"Não confie em ninguém com menos de 500 discos". Esta frase, dita pelo personagem Rob Gordon no filme "Alta Fidelidade", pode parecer banal, mas faz parte do cotidiano de milhares de pessoas como eu, como você, que tem a música como parte fundamental de suas vidas.
Eu sou um colecionador incurável. Tenho consciência disso. Meu parque de diversões é uma loja repleta de CDs e DVDs. E isso acontece a pelo menos dezoito anos.

Essa primeira fase foi totalmente voltada ao heavy metal. Como todo adolescente, as portas do rock foram abertas para mim ao som de guitarras distorcidas e riffs inesquecíveis. Álbuns emblemáticos desta época da minha vida foram "Black Metal", do Venom ; "Ride The Lightning" e "Master Of Puppets", do Metallica (naquela primeira prensagem, com capa em papel vagabundo e sem encarte) ; "Reign In Blood", do Slayer ; "Back In Black" somou-se aos dois do AC/DC citados ali em cima ; "Black Sabbath", "Paranoid" e "Master Of Reality", do Black Sabbath ; "Made In Japan" e "Made In Europe", do Deep Purple ; "Unleashed In The East", do Judas Priest ; "Van Halen II" e "Diver Down", do Van Halen ; e "Live After Death" e "Somewhere In Time", do Iron Maiden.
Cada álbum comprado era uma viagem diferente. Você pegava o vinil lacrado, abria e via o encarte em capa dupla, as fotos da banda, o rótulo no meio do disco. Era uma época de descobertas, onde as informações sobre as bandas não eram assim tão fáceis de conseguir.

A seguir, coloquei na cabeça que iria descobrir porque os Beatles eram os Beatles. Porque, até aquele momento, para mim os Beatles não passavam de apenas mais uma banda. Comprei toda a discografia de uma tacada só, e, do alto dos meus dezessete anos percebi, enfim, o quanto estava sendo ingênuo. Os Beatles realmente não foram apenas mais uma banda. Foram A banda.

"Physical Graffiti" sempre me chamou a atenção. Aquela capa repleta de janelas, onde você podia alterar a disposição das coisas conforme colocava o encarte, escondia muito mais que apenas quinze canções. Até hoje considero "Physical Graffiti" o melhor álbum que já ouvi na vida. "The Rover", as impressionantes "In My Time Of Dying" e "In The Light", "Kashmir", "Houses Of The Holy", "Bron-Yr-Aur", "Down By The Seaside" e "Ten Years Gone". Estas oito músicas resumem a bagunça que o Led Zeppelin fez na minha vida: mantive a sede por guitarras distorcidas, o desejo de barulho e vocais gritados, mas, ao mesmo tempo, meu queixo caiu e percebi que as minhas emoções, o que eu estava sentindo, poderia ser traduzido em uma, duas, três, em várias canções da banda que eu idolatrava.

Iron Maiden, Beatles e Led Zeppelin. Eu tinha recém saído da adolescência, não sabia o que iria fazer da vida, mas já tinha eleito a minha santíssima trindade do rock and roll.
Como todo fã de rock, minha coleção ia aumentando. Dez, vinte, cem, duzentos, trezentos, quatrocentos, quinhentos, seiscentos, setecentos, oitocentos, novecentos, mil discos. Ao mesmo tempo em que descobria bandas clássicas como Rush, Nazareth, Supertramp, Whitesnake, Aerosmith, Cult, Pink Floyd, Rolling Stones e inúmeras outras, a curiosidade me levava ao encontro de grupos como Replacements, Del Fuegos, Zodiac Mindwarp, The Fall, Dead Kennedys e Smithereens. Esse bombardeio de informações cristalizou as minhas opiniões e conclusões sobre a música, formando o meu gosto pessoal.
Ninguém sai imune ao ouvir álbuns como "Electric, do Cult ; "Paris", do Supertramp ; "Hair Of The Dog", do Nazareth ; "The Great Rock'n'Roll Swindle", do Sex Pistols ; "Rattle And Hum", do U2 ; "Brick By Brick", do Iggy Pop, e muitos outros.
E daí a sua vida vai tomando outro rumo. Enfim você descobre o que quer ser. Coloca tudo o que viveu em um liquidificador, bate de um lado para o outro, e sai com uma profissão. Foi assim que eu virei publicitário. Acordei, olhei para os lados, e estava dentro de uma agência de propaganda, fazendo o que sempre quis.
O tempo passa, e insiste em deixá-lo mais duro. Os obstáculos, as decepções, as alegrias, as vitórias, vão construindo, pouco a pouco, o que você é. E, claro, a paixão pela música evolui junto. "Yankee Hotel Foxtrot" do Wilco, "A Rush Of Blood To The Head" do Coldplay, "Gold" do Ryan Adams e "All That You Can't Leave Behind" do U2 são os álbuns que resumem os últimos quatro anos da minha vida (você que está lendo certamente tem os seus, e eles são, é claro, diferentes destes que eu citei).
Mas eu não estou falando se tal álbum é melhor ou pior que outro. O que eu estou dizendo é que, ao ter contato com tantas músicas, com tantas bandas, com tantos estilos diferentes, ao mesmo tempo em que você descobre o que agrada os seus ouvidos, naturalmente você se torna mais exigente, e continua ávido por novas descobertas. Se eu olhar agora para a estante repleta de CDs da minha sala, as bandas que estão pulando dali para o cd player são nomes como Wilco, Grandaddy, Thrills, Blues Traveler, Dream Theater, Clash, Ben Harper, Josh Rouse, e mais algumas que eu não vou lembrar agora.
O que eu estou falando é que foi a curiosidade e o desejo de ouvir sempre mais, cultivado ao longo dos anos, que me levou ao encontro de álbuns como "1972" de Josh Rouse, "Sumday" do Grandaddy e "Let's Bootle Bohemia" do Thrills. Este foi o caminho que a música mostrou para mim, e ele é diferente do caminho que você que está lendo descobriu. Porque, antes de tudo, o rock é uma experiência pessoal, única para cada um.
Você não precisa ter mais que quinhentos discos. Você só precisa sentir o sangue nas veias e o coração mais forte toda vez que ouvir um novo CD. Enquanto isso acontecer você manterá vivo o adolescente que existe dentro de você, que faz você sonhar e acreditar que tudo é possível.
Eu, pelo menos, acredito.
Ouvindo:
Josh Rouse, Come Back.
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Ricardo Seelig é editor do blog Collectors Room - www.collectorsroom.blogspot.com - e colaborador das revistas poeira Zine e Rolling Stone. Escreve para o Whiplash desde 2005.
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