Em 25/01/2007 | Resenha - Mutantes (Praça da Independência, São Paulo, 25/01/07)

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Resenha - Mutantes (Praça da Independência, São Paulo, 25/01/07)

Por Luciano Piccazio Ornelas | Fonte: Arte Free em São Paulo

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Assim que desci do ônibus, começou a chover. Apenas uma grade me separava do Parque da Independência, mas ainda estava longe da entrada. Enquanto isso, conversava com Willian, um senhor de meia idade que veio comigo no ônibus. Ele ia declamando suas poesias enquanto tentávamos nos abrigar da chuva. Não que aquilo preocupasse muito.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

(Resenha publicada originalmente no Arte Free em São Paulo - agradecimentos especiais ao Luciano, que autorizou sua republicação)

Um dia no Parque - Nação Zumbi, Tom Zé e Mutantes

Com sua garrafa plástica de vinho debaixo do braço, Willian andava desviando das pessoas que vinham em direção contrária, e ficou bem animado quando lhe disse que a primeira banda a tocar seria Nação Zumbi. Só sabia que os Mutantes tocariam. Quando falei em Tom Zé, não pareceu se animar tanto, mas Nação Zumbi... pelo visto gostava mais deste do que Mutantes.

Nos despedimos e fiquei abrigado em uma barraquinha de milho. O cheiro, aquele infeliz e delicioso cheiro de milho quentinho me obrigou a comê-lo. Fiz. Acabei de comer e eram quatro e meia da tarde. O show, programado para começar quatro horas, ainda nem dava sinais de vida. A chuva só fazia aumentar. Vi então uma amiga de faculdade e fui conversar com ela. Ela me emprestou um guarda-chuva reserva e me apresentou uma amiga bonita.

Conversamos um pouco sobre coisas comuns e decidimos tentar entrar. Era uma tarefa árdua, já que a polícia havia barrado a passagem e só deixava as pessoas entrarem a conta-gotas. Depois de alguns pontapés e cotoveladas, entramos. Nessa hora, faltando dez minutos pras cinco, já começava a parar de chover.

O segurança me revistou e pediu pra verificar minha mochila. Disse que não podia entrar com a garrafa de água, já que a Sabesp tinha instalado alguns postos de água grátis dentro do parque. Dei minha garrafa aos policiais, que, diga-se de passagem, culpa nenhuma têm por essa ordem sem nexo, apenas estão lá, suando e sendo odiados. Não preciso nem dizer que não vimos nenhum posto de água, e não fosse pelas minhas amigas entrarem com garrafas escondidas no fundo de suas malas, morreríamos de sede. Lá dentro, vendedores desfilavam com garrafas de vinho a preços “módicos”.

Atrás do palco a linda estátua da independência, mesmo coberta em grande parte pelo palco, não perdia sua imponência. Olhando para trás, do outro lado da rua, o Museu da Independência. É, sem dúvida, um dos lugares mais lindos de São Paulo, e um local perfeito para um daqueles festivais antológicos que os magnatas sempre sonham em realizar.

Nação Zumbi

Enquanto andávamos até o palco, o som começou a rolar. Um som que misturava um rock daqueles bons e pesados com percussões brasileiras, de maracatu. Quem ouve entende porque o estilo é chamado de Maracatu Atômico.

Muitas pessoas estavam lá só pra ouví-los, e foram embora quando acabou. Quem foi pra ver Mutantes ou Tom Zé, em geral, não se animou muito. O pessoal que estava na frente e havia enfrentado a chuva com coragem pulava e se esbaldava.

Uma mistura de sons novos com rits da época de Chico Science, um dos mais importantes músicos brasileiros do último século. Uma banda que continuou mesmo com a morte de seu criador.

De onde estava, um pouco pra frente da metade do parque, via alguns rostos dançantes e alguns chateados. Enquanto uns curtiam, outros só queriam que acabasse.

E acabou. Sem bis, a banda deixou o palco que começou a se preparar para seu próximo episódio: aquele do Tom Zé.

Tom Zé

Vestido de vitrola, entrou aquele que era underground entre os perseguidos pela ditadura. Aquele que em plena repressão militar - a qualquer um que respirasse liberdade - fez um disco cuja capa, que parece ser um olho, nada mais é do que um ânus com uma bola de gude no meio.

Este ser, até hoje novo e doido, começou a cantar. Atrás do palco, Zélia Duncan só vendo, curtindo, admirando Tom Zé.

Como um moleque, chegou pulando. Ensinava frases ao público, que as repetia, rindo. Parava as músicas no meio para ensinar os refrões. Novamente, o público mais perto do palco foi o que mais curtiu. Aquelas pessoas com cara de caneca (sabe aquela cara que você faz quando ganha uma caneca?) que não curtiram o show anterior também não manifestavam outro humor aqui.

Mas, com certeza, quem mais aproveitava o show era Tom Zé. Mais do que qualquer outro. Como disse Marcelo Rubens Paiva em Feliz Ano Velho, esse artista é um dos que ainda não foi integralmente reconhecido. Assim como Hermeto Paschoal. É o mal daqueles que inovam musicalmente; são taxados de esquisitos e por isso colocados em uma prateleira à parte.

O parque já estava totalmente tomado então. Andar era tarefa para os bons, mas mesmo assim era fácil encontrar amigos. Encontrei alguns, que me davam diferentes panoramas e opiniões sobre os shows. Depois que voltei pra casa, descobri tantos outros que também foram e não encontrei.

Então eu e as duas meninas que estavam comigo fomos em nossa longa migração para o mais perto do palco que conseguimos. Afinal, em pouco tempo começaria o show dos Mutantes. Um Mutantes sem Rita Lee, é verdade, mas Mutantes.

Os Mutantes

Conseguimos ficar relativamente perto. O suficiente para ver sua chegada triunfal. Vi aqueles antológicos músicos entrarem em roupas que condiziam com o lugar. Sérgio Dias estava vestido de Dom Pedro, Zélia Duncan de donzela. Segundo estimativas da polícia militar, cerca de 50 mil pessoas estavam lá para conferir o show.

Minha fidelidade à Rita Lee foi então quebrada. Apesar de fã dos Mutantes, e de ser um daqueles que não são muito adeptos a tais mudanças, tive de me render: nunca vi a banda como nesse dia. Zélia Duncan parece ter nascido para cantar com Sérgio Dias e Cia.

A cantora não conseguia tirar o sorriso do rosto. Mas não era aqueles sorrisos de pagodeiro em clipe da MTV não, era um sorriso de criança, como quem não se agüenta de tão feliz. Os outros Mutantes, com cara blasé, curtiam igualmente.

Um som inteiro, completo. Os fãs de Mutantes aguçavam a visão para ver seus ídolos, pulavam, gritavam. Parafraseando uma amiga, é como se Raul Seixas voltasse e fizesse um show. De graça.

Eles são a mais perfeita tradução da cidade de São Paulo, como já cantou Caetano. Uma cidade deste tamanho e que tem tão poucos referenciais na música. A única banda paulistana da noite. Cantaram parabéns pra você, já que era aniversário de Sampa, e todos acompanharam.

Uma mescla de Yes com Beatles, variando rifs de guitarra com teclados viajantes, os Mutantes tocaram e o público agradeceu. Mutantes clássico, como não poderia ser diferente. Mutantes para se ouvir três vezes. Principalmente quando chamaram Tom Zé para cantar uma música.

As músicas que tocaram foram as tradicionais: Ando meio desligado, Balada de um louco, Minha menina, Panis et Circensis, entre outras. Se faltasse alguma dessas, muitos fãs voltariam para casa desolados.

Para olhos e ouvidos atentos, foi um show para por no currículo. Valeu cada gota de chuva.

Nota
Nação Zumbi – 8,5
Tom Zé – 9
Mutantes – 9,5

Custos
Bolacha e água – R$ 2,50 (sim, a água que dei quase inteira)
Milho – R$ 1,00
Ônibus – R$ 4,60 (férias não tem bilhete único)
Total - R$ 8,10

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