Certamente em uma noite de muitas estrelas um anjo torto destes que adora misturar chiclete com banana apontou seu violino decaído e disse vai ser Jorge vai ser gauche nesta vida. Que Jorge? O que traz o santo guerreiro junto com os abismos dos anjos caídos, A cultura apolínea, Européia e Germânica e os batuques da África ancestral. Falo de Jorge Mautner que acaba de lançar sua autobiografia infanto juvenil: “O filho do Holocausto-Memórias (1941-1958) onde com a mansidão de um regato escorrendo lenta a sombra de Heráclito relembra e esclarece a formação deste amálgama que torna possível uma ponte entre Heidegger e Araci de Almeida”.

Quando estreou na literatura com o mitológico "Deus da chuva da morte" em 62, que ganhou o Premio Jabuti de revelação, ano do meu nascimento, causou profundo estra- nhamento com uma escritura que era capaz de cortar feito navalha assim como ter a superficialidade do santo ridículo. Desde adolescente sou leitor e ouvinte de Mautner e posso afirmar que este é seu livro mais formalmente “normal” ao mesmo tempo em que também o mais esclarecedor dos percursos e toda a ambiência de formação deste personagem tão singular.


Com certeza uma meia dúzia deve estar perguntando: O que este mané está falando sobre tudo isso em um site onde impera o metal pesado (assim como a espada de Jorge), o barulho e o rock industrial. Pois é, mas a revolta transformadora pode ter a leveza do Tai Chi Chuan, do samba de Ismael Silva e misturar é preciso. Abrir corações, cabeças e mentes nestes tempos onde se sabe tudo sobre o parafuso, mas se esquece o sentido da máquina. Se manter à margem, periférico como uma esquiva de karatê, sem perder o senso e a leveza. Cara, muito pouca coisa na vida é novidade e tem gente que até acredita que a história se repete em ciclos.

Se te incomodar como este texto agora, tá ótimo. Boa viagem!
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Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.
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