Em 01/09/2006 | Resenha - Slayer (Via Funchal, São Paulo, 01/09/06)

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Resenha - Slayer (Via Funchal, São Paulo, 01/09/06)


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Há exatos dois anos, quando escrevi a resenha do festival Bonded By Blood (que trouxe o Exodus), pensei em mencionar que o pior dia para se marcar shows em São Paulo é na sexta-feira. Na ocasião, achei que a observação não combinava muito com o texto e deixei para lá, mas agora não vou perder a oportunidade: o pior dia para se marcar shows em São Paulo são as sextas-feiras.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Os motivos são vários, começando pelo péssimo trânsito na cidade nesse dia até mesmo a localização das principais casas de shows, no meio da confusão e sem válvulas de escape.

Para piorar, caiu uma chuva torrencial que transformou o péssimo em caótico e aí já viu, duas horas e meia de trânsito para andar quinze quilômetros do meu trabalho até o Via Funchal. Honestamente, só quem era muito fã do Slayer, optou por ir a primeira apresentação na cidade e não adiou os planos para o dia seguinte. Mas quem estava naquela noite histórica, não se arrependeu.

O caos me impediu de chegar a tempo para assistir a apresentação completa dos baianos do Ungodly. Cheguei apenas durante a quarta música, mas a impressão foi boa. O Death Metal dos caras é competente, com destaque para a presença de palco. O único porém vai para a duração do show, realmente longo (e cansativo) para uma banda de abertura.

A casa não estava cheia – provavelmente por todos esses motivos que citei – mas recebeu um bom público, com integrantes de várias bandas fundamentais no cenário nacional, como Korzus, Harppia, Claustrofobia e Centúrias, sem contar diversos empresários do meio, diretores de gravadoras e donos de revistas. Bastava uma passeada rápida para perceber que o show do Slayer não era apenas uma apresentação e sim um grande evento que uniu fãs, de todas as idades.

Logo após o Ungodly, os roadies começaram uma longa preparação dos equipamentos. Inúmeros boatos começaram a pipocar dizendo que Dave Lombardo estava doente e o set seria reduzido. Outra “corrente” dizia que a bateria não foi despachada pela Tama – patrocinadora do músico – e o show seria realizado com um material improvisado. Não sei qual (ou se alguma) versão é verdadeira, mas o importante é que 40 minutos depois, o Slayer entrava ao som do hino “South Of Heaven”.

Quem já assistiu a um show da lenda sabe que a banda não enche lingüiça e despeja um clássico atrás do outro sem muita conversa. O baixista e vocalista, Tom Araya, se limita a anunciar o nome das músicas e dos álbuns, mas mantém uma postura bem séria, isso sem contar sua longa barba (branca, a idade mostra seus sinais), que dá um aspecto de profeta do apocalipse. Mas não se iluda, porque apesar dos 45 anos, Tom ainda continua batendo cabeça exatamente como há duas décadas e chegou a esboçar alguns sorrisos com as reações ensurdecedoras dos brasileiros. Seus vocais perderam um pouco da potência no grito (sabe o começo da “Angel Of Death”?), mas estão mais guturais.

Kerry King e Jeff Hanneman formam uma das melhores duplas de guitarristas da história. Enquanto o primeiro impõe respeito correndo de um lado para o outro e chamando a participação do público, o segundo é mais discreto (ficou a esquerda de Araya praticamente o tempo todo) mas não menos importante no legado do grupo já que é o compositor da maioria dos clássicos.

Agora o que falar de Dave Lombardo? Ele foi o primeiro a aparecer no palco, de boné virado e bem mais magro do que você está acostumado a ver nas fotos (o que sustenta a idéia que ele pode estar mesmo com algum problema de saúde). Dave entrou discretamente atrás do kit e teve gente ainda se perguntando quem era aquele baterista misterioso? O cara estava irreconhecível, mas apenas nos momentos em que ficava parado. Quando o show começa, você esquece todas as especulações, as brigas do passado e apenas aprecia a perfeição daquele trabalho: uma aula de técnica e velocidade. Não me leve a mal, Paul Bostaph é um excelente baterista, mas Lombardo simplesmente não é humano e PONTO.

O fã sabe exatamente o que esperar de um show dos caras e eles não decepcionam mesmo. O Slayer é uma das poucas bandas que escolhe com perfeição seu setlist (viu Iron Maiden?). O show começou com a dobradinha de 1988, “South Of Heaven” / “Silent Scream” e seguiu com a porrada “War Ensemble”. Nas primeiras três músicas, o som embolou (infelizmente virou uma rotina por aqui) e a guitarra de Kerry King chegou a pifar de vez para desespero do técnico que estava na lateral do palco.

Com os problemas resolvidos, eles seguiram com “Blood Red” (também do “Seasons”), “Cult” (a única do “Christ Illusion” que deu as caras), “Disciple” e “Mandatory Suicide” com todos indo a loucura e muitos bangers chorando de emoção, literalmente.

O público estava na mão e a banda mostra seu profissionalismo ao mandar provavelmente sua música mais conhecida, “Seasons In The Abyss”, em mais uma seqüência matadora de clássicos na seqüência com “Chemical Warfare” e “Dead Skin Mask”.

Chegamos ao momento mais esperado (e surpreendente, pelo menos para mim), quando, sem anunciar, eles começam uma versão pesadíssima de “Postmortem” seguida por sons de chuvas e trovoada. Sim, exatamente a mesmíssima seqüência do clássico “Reign In Blood”, com o final apoteótico em “Raining Blood” (infelizmente sem a chuva de sangue do DVD “Still Reigning” onde eles tocaram o álbum inteiro) e uma das maiores rodas de porrada que já presenciei em um show de Metal. A música foi tocada com perfeição (como todas no show, diga-se de passagem, se não fosse o problema de som no começo) e as três batidas tradicionais no bumbo de Dave faziam o chão do Via Funchal literalmente tremer. A banda faz um rápido agradecimento e sai do palco.

Sem maiores enrolações (como você já deve ter reparado, o Slayer é uma banda direta) e quando o público começava a ensaiar os gritos chamando os caras, a maravilhosa introdução de “Hell Awaits”, um dos maiores clássicos do Metal de todos os tempos, ganhava espaço nas PAS com os gritos satânicos de ‘Join Us’ até o ‘Welcome Back’. A banda inteira reapareceu e começava um momento antológico que só quem esteve no Via Funchal pôde curtir e vai contar aos netos.

Já presenciei mais de uma centena de shows desde 1989 e digo sem sombra de dúvidas que este foi o melhor final que vi em toda minha vida. A seqüência matadora do bis começou com o hino do inferno, “Hell Awaits”, tocado na íntegra para o delírio dos fãs das antigas e emendada com “The Antichrist” e “Angel Of Death”. Todas cantadas (gritadas) com perfeição por Tom e pelo público em uma ordem simplesmente perfeita para o encerramento.

Quando a seqüência terminou em uma hora e 15 minutos (curto mas intenso), nossos pescoços agradeceram, Tom Araya disse um simples “obrigado e vejo vocês amanhã” e o Slayer saiu do palco. Se a despedida foi fria, a noite tinha sido quente para milhares de sortudos que puderam acompanhar a histórica primeira passagem pelo país após 8 anos e a banda saiu com a certeza do bom trabalho cumprido, mesmo com todos os empecilhos enfrentados. Um exemplo de profissionalismo e amor ao que faz.

Defeitos? Sim, os telões não funcionaram a pedido da banda (o que alimentou diversas especulações) e as supracitadas falhas no som, mas isso é pouco, muito pouco para tirar os méritos do Slayer em um show fantástico.

No dia seguinte eles tocariam um set com 3 músicas a mais, mas em uma ordem totalmente diferente. Essas seqüências matadoras, só quem enfrentou o verdadeiro inferno para chegar ao Via Funchal naquela noite chuvosa de sexta-feira.

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Sobre Bruno Sanchez

Paulistano, 26 anos, Administrador de Empresas e amante de História. Bruno é colaborador do Whiplash! desde 2003, mas seus textos e resenhas já constavam na parte de usuários em 1998. Foi levado ao Rock e Metal pelos seus pais através de Beatles, Byrds e Animals. Com o tempo, descobriu o Metallica ainda nos anos 80 e sua vida nunca mais foi a mesma. Suas bandas preferidas são Beatles, Metallica, Iron Maiden, Judas Priest, Slayer, Venom, Cream, Blind Guardian e Gamma Ray.

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