Whitesnake e Judas Priest: As duas bandas, afinal, têm tudo a ver

Resenha - Whitesnake e Judas Priest (Arena Skol, São Paulo, 09/09/2005)

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Por Thiago Sarkis
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Duas bandas legendárias, dois vocalistas carismáticos de vozes inesquecíveis, dois bateristas monstruosos, duas duplas de guitarra de arrepiar os cabelos, e dois baixistas mais nulos que voto no Enéas. Não é que, no frigir dos ovos, Whitesnake e Judas Priest têm tudo a ver?

Há ainda outros aspectos similares. Dentre eles, o que mais se realça é que tanto Rob Halford quanto David Coverdale já dão sinais de fim de carreira; marcados pelo tempo eles seguram as pontas nos vocais, mas já não são os mesmos.

Apesar das críticas e brincadeiras, certamente ambos os conjuntos fizeram o possível e realmente deixaram alguns momentos a mais em suas memoráveis histórias no Brasil.

A noite começou com o Angra, banda convidada que passa por uma fase mágica. Profissionalismo a toda prova ao vivo, e dedicação absoluta à divulgação do último álbum de estúdio, “Temple Of Shadows” (2004). O grupo parece apontar para um futuro enfatizado em Edu Falaschi e sem tanta presença dos anos André Matos. Foi a sensação que se teve ao vê-los executarem inúmeras músicas originalmente cantadas pelo vocal atual, e tão poucas da era anterior. Até “Carry On” ficou de fora. No entanto, clássicos como “Angels Cry” e “Nothing To Say” fizeram as honras do passado e marcaram boa presença.

A organização na Arena Skol Anhembi parecia coisa de festival mesmo, principalmente no que concerne ao horário e tempo de cada banda no palco. Relógios bem acertados; quem atrasou dançou.

O Whitesnake veio na seqüência do metal melódico brasileiro e teve o seu show comprometido desde o início. Aliás, muito antes de começar. Tentar colocar vinte e cinco anos de estrada em apenas uma hora de espetáculo não me parece a idéia mais inteligente que se possa ter, especialmente quando os fãs aguardam pelo retorno de seus ídolos por quase uma década. Mesmo tocando maravilhosas canções como “Still Of The Night”, “Here I Go Again”, “Slow An' Easy”, “Love Ain't No Stranger”, “Crying In The Rain”, a balada global “Is This Love”, e outras que marcaram essa longa e gloriosa trajetória, é bem óbvio concluir que Coverdale precisa de uma ajuda de repertório.

Começar um show do Whitesnake com cover de “Burn” emendada a uma parte de “Stormbringer” do Deep Purple é, no mínimo, estranho, especialmente se considerarmos a uma hora cravada reservada para o grupo no palco. Tudo bem, o cantor que gravou a versão original deste verdadeiro hino do rock 'n' roll está ali, mas não se justifica. A situação fica ainda pior se lembrarmos que, além disso, adicionaram ao 'set list' solos de guitarra e bateria com Doug Aldrich e Tommy Aldridge, respectivamente. Se somarmos a duração destes e também de “Burn”, certamente lamentaremos, pelo menos, duas ou três músicas do próprio Whitesnake que ficaram de fora. Por fim, para acabar de vez com a lamúria, é triste ver que eles optaram por atuar como se “Slip Of The Tongue” (1989) nunca tivesse existido, e o mesmo serviu para a década de setenta da banda, praticamente ignorada!

Para quem, assim como eu, não conseguia entender como Reb Beach poderia ser guitarra base de alguém, Aldrich deu a resposta perfeita. Bem postado, com presença de palco, muita pegada e sentimento. Surpreendente, ele certamente merece muitos créditos e está no lugar certo. Sua guitarra pede pela voz de Coverdale, que às vezes responde, e noutras não. Melhor que em 1997, com certeza e por incrível que pareça. De qualquer maneira, é uma dupla fortíssima, lembrando os áureos tempos de John Sykes.

O fator público foi essencial para que, mesmo com todos os pontos questionáveis, o show tenha sido de fato inesquecível. Cá entre nós, trinta mil pessoas entoando músicas de hard rock não é muito comum de se ver atualmente. E faz uma diferença absurda no efeito final sobre os músicos e a própria audiência. Sensacional! Além disso, desculpem-me as moças, senhoras, meninas, senhoritas, mas a quantidade de mulher que o Whitesnake leva é fenomenal. Dá um tremendo alívio olhar pro lado e não ter que ficar no meio daquela sovacada de homem.
O Judas Priest veio como atração principal e arrebentou o que viu pela frente, iniciando com “The Hellion” e “Electric Eye” de “Screaming For Vengeance” (1982), assistidas atentamente por Igor Cavalera do Sepultura, que estava na barricada, e 'montou' ali desde os primeiros segundos do show. Enquanto isso, Rob Halford utilizava todos os espaços e cenários da super produção de sua banda. Às vezes se postava um pouco longe do público, é verdade, mas talvez tenha uma razão. Tive a impressão que por alguns instantes ele dava uma disfarçada e lia as letras!?!? Muito estranho, deve ter sido ilusão de ótica.

“Riding On The Wind” e “A Touch Of Evil” vieram na seqüência, e abriram o caminho para duas músicas do CD “Angel Of Retribution”, “Judas Rising” e “Revolution”. O material novo foi muito bem aceito pelo público, mas o Judas já havia preparado uma retomada perfeita caso o ritmo caísse, tanto é que mandou logo “Breaking The Law”, chamando a atenção até da ala mais reservada ao Whitesnake.

“I'm A Rocker” de “Ram It Down” (1988) pegou muitos de surpresa e pareceu-me bastante adequada para preceder uma das passagens mais inusitadas da noite. “Diamonds And Rust” foi a única música que trouxe Tim Owens à lembrança dos espectadores. Mesmo gravada originalmente com Halford em “Sin After Sin” (1977), a versão tocada foi a acústica, característica da fase de “Ripper” nos vocais. Ouso dizer inclusive que, neste formato, o ex-vocalista se saiu melhor que o atual eterno.

Injeção de ânimo com a 'novidade' “Deal With The Devil”, e uma seqüência também surpreendente composta por “Beyond The Realms Of Death”, “Turbo Lover” (!!!), e a recente “Hellrider”.

“Victim Of Changes” iniciou um período mais 'sacro' do show e, ao mesmo tempo, chamou minha atenção por alguns desencontros de K.K. Downing e Glenn Tipton. Por ser a faixa de abertura de um de meus discos favoritos do Judas Priest, prestei mais atenção à execução, e notei algumas falhas não usuais a esta legendária dupla de guitarras.

“Exciter”, “Hell Bent For Leather” e “Living After Midnight” não sofreram com isso, mas “Painkiller”... justo a grande ária, teve uma das piores performances que já vi e ouvi por parte do Padre Judas. A voz de Halford vacilou, e procederam-se vários erros nos solos de guitarra. O único que se manteve indefectível foi Scott Travis. Aliás, encontro de polvos no Anhembi. Priester, Aldridge e Travis!

Quando boa parte do público já estava na saída, o quinteto voltou com “You've Got Another Thing Comin'”, nome muito apropriado para os apressadinhos a caminho de casa.

Apesar de falhas na performance, o repertório mostrou porque o Judas Priest é esse gigante do heavy metal. Sem medo de inovar, ousar, incluir músicas inesperadas, e tocar composições novas.

Provavelmente 90% dos fãs saíram satisfeitos dali, e presenciaram uma data que pode se tornar mais histórica no futuro do que agora, pois há um inegável ar de “última vez” deixado por essa turnê.

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Sobre Thiago Sarkis

Thiago Sarkis: Colaborador do Whiplash!, iniciou sua trajetória no Rock ainda novo, convivendo com a explosão da cena nacional. Partiu então para Van Halen, Metallica, Dire Straits, Megadeth. Começou a redigir no próprio Whiplash! e tornou-se, posteriormente, correspondente internacional das revistas RSJ (Índia - foto ao lado), Popular 1 (Espanha), Spark (República Tcheca), PainKiller (China), Rock Hard (Grécia), Rock Express (ex-Iugoslávia), entre outras. Teve seus textos veiculados em 35 países e, no Brasil, escreveu para Comando Rock, Disconnected, [] Zero, Roadie Crew, Valhalla.

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