Resenha - Bad Religion (Gigantinho, Porto Alegre, 04/12/2004)

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Por danielcsanes@yahoo.com.br
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Ansiedade. Muita ansiedade. Talvez esta seja a principal sensação que passa pela minha cabeça cada vez que se aproxima o dia do show de uma banda que eu gosto muito. Foi assim com Metallica, Deep Purple, Kiss, Ozzy, Sepultura, Ramones... Desde que comprei meu ingresso para assistir à apresentação do Bad Religion no Gigantinho, esse velho sentimento tomou conta de mim. Ok, quando vi o Offspring, há menos de dois meses, foi tudo parecido. Mas agora, a expectativa era maior. Muito maior.

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O Bad Religion não é qualquer banda de punk, hardcore, poppy punk – ou seja lá o rótulo que queiram dar. O Bad Religion é um dos pilares da música nos anos 80. Mesmo que não tenha ganhado tanta notoriedade como outros que vieram depois. Por isso, a satisfação de ver um show dos caras é imensa, ainda mais depois de eles terem lançado um disco sensacional, The empire strikes first.

Cheguei em cima da hora, mas não tive problemas para entrar. Infelizmente, o Gigantinho estava quase vazio. Era show para lotar o Opinião, mas não um ginásio. Depois de tomar umas cervejas, fui para pista esperar o início da apresentação do Dead Fish. E o show não tardou: pouco depois das 21h, os capixabas apareceram para detonar uma hora de hardcore melódico (rótulo dispensável). Pela primeira vez tocando em um lugar tão grande em Porto Alegre, a gurizada mandou bem, cativando os fãs mais novos com os sucessos da MTV “Você” e “Zero e um”. Mas não esqueceram os sons antigos, e detonaram “Molotov”, “Mulheres negras” e a mais pedida da noite, “Sonho médio”. Fora a desnecessária ironia do vocalista Rodrigo, incitando o público a recepcionar a banda com um “ei, Dead Fish, vai tomar no cu”, foi um grande show. Tomara que tirem logo o lugar do CPM 22, pois a qualidade deles, musical e liricamente, é infinitamente maior.

Pouco depois das 22h, Greg Graffin, Brian Baker, Greg Hetson, Jay Bentley e Brooks Wackerman pisaram no palco do ginásio. Quem conhece a formação da banda sentiu a falta de um nome... É, Mr. Brett Gurewittz não veio, ficou descansando por aí... Não que sua ausência fosse prejudicar o som da banda – não há necessidade de três guitarras no Bad Religion-, mas o cara é um dos integrantes originais da banda, além de fundador da gravadora Epitah, berço de bandas como Offspring e NOFX. Ou seja, uma lenda viva do punk rock. Para quem gosta de Iron Maiden, é como se o grupo viesse ao Brasil mas não contasse com Adrian Smith. Bom, de qualquer forma, foi uma apresentação memorável.

Luzes apagadas, começa a introdução “Ouverture” nos alto-falantes. Logo após, “Sinister rouge”, do The empire... levanta mais poeira do que a Ivete no trio elétrico. Consegui na internet o set list dos recentes shows da banda na Europa. Para minha surpresa – grata surpresa – eles mudaram algumas coisinhas... E tocaram mais clássicos do que era de se esperar! Foi emocionante ouvir “No control”, Modern man”, Atomic garden”, “Suffer”, “Man with a mission” e a mais pedida entre elas, “Generator”! Todas – eu disse TODAS – levantaram o público, que pogou incansavelmente até o fim.

Clássicos mais antigos fizeram parte do repertório – “Fuck armaggedon... this is hell”, “We’re only gonna die”, “Along the way” e “Do what you want”. “You” emocionou os fãs do game Tony Hawk’s Pro Skater 2, sendo que muitos finalmente estavam descobrindo de onde vinha a trilha sonora de suas manobras virtuais no PlayStation. “Recipe for hate” foi dedicada a George W. Bush, que logo recebeu sonoros “fuck you”. É incrível como, mais de dez anos depois de lançada, essa música se encaixa perfeitamente na realidade norte-americana. Talvez tenha sido feita em homenagem ao pai do presidente mais idiota do mundo...

Os hits do novo álbum estiveram presentes, e não ficaram atrás dos demais. “Los Angeles is burning” e “God’s love” são muito boas, realmente não poderiam ser deixadas de fora - assim como “Kyoto now!” e “Sorrow”, do disco anterior, The process of belief. Não vou citar todas as músicas, até porque foram muitas, mas deixei para o fim outros momentos marcantes.

Duas canções lentas foram cantadas em uníssono, talvez porque suas letras fortes e melodias marcantes sejam realmente contagiantes. Sim estou falando de “Infected” e “21st century digital boy”. Saquem só o refrão desta última: “Eu sou um garoto digital do século 21/não sei ler, mas tenho um monte de brinquedos/Meu pai é um intelectual preguiçoso de classe média/ Minha mãe está usando Valium/tão ineficaz/a vida não é um mistério?”. Devastador.

As inesperadas “New America” e “A walk” foram recebidas com muito gosto. Àqueles que não são fãs de punk rock, digo que baixem esta última. Se não se empolgarem com a energia e o feeling desta música, eu desisto...

O grand finale já era esperado: “American Jesus”. Talvez não seja a melhor canção do Bad Religion, nem mesmo seu maior sucesso. Mas sua importância no repertório – tanto que foi a última música – tem fundamento. Com esta música, eles provam que nem todos os norte-americanos acham que são os donos do mundo e que a cultura dos outros países deve ser ignorada. Senão, como explicar a ousadia de versos como “Não preciso ser um cidadão global/ Sou abençoado pela minha nacionalidade/sou integrante de uma nação próspera/nós estimulamos nossa popularidade/Sinto muito pela população da terra/porque poucos vivem nos EUA//Ao menos os estrangeiros podem copiar nossa moral/podem nos visitar, mas não ficar/somente alguns afortunados podem prosperar”. É mole?

Grande banda, grande show... Não vi sintomas de decadência ou falta de tesão depois de mais de 20 anos de estrada. Espero que voltem logo. Greg avisou que eles pretendem incluir o Rio Grande em todas as próximas turnês... Será? Se depender da credibilidade da banda, dá para ter esperança.

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