Arte & Tendências: Heavy Metal definindo conceitos

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Arte & Tendências: Heavy Metal definindo conceitos

Por Bruno Bianchim Martim e Thiago Sanchez Gaspareto

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O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

Bandas da nova era se inspiram nos músicos do passado para renovar

Abstrato, o conceito de arte é intangível; tamanhas possibilidades de compreensão, apoiando-se e encontrando diferentes respaldos em percepções e sensibilidades subjetivas que são oferecidas. Inerente a personalidade humana, a representação de sentidos e as diversas maneiras em se expressar passou a ser vitima de assédio, fadando e impossibilitando-a de ser livre. Hoje, entrelaçada a poderes, meios ou roteiros, a tendência é, em suma: suicida. A arte está morrendo.

A demanda pelas produções, seja no contexto cinematográfico, de encenação ou musical, sofreu várias e retrógradas mutações com a perpetuação do sistema capitalista. Um verdadeiro dilúvio passou e arrastou, para longe, sentidos, figurações e composições, outrora artísticas. A mercantilização, ou tribunal inquisidor da arte, a levou a ser desejada por diversos e variados conglomerados. Que tentam retê-la sob seu poder há décadas.

A expressão – na definição mais lírica possível –, portanto, não deveria ser capitaneada pelos montantes de dinheiro e poder como é; a escala comercial não sobrepõe o preceito ideário das obras de arte. Como uma emissora, ou um banco, por exemplo, compra direitos de determinados artistas a fim de veiculá-los a sua marca? Afinal, sem o mínimo apreço à suas obras, e, a partir de contratados, os detentores dos adjetivos mais célebres possíveis caem em um véu de fumaça. Limitados a exercer a explanação de sua obra artística/ intelectual, que nasce de sua própria vontade e inspiração, ao que o “patrão” encomenda.

Essa capitalização remetente à arte nos traz outros resquícios – mazelas -, como a obsolescência planejada, o fascismo consumista e o fetichismo da mercadoria. As referentes fazem uso ao mínimo valor de utilidade, mascarado com uma estética atraente e que surpreende a grande parte da sociedade. Não sendo importante, especificamente, o imprescindível – de uso -, e, sim, a aparência. A tênue relação com a publicidade, que nos atribui gostos e anseios por consumo, relacionados ao fetiche, e a obsolescência de determinados produtos também se somam a estes fatores.

Não são raras, porém, títulos, peças, obras ou musicais que não passaram por esse processo, ou que após um período: “voltam às origens” - a cena musical voltada, principalmente, ao heavy metal europeu e algumas bandas americanas. Ao contrário do que acena o pensamento estadunidense predominante – e estabilizador de novos paradigmas, fruto de um imperialismo cultural e maciço - de existir apenas rock, metal e pop (a mesma coisa para as bandas japonesas), ao contrário do que ocorre na América do Sul e Europa que valorizam os subgêneros específicos, como, por exemplo, o heavy metal e suas vertentes (thrash, death, power e speed metal). Desde a época do “vovô blues” a música explicita em guitarras elétricas onde se destilam melodias barulhentas para aqueles que estão presos nos padrões midiáticos, e melodias geniais geradas por composições, arranjos e frases complexas que satisfazem as pessoas livres e aqueles com uma audição aguçada e sedenta por obras que interajam com os mais profundos sentimentos humanos.

Desde a década de 70 as bandas que evoluíram do rock n’ roll para o famigerado e polêmico, heavy metal, chutaram o balde e padrões que foram criados a partir do modo Beatles de fazer música (claro que não queremos dizer que as músicas eram ruins e mal feitas, critica-se aqui apenas o padrão de processos), tudo de aparência politicamente correta. Músicas simples com a idéia de fazer o hit que chamasse a atenção do público e, consequentemente, vendesse mais. E como acontece com a maioria das bandas que seguem essa linha, os Beatles duraram apenas 13 anos, quem levou vantagem durante o tempo seguinte foi quem dominou os direitos autorais da banda (Paul McCartney e depois Michael Jackson), pois, as obras acabaram sofrendo uma obsolescência planejada. Músicas que ditavam a regra no século passado e ainda são lembradas e consumidas pelo público remanescente e seus sucessores que são influenciados, por exemplo, pelos pais que naquela época eram admiradores destes trabalhos.

E as outras bandas que resolveram revolucionar? O Deep Purple está na ativa desde os primórdios, o ponto crucial foi fazer música pesada para a sua época, usando e abusando de características da música clássica e renascentista fundidas ao ritmo intenso do rock modificado com a utilização das escalas menores, criando uma atmosfera única e sombria dentro da música.

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A idéia de fazer músicas frenéticas e, ao mesmo tempo, sombrias, veio de ninguém menos que o Black Sabbath, liderados pelo dinossauro imortal chamado Ozzy Osbourne, tiveram a seguinte idéia de que, “se existem livros e filmes de terror/horror então vamos fazer músicas sobre isto”, é o que diz Osbourne quando questionado sobre o surgimento do metal, afinal, o Black Sabbath inventou o heavy metal e toda fórmula de fazer música underground. Letras que contam histórias horripilantes (a música “Black Sabbath” descreve um encontro face-a-face com o próprio Lúcifer) embaladas por um fundo musical obscuro e tenso criados pelo guitarrista Tony Iommi, que mescla as escalas menores com escalas aplicadas ao jazz, estilo musical que o influencia até hoje, tornando a música do Black Sabbath uma obra artística única. Hoje, a banda chamada de Heaven & Hell, conta com os fundadores do Sabbath, Geezer Butler no baixo e Tony Iommi na guitarra. Vinnie Appice na bateria e Ronald Padavona, mais conhecido como Ronnie James Dio.

Dio, mesmo quando integrou o Sabbath, sempre consegue carregar toda intenção sentimental que a música necessita através de sua interpretação não apenas na atuação ao vivo como também ao cantar, alcançando o tom de voz perfeito. Toda essa produção artística não foi acolhida pela cultura e tanto as músicas do Black Sabbath quanto do Heaven & Hell, que não mudou muito a forma de compor dos anos 70 e 80, são apreciadas pelos velhos e jovens que simpatizam pelo estilo (e não são poucos).

Para todos verem que nem sempre ser obsoleto significa algo negativo, apenas para as coisas escravizadas pelos padrões da mídia, para as obras realmente artísticas o old school sempre vai ser referência para a inovação.

Aproveitando o assunto heavy metal, vamos comentar como exemplo padrões estéticos bandas mais atuais, Children Of Bodom, Lamb Of God e Norther, que trouxeram um jeito novo de fazer som pesado.

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Os finlandeses do Children Of Bodom com suas batidas rápidas e pesadas, lapidadas com frases, escalas, de estilo neoclássico, mas tudo fora da tendência requintada e elegante do guitarrista sueco Yingwie Malmsteen; Alexi Laiho, frontman do Bodom, liga toda técnica em sua inspiração que vem da violência gerada por ódio e raiva, retratando o lado obscuro da natureza do ser humano, refletindo em um som atípico para os ouvidos menos apurados e pesado. O estilo neoclássico predominou no Bodom até o terceiro álbum, “Follow The Reaper (2001)”. A partir daí, com o álbum “Hate Crew Deathroll (2003)”, a banda adotou uma tendência atual, que, mesmo continuando com boas músicas, as guitarras parecem denotaram um ‘sotaque’ mais americano e o estilo neoclássico ficou fora da maioria dos solos do Alexi, mas os efeitos que ele desenvolve utilizando técnicas de alavancadas acabaram ficando mais evidentes, o que deixou a sonoridade das músicas mais pesada e agressiva, com solos mais curtos as bases e arranjos acabaram bem valorizados.

Já nos Estados Unidos, o Lamb Of God é reforçado pela forte interação entre a bateria e a guitarra, construindo, em certos momentos, uma sincronia (detalhe: Chris Adler – bateria – e Will Adler – guitarra – são irmãos, já vimos isso na própria cena metal brasileira com os irmãos Max e Igor Cavalera, ex-Sepultura). Ritmo intenso, melodias densas e letras expressivas sobre religião e sociedade. O som da banda fica mais interado nessa atmosfera com a voz de Randy Blythe. Vocal rasgado, técnica gutural e muita violência, mais que isso só escutando as músicas “Walk With Me In Hell”, “Redneck” (“Sacrament – 2007”), “Laid To Rest” e “Now You’ve Got Something to Die For” (“Ashes Of The Wake” – 2004)

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Voltando à Finlândia, o Norther, banda liderada pelo guitarrista ‘shredder’ Petri Lindroos, que também atua no front da banda folk/viking Ensiferum, na ausência do gênio do metal escandinavo Jari Mäenpää, atual líder do projeto Wintersun, onde também predomina a estética neoclássica acompanhando as letras, até mesmo, sobre o rigoroso inverno boreal. No Wintersun, Mäenpää só não fica a cargo da gravação da bateria. Em relação ao Norther, outra banda que retrata a história obscura da humanidade, utilizando uma estética poética cheia de metáforas ilustradas com uma sonoridade mais densa do que as demais bandas, o Norther procura fazer um som menos frenético com solos de guitarra mais elaborados dividindo espaço com arranjos de teclado. O detalhe a destacar é o estilo gutural de Lindroos, vocalista e guitarrista da banda, presente desde a fase mais virtuosa do Norther – “Dreams Of Endless War” (2002) ao “Mirror Of Madness (2003)” – até a fase mais doom – tem início no álbum “Till Death United Us” (2006) ao “N” (2008).

Mas o que todas essas bandas de metal, que é um fruto da cultural popular, têm a ver com a arte? Pois bem expressar os mais puros sentimentos humanos como arte não se resume apenas em coisas singelas e bonitinhas. Raiva, ódio, hostilidade, a natureza selvagem humana em si muitas vezes se mostrando de forma racional, vontade própria e o íntimo desejo de se rebelar contra o que te aflige. Tudo isso é compreendido pelas letras e músicas dessas bandas, uma forma não destrutiva de demonstrar todo esse carinho pelas coisas que cada um julga ser ruim. Até mesmo o caráter revolucionário, visto na cena atual tem como referência a velha escola de fazer música underground, e, também, arriscando experimentações musicais, cruzando estilos e aplicações técnicas que aparentemente não tem relação alguma com o estilo predominante da banda, sem se deixar cegar pela mídia e enterrar toda a arte contida no “barulho” que incomoda o seu vizinho que ouve as boy bands.

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