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Vamos admitir sem hipocrisia: não há banda nova que preste

Postado por Nacho Belgrande | Fonte: Playa Del Nacho |

O texto representa a opinião do autor e não a opinião do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Por Scott Rowley da Classic Rock Magazine.

O LED ZEPPELIN voltou. Os STONES tocam na O2 Arena. A formação original do STATUS QUO [aka ‘The Frantic Four’] sairá em turnê ano que vem. A lojas de discos estão repleta de álbuns novos do KISS e do AEROSMITH [bem, ela estariam, caso ainda existissem]. Algumas semanas atrás, JEFF LYNNE tinha DOIS álbuns no TOP 10.

Se isso tivesse ocorrido poucas semanas atrás, teríamos chamado o mês de ‘Rocktubro’, e insistido que todo mundo deixasse o cabelo crescer para fazer um mullet para se preparar para ‘Movembro’. Mas só rolou agora, coincidindo convenientemente com o [evento de premiação da revista inglesa] Classic Rock Roll of Honour, na mesma época do ano quando sempre se faz a mesma série de perguntas:

1] Não seria o caso dessas bandas antigas se aposentarem todas e deixarem que as novas se destaquem?

2] Todas essas reuniões – é só pela grana, não é?

3] Você pode me apresentar para Jimmy Page?

A resposta para todas essas perguntas é ‘não’. Bem, à exceção da 2, pra qual a resposta é CLARO QUE É PELA PORRA DA GRANA!

Considere a seguinte análise: ninguém mais ganha dinheiro com a venda de música gravada. As bandas que estavam acostumadas com a chegada de um belo e polpudo cheque de royalties todo ano de repente viram ser substituído por um cheque do Spotify e do YouTube, de cerca de uns 150 reais. Isso não paga nem pela conta do serviço de quarto delas, muito menos para manter as filhas no Jimmy Choos ou pela manutenção de uma casa na Costa Rica. “Mas elas já não são ricas o suficiente?”, eu ouço você gritar. Pelos padrões comuns, sim. Mas é igual pra todo mundo: quando sua despesa é maior que sua renda, você fica com medo. Austeridade? A maioria dos astros do rock acha que isso é nome de algum grupo holandês de prog.

Enquanto isso, sair em turnê nunca foi tão lucrativo e o apetite para ver bandas ao vivo nunca foi tão grande. Há mais festivais competindo pelos mesmos artistas e isso empurra os cachês para cima. Estórias sobre bandas que cinco anos atrás estava pedindo 750 mil reais para tocar num festival e agora pedem 2 milhões abundam. Há boatos de que quando o AC/DC tocou no Download Festival alguns anos atrás, eles receberam 9 milhões de reais. Dizem que os Rolling Stones estão fazendo 52 milhões de reais por quatro shows. 13 milhões por show. Isso é o que recebem por uma noite de trabalho.

Então será que as bandas antigas deveriam sair do caminho e deixar que as bandas novas entrassem? Hm, não. As bandas mais jovens deveriam estar chutando as mais velhas pra fora da estrada, fazendo com que elas parecessem irrelevantes, superando-as no palco e nas composições. O rock n’ roll é uma meritocracia. Nós reclamamos de Paul McCartney fechar as Olimpíadas com mais uma execução de ‘Hey Jude’, mas quem tem músicas melhores para entrar no posto? Qual banda nova tem um desses hinos instantaneamente reconhecíveis, inegáveis e capazes de unir um país dos quais todo mundo sabe a letra? Com certeza não é o caso de Dizzy Rascal, Frank Turner ou o Arctic Monkeys, com certeza.

Para colocar isso de outro modo, ninguém sugere que deixemos de ler livros antigos ou assistir filmes de outrora. Escreveram-se muitos livros desde os dias de Jane Austen, Charles Dickens e Ernest Hemingway, sem falar em Jack Kerouac, Norman Mailer e Sylvia Plath – e por acaso sugerimos que esses clássicos sejam considerados obsoletos com a chegada da mais nova trupe de escritores da moda? Por acaso ‘Butch Cassidy & The Sundance Kid’ virou uma bosta com o lançamento de ‘Os Vingadores’? Por que Billy Connolly não faz as pessoas pararem de rir? Annie Leibovitz deveria dar um tempo com aquelas fotografias? E o que rola com Frank Gehry e todas aquelas porras de edifícios? DEIXA PROS OUTROS TAMBÉM, FRANK! [Desculpa. Exaltei-me um pouco. Mas você entende do que eu falo.]

Há uma tendência a se patronizar bandas novas: “Ah, os pobrezinhos não conseguem uma chance hoje em dia”. A revista-irmã da Classic Rock, a Prog, fez sua primeira premiação no verão passado e eu estava sentado com o MARILLION, uma banda detestada quando o tema é ser ‘cool’, mas que na verdade foi pioneira do modelo ‘custeado pelos fãs’, quando os apreciadores da banda pagam adiantado por um disco [como no caso do Pledge Music/Kickstarter].

“Obviamente o Marillion foi inovador”, eu disse para o vocalista da banda, STEVE HOGARTH, “Mas ajudou o fato de vocês já terem um público que pudesse viabilizar isso. O que as bandas novas e jovens podem fazer?”

“Eu te digo o que elas podem fazer”, disse Steve. “Elas podem ser brilhantes.”

No começo desse ano eu fui convocado pela ‘polícia indie’ da estação Radio 5 para falar sobre os artistas do Festival de Wight [TOM PETTY, BRUCE SPRINGSTEEN e os iniciantes do PEARL JAM]. Eu expliquei que, ao contrário do que algumas pessoas acreditam, somos grandes apoiadores de músicas novas na Classic Rock Magazine. Mas, se eu tivesse que ser honesto, nenhuma das bandas novas que exaltamos recentemente compôs músicas no naipe de ‘Whole Lotta Love’ ou ‘The Boys Are Back In Town’. Eu não ouvi uma nova ‘Walk This Way’, ‘We Will Rock You’ ou ‘Jumping Jack Flash’, muito menos uma ‘London Calling’, uma ‘Going Underground’ ou uma ‘Sex And Drugs And Rock N’ Roll’. Nem um cheiro de ‘Smells Like Teen Spirit’ ou sinal de uma ‘Motorcycle Emptiness’.

É verdade que os tempos mudaram – em nosso mundo de vários canais, rádio DAB, YouTube, Spotify e Soundcloud, sem os [programas da TV inglesa] Top of the Pops ou uma parada Top 40 sobre a quais tenhamos noção – é mais difícil de alcançar o mesmo tipo de massa crítica que propulsionou aquelas músicas ao status de clássico… só faltam ‘AS’ músicas.

O novo editor musical da NME me pediu para elaborar sobre isso. Para ele, ‘AS’ músicas existem. Por exemplo, ele comentou sobre uma banda nova chamada Milk Maid cujas canções são isso e aquilo.

O DJ foi gentil e tocou algo deles para nós.

Foi ISSO que ouvimos:

Não digo mais nada.

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Sobre Nacho Belgrande

Nacho Belgrande, 33 anos, residente em Marilia - SP, é professor de inglês e francês, apesar de formado em Técnico de Engenharia de Estúdio pelo Recording Workshop de Los Angeles, nos EUA. Suas lembranças musicais mais remotas datam de 1983, com a fervilhante passagem do Kiss pelo Brasil e da alta popularidade do Queen no país. Fã(nático) por Mötley Crüe (de quem tem mais de 100 CDs), segue de perto também o trabalho de Slayer, Krisiun, Guns N´ Roses, Van Halen e Ozzy Osbourne, entre outros.

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