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Radicalismo: quem disse que gosto não se discute?

Radicalismo. Esta palavra sempre me incomodou. Aliás, tudo que é feito em excesso sempre me deixou incomodado, seja relacionado à música ou não. Desde o início, lá longe, em meados dos anos oitenta, quando eu não passava de um menino dando os meus primeiros passos pelo mundo do rock, sempre me guiei por uma premissa básica: se eu achar bom, eu gosto, e pronto. Nunca dei muita importância para opinião dos outros, e também não esquentava a cabeça sobre o que as outras pessoas iriam pensar ao meu respeito ao descobrirem que eu gostava desta ou daquela banda.

Com o passar dos anos, com mais maturidade, você vai percebendo que a música não tem limites, que ela pode levar você a qualquer lugar, e que é você que escolhe como quer ir. Como todo garoto, descobri o rock através das guitarras distorcidas, e isso não aconteceu somente comigo. Tenho certeza de que dezenas de músicos que são execrados nos fóruns aqui do Whiplash! também começaram assim. Nomes como Samuel Rosa, os caras do Jota Quest e até mesmo o desprezível Chorão do Charlie Brown deram os seus primeiros passos na música ouvindo álbuns de metal, e não de outros estilos. “Paranoid”, “Smoke On The Water”, “Black Dog”, “Rock And Roll”, são faixas que estão no DNA de qualquer aficcionado por música, seja ela heavy metal ou não. E, se hoje estes mesmos artistas falam mal da música pesada, estão atestando nada mais nada menos do que o seu total preconceito com o estilo que mais cresce em todo o planeta.

Mas, apesar de toda a paixão que o metal exerce sobre milhares de cabeças mundo afora, esta paixão não deve, nunca, ser confundida com radicalismo, e é aí que a coisa pega. Estou cansado de ouvir opiniões e ler mensagens de fãs que se auto-denominam “trues” e “autênticos” dizendo que apenas os grupos de metal são como eles. Ora, isso é uma grande bobagem. Bandas autênticas e dedicadas de coração à música, assim como grupos com falta de talento, existem em qualquer estilo. O que isso gera? Gera o seguinte: o “true” nunca vai ouvir grupos como, por exemplo, U2 e R.E.M., porque, para ele, estas bandas não fazem um som “verdadeiro”, e, mais um clichê usado à exaustão, eles fazem um som “comercial”.

É preciso seguir em frente. Não é preciso deixar de ouvir heavy metal para ouvir outros estilos, não é isso que eu estou dizendo. O que eu estou falando é que é necessário deixar os seus ouvidos, e a sua cabeça, abertos a todo e qualquer estilo musical. Ao mesmo tempo em que a paixão pelo metal nos leva a descobrir novos e fantásticos grupos todos os dias (exemplos dentro e fora do Brasil não faltam, o que comprovam nomes como Tribuzy, Kamelot e Evergrey), novos e fantásticos artistas surgem também em outros estilos.

Vamos pegar o exemplo do U2. O grupo surgiu há mais de vinte e cinco anos em Dublin, na Irlanda. O talento e o carisma de Bono, aliados à originalidade e à criatividade de The Edge levaram o U2 a se destacar facilmente entre as centenas de bandas dos anos oitenta. A carreira do grupo pode ser dividida em três fases. A primeira tem como destaque o álbum “The Joshua Tree”. A segunda, quando a banda decidiu tentar um novo caminho e não teve medo de ousar (o que, aliás, é sempre muito bem vindo quando se fala de música), tem como ápice o obrigatório “Achtung Baby”, de 91. E a mais recente, quando o conjunto voltou às origens, aliando a experiência à sede de buscar novos caminhos, está representada de forma exemplar em “All That You Can´t Leave Behind”. Tudo isso para dizer que, ao manter os seus ouvidos fechados, vivendo exclusivamente dentro do seu mundo “true”, um headbanger estará deixando de conhecer uma das mais influentes bandas dos últimos vinte anos.

Citei o U2, mas poderia ter usado como exemplo o R.E.M., os Stones, os Beatles, os Beach Boys (por favor, ouçam “Pet Sounds”, só peço isso), o Wilco, o genial Neil Young, Tom Petty, Outkast (“meu deus, ele citou mesmo um grupo de rap no texto?” Sim, ele citou, e basta uma audição de “Speakerboxxx / The Love Below” para entender porque) e muitos outros, todos artistas “autênticos”, “trues”, com talento de sobra, que acreditam no que fazem e deram (ainda dão) uma contribuição imensa à música.

É claro que temos muito lixo musical, mas isso não está restrito ao pop, como muitos pensam. Para cada Britney Spears, para cada Strokes, temos um Iron Savior: artistas que, apesar dos estilos diferentes, partem de uma mesma premissa, requentando e dando cara nova às velhas fórmulas já usadas em demasia, embalando tudo como se fosse a última tendência musical.

Por mais que você queira acreditar, o termo heavy metal não é sinômino de qualidade musical, e o termo pop não é sinômino de lixo. Não é por fazer metal que um grupo está imune a críticas, e não é por ser pop que uma banda deve ser desprezada. Existem ótimos, e péssimos, artistas em todo e qualquer estilo. E fique tranquilo: com a sua experiência, com os anos e horas que você dedicou à música, ouvindo milhares de canções, você irá saber separar, claramente, o joio do trigo.

O Whiplash! é um site dedicado ao rock, e o rock corre por vários caminhos. Não, o rock não é apenas metal, é também CPM 22, Coldplay, Dave Matthews Band. Por isso, não deixe o seu radicalismo cobrir a sua visão, privando-o de conhecer dezenas de sons muito bons. Você não vai precisar parar de ouvir Dimmu Borgir só porque descobriu o Men At Work.

Abra a sua cabeça, e boa viagem.

Ricardo Seelig
[email protected]
Coluna Rock Faz Bem

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Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor do blog Collectors Room - www.collectorsroom.blogspot.com - e colaborador das revistas poeira Zine e Rolling Stone. Escreve para o Whiplash desde 2005.

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