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Placebo (Citibank Hall, Rio de Janeiro, 25/03/07)

Por Maurício Gomes Angelo | Em 29/03/07
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Enquanto a equipe técnica preparava terreno para que o Placebo subisse ao palco, Gossip, LCD Soundsystem, Klaxons, CSS e até Wolfmother rolavam nos PA’s, esquentando a platéia. Quatro destes grupos ainda eram embrionários e sequer tinha aparecido com maior intensidade quando da última turnê dos ingleses por aqui, em 2005. A música pop anda em grande efervescência, despejando toneladas de informação, álbuns, misturas, ícones e novos festivais. A internet revoluciona tudo, e dita, quase que soberana, as regras. Mainstream, indie e underground confundem-se, delimitando fronteiras muito tênues entre si. O passado é revisto, metabolizado e regurgitado como nunca. O cheiro de novo, sombriamente familiar, é transformado em algo único impresso em sua discografia.

O texto representa a opinião do autor e não a opinião do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Fotos: Gabriela Magnani (Almanaque Virtual)

Com mais de 10 anos de carreira, uma banda como o Placebo parece já veterana. Vendo-os ali, ao vivo e observando o público que os segue, é interessante notar como eles fazem bem esta ponte entre a segunda metade da década de 90 e o século XXI. Parecem saídos diretamente do “Trainspotting” de Danny Boyle, só que menos eletrônicos e mais roqueiros, e tirando a crítica social/filosófica de Irvine Welsh.

A ansiedade dos fãs era visível desde que os primeiros shows foram anunciados. E como a popularidade deles cresceu por aqui nestes dois anos! Brian Molko é o profeta andrógino/libertário da atual geração. Prega o hedonismo, canta sobre aquilo que vive, vê e sintetiza: sexo, drogas, relações perturbadas de afeto e liberdade sexual. Estamos no meio da revolução. Seja ela de qual (ou quais) natureza for. Período de transição onde nada é proibido e tudo se define, se forma. Sendo construído para onde nossos impulsos e aspirações a levarem.

As luzes se apagam. Os três telões atrás do palco anunciam a celebração estética que estará por vir. Steve Hewitt é o primeiro a aparecer. Stefan Olsdal vem logo em seguida. Brian Molko surge emendando uma abertura convincente com “Infra-Red”. Sem muita conversa, “Meds” – irresistível - e “Because I Want You”, belíssima power-ballad, bom exemplo dos refrães gostosos e empolgantes que a banda faz, completam a trinca inicial. “Drag” comprova a animação dos fãs, cantando cada letra com devoção admirável e também o álbum forte que têm em mãos. Das 18 canções apresentadas, sete foram de “Meds”, o último lançamento, alvo desta tour. E as quatro primeiras retiradas dele. É raro uma banda ter uma atitude de tamanha coragem e confiança. Poucas vezes, senão a primeira, vi um grupo fazer algo assim.

Como músicos de apoio, o respeitável baixista Alex Lee (ex-Suede), trazendo uma segurança incrível quando fica sozinho na base, e o sempre contributivo Bill Lloyd, nos teclados, guitarra e programações – tão importantes para a sonoridade dos ingleses. “Bionic” permite ressaltar o quanto o baixo é preponderante, e bem explorado, no som do Placebo. Stefan Olsdal é muito competente, e por vezes rouba a cena, sendo o mais agitado e visceral em cima do palco. Na música citada, inclusive, sua veia punk levou-o a atirar-se ao público. Já Hewitt tem uma pegada firme, adicionando ainda mais peso e animalidade à performance. Os dois, sonoramente, fazem um interessante contraponto à personalidade, digamos, mais artística e amena de Molko, que hipnotiza a platéia com sua voz peculiar, de timbre facilmente reconhecível. Agrega as melhores influências, de David Bowie a Robert Smith, para ficar nos óbvios. Os trejeitos característicos que entrega, por vezes, fazem a alegria dos fãs.

Esta descrição do trio revela a essência da música do Placebo: reunindo três personalidades diferentes, que se reúnem trazendo o melhor de si, o resultado é um som que vai do rock mais instintivo a grandes melodias pop, sem cair no lugar comum. Refrães grudentos, mas não óbvios. Eletrônicos mas não exagerados. Tétricos porém longe da depressão.

Sabem colocar as coisas nos lugares certos. Obras de andamento cadenciado como “Follow The Cops Back Home”, “Special Needs”, “Song To Say Goodbye” – que segue morna até explodir em seu final, no típico estilo “sing along” - “I Know” e a maravilhosa “Without You I’m Nothing”, que os catapultou ao mundo, deixam evidente a interpretação singular e climática de Brian, além de trazerem músicas com estruturas muito interessantes.

Quando querem destruir, o fazem com notável competência: o mega-hit “Every You Every Me”, sinônimo de Placebo, detonou vozes satisfeitas e sedentas. “Special K” foi outro momento altíssimo. O corinho de “para pa pa parará”, puxado por um Brian Molko no ápice, ficará registrado pra sempre na mente da platéia. E “Bitter End” deixou o Citibank Hall perplexo, tamanho o peso da massa sonora de guitarras que explodiam por todos os lados. As distorções, aliás, se estendendo numa presença marcante, parecem querer exorcizar todos os demônios contidos em suas existências. Após a porrada, se despedem, e esperam o público, ainda extasiado, os chamarem de volta.

Não demoram e o “bis” é estupendo. Não só nele, como em todo o espetáculo, os filmes exibidos mesclavam o estilo vintage com o dark wave, o clássico com o soturno, ou puramente freak, conseguindo bom impacto. E esta é uma definição perfeita para “Taste In Men”, que veio logo após o improvável e arrepiante cover “Running Up That Hill”, de Kate Bush. “Twenty Years” pôs fim à celebração, deixando muitos insaciados. Alguém reclamaria se “English Summer Rain”, “Space Monkey”, “Protege Moi”, “Black Eyed” ou “Nancy Boy” estivessem no set list? Certamente que não...

Contudo, e até por este motivo, a segunda turnê do Placebo pelo Brasil demonstrou o quanto eles cresceram e o quanto podem nos oferecer enquanto compositores. O fato de “Meds” ser tão forte prova que não precisam viver do passado, mas estão continuamente criando canções capazes de se tornarem clássicas. A interação entre os três remonta as grandes formações pop da história. Hoje, há menos maquiagem e mais música, performance, categoria e experiência no tempero do Placebo.

Porta vozes de uma geração (ou não), são autênticos. Respeitam e buscam influências no passado, mas inserem-se perfeitamente na época em que vivem. De modo inicialmente despretensioso, como o próprio remédio que faz efeito por puro sentido psicológico, Brian Molko, Stefan Olsdal e Steve Hewitt conseguem se elevar acima da média, fincando sua presença entre as bandas mais relevantes da atualidade.

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Sobre Maurício Gomes Angelo

Maurício G. Angelo odeia definições. Acha que não entende nada de música, mas o suficiente. Pseudo-jornalista, pseudo-crítico e pseudo-escritor. Não gosta de explicar ironia. Escreve no Whiplash! desde 2003. Colaborou para uma série de veículos, como a revista Roadie Crew e os sites Rock Press, Duplipensar e Simplicíssimo. Ouve tudo aquilo que lhe interesse: do blues ao metal extremo, passando pelo pop, progressivo, clássico, jazz, eletrônico e MPB. Peca pelo tesão, nunca pela inércia. Alfabetizado, chato, detalhista e exigente: está continuamente tentando aprender a ler, e tem orgulho disso. Passou bons momentos ao lado de Rubem Braga, George Orwell, Pink Floyd e tantos outros. É apaixonado por palavras, pelo som e pelo silêncio. Erra muito. Muda mais ainda. E se permite ser hiperbólico, às vezes.

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