Quando li no jornal que a lendária banda, companheira de tantas viagens, acampamentos e rodinhas de violão em que me restava fazer o thuruthuchu, Crosby, Stills e Nash, viria ao Brasil e tocaria no Rio, o siricotico nostálgico se instalou. Quem não apostou qual deles estava mais chapado em Woodstock, quem não berrou "Almost Cut My Hair" nem foi pra Marte nas "wooden ships" não viveu nos anos 70. Comprei meu ingresso posso dizer imediatamente e sabia que os Dinos estavam em boa forma desde os vídeos com David Gilmour, num festival que tenho gravado do ano passado e o relato extasiado de um amigo que os assistiu no Royal Albert Hall recentemente onde teve um flashback mofado de um troço de má procedência que tomou em 1974.

Nem dei pelota, peguei minha mulher e rumamos para um também mofado Citybank Hall onde já fui encontrando um monte de conhecidos e desconhecidos com o mesmo shape grisalho, barriga e olhos vermelhos de emoção. O mix era grande e tinha uma turma que parecia foragida da "Casa São Luiz para a Velhice" e neo-hippies de uns 17 anos que também pareciam uma foto mofada de uma memória que começa a ficar distante.
Por um destes acasos do destino sentei exatamente entre uma dupla de garotos que chafurdava no cheetos e dava uns risinhos, cada um com um vinil debaixo do braço e um casal de senhores numa água esfuziante dizimando a herança dos netos no paraguaio local. Dei um alô pras duplas e entre a verborragia do uísque e o silêncio do cheetos a coisa foi se acomodando.
Quando os caras entraram, o público foi ao delírio e confesso que marejou meu velho coração de pedra. Banda excelente e discreta. Crosby um caco humano mas com a voz intacta. Nash cantando talvez melhor do que antes e Stills esmerilhando tudo numa guitarrada nervosa enquanto num tic nervoso mascava a dentadura de lado. Quando começou a tocar "Long time Gone" eu comecei o enfartar. Os garotos só riam e o senhor ao meu lado que chorava copiosamente lágrimas de esguicho, começou a resfolegar, fungar e a molhar meu ombro. Só dizia lindo, lindo e dava mais uma embeiçada no Juanito Andarilho.
Sem saber o que fazer, resolvi curtir e posso dizer que assisti um dos melhores shows velhos de todos os tempos. As harmonias que Crosby e Nash são capazes são dignas de anjos mesmo que gauches e tortos nessa vida. Eu que não sou disso cantei com o chorão o show inteiro. O público ensandecido e entregue ululava até em afinação de guitarra. Uma apoteose.
Na verdade, esses caras pra quem não sabe já foram OS CARAS. O supergrupo dos supergrupos. Afinal de contas o Buffalo Springfield, os Hollies e os Byrds eram a nata do que havia e a grande estreia para o grande público no mega evento de Woodstock, divulgado pelo filme nos quatro cantos do mundo, os levou ao estrelato absoluto na época. Ego, drogas, drogas, ego, todo mundo sabe onde isso vai dar.
O final inesquecível com toda a plateia urrando suíte "Judy Blue Eyes" acho que não esqueço, apesar de já estar na fase de tomar remédio pra ficar normal. Cada faísca da guitarra de Stills vai ficar guardada, ninguém toca no "Eletric Ladyland" de Hendrix à toa. Podia ter vindo o Neil Young, mas estava de bom tamanho.
Pois é, espero que os moleques tenham entendido que não era o Foo Fighters tocando e que o colega do lado tenha se recomposto. Não foi coisa pra amadores e que meu Xamã e guru Xicozé se esqueça de Joelma de pirarucu e ouça mais os conselhos de seu amigo Serguei. Afinal, "It´s a long time gone, bicho!"

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