A lógica dark e assombrosa dos Doors

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A lógica dark e assombrosa dos Doors


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Estamos em 2004, época de redação deste texto. E isto me faz pensar que já se vão, nada mais, nada menos, que 35 anos desde o ano em que se proclamou a “Era de Aquário” e o mundo despirocou de vez: 1969. 35 anos de aniversário de Woodstock e de Altamont, da ruptura dos Beatles e de Abbey Road, 35 anos de aniversário da chegada do homem à Lua... e do anárquico e fatídico show dos Doors em Miami. Puxa vida!

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As notícias que vejo hoje na mídia e que chegam até mim dando conta de uma nova formação dos Doors que anda fazendo shows por aí e afrontando gente como os familiares de Jim Morrison e o baterista original do grupo, John Densmore, na justiça, são de um surrealismo, para a minha pessoa, que soa, no mínimo, grotesco – e mais do que um mero surrealismo possa ser. Esta estória de “Doors do Novo Milênio” ou do ano dois mil e sei-lá-o-que, me perdoem os fãs do hype, me parece mais uma daquelas macumbas-pra-turista-ver de embrulhar o estômago, mais um dos grandes e enfadonhos engodos que o mundo do rock, nos dias atuais, com os seus eternos e tacanhos comebacks, parece não se cansar de promover. Sei que o “xamanístico” Ian Astbury (afinal, tenhamos o respeito: o cara realmente é descendente de índios) está fazendo o que pode para dar “credibilidade” a essa ship of fools geriátrica (e doidona: Ray Manzarek viaja de peyote até hoje, pelo jeito!). E o pobre do moço até que tem lá suas semelhanças físicas com o Rei Lagarto... mas aí a forçar a barra e querer que eles pareçam tão vigorosos e dionisíacos quanto o grupo original, como muita gente por aí anda proclamando aos sete ventos, já é um pouco demais...

Os Doors originais, sempre é bom lembrar, surgiram numa época em que, numa estranha e singular semelhança com o mundo de hoje, tudo que os EUA menos queriam fazer chamava-se “assumir riscos”. A sociedade norte-americana, nos idos de 1965-67, era ainda um povo careta e conservador, e amedrontado – como nos dias de hoje. A paranóia sempre pareceu fazer parte da realidade americana: se hoje temos o 11 de setembro e o terrorismo como espectros mais recentes de um medo cosmopolitano generalizado, naquela época, havia a crise dos mísseis em Cuba, e Moscou, a “Guerra Fria”, levando o cidadão médio a acreditar no futuro da Guerra do Vietnam como mais um sintoma da salvação que Tio Sam traria ao mundo contemporâneo, livrando-o do comunismo com a profilaxia bélica de gente como Lydon Johnson e Nixon; uma sociedade que, mesmo após a Invasão Britânica e a chegada dos Beatles à América, ainda apresentava veementes sinais de resistência aos “Fab Four” e à nova música, preferindo curtir os filminhos e as músicas de praia de Elvis (já na segunda fase de sua carreira) e Frankie Avalon, e usando a malfadada (e mal-interpretada) declaração de Lennon em 1966 (a polêmica “Os Beatles são mais populares do que Jesus Cristo”) como pretexto para um estopim destrutivo que represaria toda a ojeriza pela banda (tida por muitos, pejorativamente, como “aqueles ingleses”) e que culminaria com o fim da Beatlemania; e que, além de tudo, tinha ainda seus jovens mais “engajados” (no sentido político da palavra), em suma universitários, ainda totalmente ligados na música folk e na literatura beatnik como uma questão de opção cultural e política, ouvindo os discos de Dylan e Baez, fumando alguma erva e dicutindo muito, mas fazendo pouco ou quase nada. A grande concentração de idéias, na prática, ainda não tinha deixado o circuito restrito das Universidades, bibliotecas e associações estudantis, e ainda era vista, apenas, como um “passatempo” de certas fraternidades (como é mostrado, com muita propriedade, no filme Sociedade dos Poetas Mortos). Ou seja: o plano de carreira, daqueles jovens que antecederam o Verão das Flores em Haight-Ashbury, ainda era o de constituírem família e um belo salário, terem o seu Buick e um bom plano de assistência médica, além dos providenciais cachorro, frisbee, ingressos para os jogos de beisebol e churrascos de final-de-semana. Entre 1965 e 1967, havia ainda uma panela de pressão, onde ebulia algo prestes a ser detonado, a explodir – coisa que só aconteceu, de fato, em 1967, e daí em diante o mundo nunca mais seria o mesmo.

Foi justamente neste ano que os Doors apareceram, com o compacto que, julgo eu, talvez tenha sido o que melhor representou a proposta da banda e o que eles iriam significar, para todas as gerações que viriam, até hoje: “Break on Through (To the Other Side)”, em janeiro de 1967. Era a primeira vez que se ouvia falar num jovem de cabelos longos, tão belo e hipnótico, e totalmente vestido de couro negro, chamado Jim Morrison. A lógica dark e assombrosa dos Doors concentrava-se, claramente, em suas letras, e havia sim algo profético e sorumbático, aterrador e fúnebre até, naqueles acordes de órgão e guitarras de Ray Manzarek e Robbie Krieger – mas o cérebro de tudo era a força das letras de Morrison, que misturavam Nietzche, Blake, literatura beatnik e visões próprias da loucura, ainda que de um modo meio confuso e desajeitado às vezes, mas em um coquetel explosivo e tenebroso... altamente lisérgico e libertário! Jornalistas e biógrafos do rock e da vida e carreira de Jim Morrison já se debruçaram sobre o seu mito e explicaram tudo isso que estou dizendo um milhão de vezes, com muito mais palavras e bem melhor. Mas não custa nada imaginar, mais uma vez, como eles cheiravam a sensação e novidade naquela América que ainda conhecia, como o máximo de desbunde lisérgico, algumas bandas inglesas, The Mamas and the Papas e Byrds! Isso é um contraponto feroz, repito mais uma vez para enfatizar a enfadonha idéia dos “Novos Doors” que estão tocando por aí, porque aqueles eram anos de ferro e de batalhas de idéias, onde EXIGIA-SE o novo, e era necessário respirar tal oxigênio. Os Doors ERAM isso...

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Tinham tudo para dar errado pela psicodelia e musicalidade tortas que promoviam... mas acabaram sendo a banda certa, numa hora certa. Contra os acordes “redondos” e as notas certinhas dos grupos de rythim n’ blues regulares e de folk rock, eles apresentavam influências indianas e jazz fusion da melhor qualidade, muita improvisação, um certo peso primal e paleozóico, herdado diretamente dos Kinks (de quem Morrison era fã confesso – vide o som de “Hello, I Love You”), além, é claro, das habituais incursões por gêneros nunca antes relacionados ao rock: o popular vaudeville, ou música de cabaré (“Alabama Song”, do primeiro LP, ou “People Are Strange”, do segundo, além de várias outras), e até mesmo o flamenco e a música cigana (“Spanish Caravan”, do disco Waiting for the Sun, de 1968). Fechando tudo, a voz grave e sui generis, por vezes calma, por vezes tensa e aparentemente possessa de demônios, de um cantor em constante duelo com os limites da percepção – e que nada tinha a ver com os jovens vocalistas da época.

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O primeiro single, “Break on Through”, portanto, apresentava também uma letra e uma visão de mundo fatalista que derrubavam, em poesia e impacto, 80% do que se produzia em termos de escrita de rock na época – nem Bob Dylan, tido como o maioral para muita gente, saía ileso. A viagem ensandecida de Morrison era um convite à desbravação de mundos exteriores e incitadores da perplexidade humana, sobrenaturais até (“the other side”), onde buscava-se o prazer lado a lado com a morte (“we chased our pleasures here / dug our treasures there”), num ataque sensorial sem precedentes. Incitava tanto à vida no limiar dos riscos, da loucura, quanto à experimentação com drogas, em especial a nova onda do momento, o LSD. Não poderia haver música melhor para dar início ao primeiro LP do grupo: era a faixa que abria um trabalho fonográfico onde, tudo que era simplesmente sugerido na letra de “Break on Through”, aparecia, explícito e escancarado, em canções como “Light My Fire”, “End of the Night” e a épica “The End”. Também o trabalho de arte promovido pela gravadora da banda, a Elektra, foi muito competente e apropriado, ao realçar os aspectos sombrios e perturbadores do novo grupo, produzindo uma capa escura e soturna, com os rostos dos integrantes surgindo como se da penumbra, com destaque especial para a face reflexiva de um instrospectivo Morrison. Aquela embalagem, unida àquela música, se tornou algo que nunca mais saiu das mentes de uma grande parte das pessoas que viveram a geração hippie – definitivamente, os Doors eram algo de avant-garde e aterrador. Nunca tão simples como os Rolling Stones ou o Love. Anos-luz mais profundos, climáticos...

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Eu acho que é justamente aqui que se explica o caráter imortal da música dos Doors, e porque a sua imagem – em suma, a imagem lendária de Jim Morrison – permanece, há tanto tempo, na galeria mítica do rock n’ roll. Stephen King, no sensacional ensaio que abre seu livro A Dança Macabra, diz que a arte do horror é o grande “divã” da sociedade moderna organizada. Ou seja: ali, vivendo uma experiência densa ao se assistir a um filme ou ler um livro de suspense ou terror, ou ouvindo algo como a música poderosa e sombria dos Doors daqueles primeiros anos, a humanidade parece buscar algo para refletir e explicar, a si mesma, os horrores pessoais e muito próximos que vive no seu dia-a-dia, e que guarda dentro de si na forma de experiências pessoais e íntimas muito presentes, num bizarro processo de expiação de suas próprias culpas, frustrações e traumas. O horror, o horror..., como bem dizia o insano Coronel Kurtz, de O Coração das Trevas, livro de Joseph Conrad, que por sua vez inspirou o filme Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, que, por sua vez... é imerso justamente no clima hipnótico da canção “The End”, que permeia a sua trilha sonora e é o som-chave que liga o início e o desfecho da trama. E isso não é uma mera coincidência!

Obviamente, há outros fatores que explicam e delineam o mito Jim Morrison e o seu sucesso à frente dos Doors. O próprio Morrison, em plena ascensão da banda, declarou certa vez à Newsweek: “Pense em nós como políticos eróticos.” Um desses fatores, portanto e inegavelmente, é a sexualidade: transbordante e lasciva, e que aparecia, principalmente, na interpretação do cantor de músicas mais “selvagens” em palco. É o caso do blues “Backdoor Man” – para quem já assistiu ao vídeo/DVD The Doors – Live at the Roundhouse, uma filmagem antiga e em preto-e-branco que registra o show do grupo no lendário clube de Londres, em 1968, e feita pelo canal de TV Granada, a conexão de Morrison com os grandes mitos sexuais que povoam o inconsciente coletivo da sociedade norte-americana torna-se muito clara, num lance criativo muito bem sacado pelos produtores do vídeo. As imagens do cantor interpretando “Backdoor Man” intercalam-se com cenas de ícones pop masculinos, como James Dean ou o Capitão América.

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Foi este mesmo teor sensual que, aprisionando o homem em um mito do qual ele encontraria grandes dificuldades em transpor, o fez eclodir na forma da beberrança-protesto que passou a pontuar os seus shows, e que atingiria o seu clímax final com a célebre apresentação em Miami (sobre a qual não preciso nem gastar palavras – já entrou para a mitologia pop, e todos sabem o escândalo que foi). A partir dali, o Morrison sexy e esguio, o Rei Lagarto pop que se esgueirava manhosamente nos pedestais de microfone e gingava alucinado como um pin-up masculino de todos os fetiches libidinosos e dionisíacos, sumiu abruptamente de cena, para o aparecimento de mais uma das personas públicas desenvolvidas pelo “ator” Morrison: um cara mais ameno e comum, mais real, um cantor sereno e barbudo, de voz mansa e pastosa, trajando roupas universitárias folgadas e desleixadas, e que parecia estar sempre imerso em um estado semi-etílico interminável. Ao vivo, nos shows, como qualquer um pôde e ainda pode constatar, a mudança era clara – “The Changeling”, como apregoava na faixa de abertura do último disco com os Doors, L.A. Woman. Apenas vez ou outra era acometido de um arroubo de vigor. Musicalmente, também, idos eram os tempos do som assombroso e que imprecava as trevas, agora irremediavelmente convertido aos blues, que se amoldavam melhor à voz e à disposição deste “novo” Jim Morrison. Esta era a segunda e última fase da carreira de Morrison – aquela que o acompanharia até o fim, em Paris.

Mais do que uma simples performance teatral ou um bando de embaladores dos devaneios hippies, cheios de dólares, os antigos Doors representavam, para a sociedade em que surgiram, uma proposta intrigante, sedutora, e apocalíptica – como propunham as letras de Morrison, sempre engendrando “fantasmas” do sonho americano, como serial killers, gerações perdidas nas estradas, e ianques lunáticos. Sem dúvida, algo um tanto quanto mais interessante do que os Doors que estão a rondar por aí, não?

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Sobre Denio Alves

Denio Alves, natural de Valença-RJ, é crítico, escritor, ensaísta, diletante de poesia, ouvinte e praticante, nas horas vagas, de rock e todas as demais formas de música popular ou de vanguarda que do gênero advenham. Além de técnico em computação, professor de inglês e estudante de Direito, é também pesquisador cultural e artístico das demais mídias de expressão e comunicação, já havendo atuado como colaborador de diversos fanzines na década de 90 do século passado e fundador do célebre veículo alternativo Eram os Deuses Zineastas?. Participou ativamente, em Ituiutaba-MG, onde reside, do processo de formação e criação das bandas de garagem Bloody Garden e Essence, ao lado de Edgar Franco, Gazy Andraus e demais personalidades do underground do Triângulo Mineiro, como guitarrista, vocalista e compositor. Atualmente, participa da concepção de um novo projeto de expressão do RPB – Rock Popular Brasileiro, o Mondo Cane, além de colaborar periodicamente com artigos no site WHIPLASH.

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