Resenha - Gong (The Knitting Factory - Soho, NY, 03/10/2000)

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Por Márcio Ribeiro
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Data: 30/09/2000

Para quem não conhece, Gong é uma banda fundada em 1968 por Daevid Allen (co-fundador do Soft Machine) e sua esposa Gilli Smyth, com um som psicodélico tendendo sempre para o progressivo, muito embora sem a mesma seriedade que os progs geralmente se reservam. O show do Gong é exatamente isto, um show - com temática interplanetária, situado no planeta Gong, habitado por figuras estranhas como Zero, o herói (Allen) e Shakti Yona (Smyth), entre outros. Daevid Allen fala com o público presente, como um mestre do picadeiro fala em um circo, explicando a fantasia na qual irão emergir todos. Apresenta-se com longos cabelos, barba e bigode, todos brancos, combinando com o macacão branco, além de uma faixa laranja na cintura e tênis também alaranjado, combinando com o rosto vermelho, como um gringo no sol de verão. Durante o show ele trocará de roupa três vezes, e Smyth duas.

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A banda partiu para uma viagem musical de quase duas horas e meia de pura música lisérgica, digna de ser acompanhada não de cerveja, mas de uma boa xícara de chá. Ou para os mais urbanos, não chegados a natureba, Q-Suco San Franciscano, safra '66. Quase 400 pessoas, a lotação máxima do local, assistiram a uma incrível apresentação, com destaques para Daevid Allen, pela disposição de pular e dançar tanto, apesar da idade avançada, como para Gilli Smyth, com aspecto de vovó simpática cantando "I am your pussy, you are my trap", com tamanha sensualidade. Meow! Quanto aos instrumentistas, Mike Howlett, este incrível baixista, é um show. Não só pelo bom gosto mas por gostar de jogar os sons graves bem na cara, desenhando a melodia, não só limitando-se a dar chão à banda. Entre os novos, o baterista Chris Taylor esteve perfeito durante todo o segmento, mas o destaque fica para o saxofonista Theo Travis, com a difícil tarefa de substituir o Didier Malherbe, da formação original. Tanto no sax tenor, quanto na flauta transversal, o trabalho de Travis não ficou nada a dever.

O show, de início, apresentou diversas faixas do mais recente CD, "From Zero To Infinity." Esta obra é a quinta parte da história interplanetária chamada Radio Gnome. Considerada por muitos como a melhor reunião de discos da banda, Radio Gnome compreende os álbuns Radio Gnome Part 1: The Flying Tea Pot, 1973; Part 2: Angel Egg, 1973; Part 3: Gong You, 1974; Part 4: Shapshifter, 1996; e no momento, o último, Part 5: From Zero To Infinity, 2000. O repertório da excursão é basicamente tirado desta história, com exceção do disco Camembert Eletrique, não pertencente à história, embora seja o primeiro disco a anunciar a idéia de uma Radio Gnome. Fica o registro que existem também outros discos do Gong sobre a tutela de Allen, igualmente criativos.

Daevid Allen é australiano porém a banda tem seu quartel-general na Inglaterra, e a maioria de seus membros originais é francesa. Espantoso é o fato de que, apesar do longo tempo de vida da banda, a primeira vez que eles excursionaram pela América tenha sido em 1996. De lá pra cá, esta é sua quarta passagem por Nova York. Conversando com a Gilli Smyth depois do show, ela sorriu ao descobrir que eu era brasileiro e logo me perguntou se eu conhecia o trabalho de Fábio Golfetti. Sorri e confirmei estar familiarizado com sua banda (Violeta de Outono) e perguntei se ela teria algum recado para o público brasileiro que conhece e curte Gong. Disse-me ela: "Diga-lhes que se quiserem ver um show nosso, estaremos felizes por ir tocar lá. É só ter alguém que organize o projeto." Recado dado.

Para maiores informações sobre o Gong e seu histórico, existe agora um website oficial: http://www.planetgong.co.uk

Repertório da noite (álbum):

Radio Gnome (Camembert Eletrique)
Foolefare (Zero To Infinity)
Zeroid (Zero To Infinity)
Yoni On Mars (Zero To Infinity)
Bodilingus (Zero To Infinity)
Infinitea (Zero To Infinity)
Tic Toc I Am You (Gong You)
Witch's Song: I Am Your Pussy (Flying Teapot)
Magdalene (Zero To Infinity)
Radio Gnome Invisible (Flying Teapot)
The Mad Monk (Zero To Infinity)
You Can't Kill Me (Camembert Eletrique)
Flute Salad (Angels Egg)
Oily Way (Angels Egg)
Inner Temple (Angels Egg)
Outer Temple (Angels Egg)
Goddess Invocation Om Riff (Shapshifter)

Bis
I've Bin Stoned Before (Camembert Eletrique)
The Invisible Temple (Zero To Infinity)
Gnome The Second (Camambet Eletrique)

Formação:
Daevid Allen – g/voz
Gilli Smyth - voz
Mike Howlett - b
Theo Travis - s/f
Gwyo Zepix - t
Chris Taylor - d

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Sobre Márcio Ribeiro

Nascido no ano do rato. Era o inicio dos anos sessenta e quem tirou jovens como ele do eixo samba e bossa nova foi Roberto Carlos. O nosso Elvis levou o rock nacional à televisão abrindo as portas para um estilo musical estrangeiro em um país ufanista, prepotente e que acabaria tomado por um golpe militar. Com oito anos, já era maluco por Monkees, Beatles, Archies e temas de desenhos animados em geral. Hoje evita açúcar no seu rock embora clássicos sempre sejam clássicos.

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