiu chegar perto o suficiente do vovô do punk para roubar-lhe o microfone e sintetizar o que o teatro todo queria dizer. “Iggy, we fuckin love you!” O imaginário coletivo não poderia ansiar por nada mais. Iggy sabe alimentar a fantasia.
As músicas do disco novo “The Weirdness” soam ainda mais cruas ao vivo do que qualquer produção com Steve Albini pode soar. Ao contrário do homem, a obra é bem real, o que deixa claro que os Stooges podem ser relevantes com material novo num cenário musical no qual bandas nascem, crescem, reproduzem e morrem num clicar de páginas da Internet. “Trollin’” e “My Idea of Fun” foram cantadas tanto quanto “1969” ou “1970.”
Durante a apresentação, apenas três momentos sugeriram que talvez exista um tal James Osterberg por traz daquela figura habitante do imaginário roqueiro. O andar coxo explicita a fragilidade física ante ao tempo. A cara de surpresa, no primeiro bis, quando ele anunciou “1969” e acabou ouvindo “Parabéns a você” tocada pela banda enquanto balões pretos e prateados caíam do teto demonstra que para o inesperado basta ser humano. A terceira é uma confissão: “We’re just happy we still exist.”
E nesse mundo de fantasia, um dos roadies ao se desdobrar na sua tarefa de deixar o cenário perfeito é o personagem de carne e osso que chama atenção. Iggy derrubou água no palco? O rapaz corre com uma toalhinha branca para enxugar a área, num gesto preventivo. Balões caindo do teto? O rapaz cerca o Ron Ashton para evitar que os pedais sejam cobertos pelos inocentes apetrechos comemorativos. Iggy enroscou o fio do microfone? Lá vai o roadie com precisão e velocidade deixar o vocalista solto. Tamanha dedicação e esmero ficaram estampados no balançar de cabeça inconformado do roadie ao demorar a solucionar o problema de uma guitarra que insistia em falhar, arrancando comentários até do aniversariante do dia.
Ao final do concerto, difícil era acreditar que tudo aquilo havia acabado de acontecer diante de olhos simplórios. Como numa história de “Alice no País das Maravilhas” às avessas. De concreto para quem mergulhou na fantasia do Warfield ficou um broche comemorativo com os dizeres “Happy Birthday Iggy,” que foram distribuídos gratuitamente como prova de que o vocalista realmente existe.
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Nascido em São José dos Campos, terra de milicos, aviões, cientistas e nerds em geral, sacou aos 13 anos que números são pouco amistosos. Fugiu para a Califórnia, onde muito aprontou: montou a banda Apside, escreveu para inúmeros sites e jornais e formou-se em jornalismo pela UC Berkeley. Passa os seus dias dividido entre a procura por um lugar na grande mídia gringa e festas universitárias americanas regadas a muita mulher com pouca roupa.
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