Dizem que atrás de todo arco íris tem um pote de ouro e dizem também que tem sempre um dia na sua vida que é o dia. Nem estava pensando nisso quando com grande ansiedade saí do excelente show de Allen Toussaint no NEW ORLEANS JAZZ & HERITAGE FESTIVAL para o palco onde tocaria o inventor da guitarra elétrica: o monstro sagrado JEFF BECK.
Já escrevi por aqui minha obsessão pelo homem, mas fazia exatos 11 anos da última vez que o tinha visto no palco, quando larguei meu filho de 15 dias de nascido e fui pro show no Rio. Minha mulher indignada me ridicularizou, mas eu disse o pleonasmo como se fosse uma oração beata: “Tenho que ir - Jeff Beck é Jeff Beck”. Isso virou uma piada familiar que é usada até hoje contra mim.

Caminhando para lá pude perceber que estava no contra fluxo, pois a multidão ululante e ignara caminhava solene para o set do PEARL JAM. Eu uniformizado com minha camiseta de excursão de 75 customizada ia abrindo caminho desta vez com minha mulher ao lado pra ver a fera de perto. Tinha uma boa multidão lá e quando entrei na área reservada fui abordado pelo guitarrista local Darren Murphy, que tinha conhecido num boteco da Bourbon Street choramingando e dizendo que este era o sonho de sua vida e que tinha assistido moleque um show dele com FLEETWOOD MAC em 77 em que, por problemas técnicos, ele havia abandonado o palco depois de quatro músicas: “comecei a tocar guitarra depois disso” gemeu o bom guitarrista (mais um, pensei comigo).
A platéia estava um capitulo a parte; texanos de chapelão e charuto, peruas, uns rastafaris e uma senhora de vestido florido e chapelão que perguntava se alguém tinha “some marijuana”. Meu companheiro de viagem (no sentido amplo), o oráculo de Campo Largo – Ruy Dikran soltou um "barbaridade” característico e vaticinou: "Hoje vais ser a day in our lifes”. Os roadies espalhavam flores no palco quando sobre grande estrondo adentrou a lenda acompanhado de Jason Rabello (teclados), Ronda Smith (baixo) e Narada Michael Walden (bateria) com uma matadora versão de "Stratus". O mestre está bastante envelhecido, muito magro com uma tintura de cabelo próxima do acaju nervoso e uma ropicha que deve ter saído do guarda roupa do Serguei. Vários braceletes e um anelão completavam o visu.


"People get ready" apareceu numa versão impressionante, "A day in the life" sucedeu assim como uma surpreendente “I Wanna take you higher” do seminal Sly Stone. Ronda Smith é uma coisa muito séria no baixo e estava arrasadora. Narada Michael Walden manteve o altíssimo nível habitual. A cada momento a coisa ia ficando mais absurda e quando a versão de “Over the Rainbow" apareceu se ouviam gritos, sussurros e pranto convulso geral.

No bis ele veio mostrar uma velha Les Paul onde tocou sobre base pré gravada de vozes e terminou em absoluto pandemônio visivelmente emocionado e feliz pois o enorme público estava em delírio absoluto. Narada Michael walden jogou as baquetas ali na primeira fila onde estávamos e o inacreditável aconteceu de novo. Marmanjos de todos os tamanhos pularam com desespero mas a dita cuja veio cair na mão de minha mulher que estava agora no chão pisoteada. Nem acreditei depois da palheta do Warren Haynes outra relíquia, a baqueta do grande Narada Michael Walden pra entregarmos pro nosso filho que ficou em casa. Ruy Dikran em êxtase extático tinha mirações e balbuciava algo sobre um pote de ouro over the rainbow e de como isso marcava nossas days in the life. Dizia isso com olhar de beato.
Fiquei preocupado e perguntei pra Paula se ela estava machucada, ela guardando a baqueta sorriu e me respondeu piscando: “Jeff Beck é Jeff Beck”. Ganhei o dia, O dia na vida.
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Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.
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