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Por Cláudio Vigo | Em 02/07/03
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Hoje, fazendo uma hora numa loja de cds, tive uma alegria inesperada ao olhar displicentemente as prateleiras e ver ali saltando tal qual flor de cacto no deserto o último disco do Steely Dan. Já sabia que estava para sair, mas a surpresa foi grande. Entre olhar, comprar e começar a ouvir não deve ter levado mais de dez minutos. Ao escutar o primeiro groove beliscado na guitarra de Walter Becker abri um sorriso enorme, coloquei o carro em movimento e pensei: "se melhorar estraga!"

Pois não é que eu tinha tido a mesma surpresa uma semana atrás ao ouvir o último lançamento da veteraníssima Allman Brothers Band, outra obsessão de muitos anos que havia mais de uma década que não lançava nenhum material de estúdio novo e que agora vinha com um petardo faiscante digno das melhores coisas feitas ainda na fase inicial. Veio-me até aquele clima de que o tempo pode passar, mas o que é bom permanece.

Olha que não ando este otimismo todo não, muito pelo contrário, estou uma flor da obsessão, vejo tudo pelo lado negativo e o terrível pessimismo do filósofo romeno Emil Cioran anda parecendo Poliana perto dos meus papos.

Outro dia na rua do meu trabalho tinha um camelô vendendo apenas dois produtos apregoados aos berros no calçadão: veneno de rato e gilete. Fiquei estupefato, mas o que é isso? Esse homem devia estar preso por incitamento ao radicalismo contra o sem sentido da vida. Além do quê tinha um aspecto sombrio de Igor de filme de Drácula e oferecia seus produtos com um olhar de cumplicidade com o desespero alheio. Um perigo! Passei batido, já que a coisa não chega a tanto e está mais para exagero do que fim de mundo mesmo.


O que tem o Steely Dan a ver com esta lenga lenga existencialista? Tudo, pois ouvir um disco da dupla antes de qualquer coisa é um espanta baixo astral, um convite ao prazer e uma eterna dúvida se o que era perfeito pode se manter ao longo do tempo.

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Esta é a grande cobrança e questão. Ao ouvirmos um trabalho novo de Becker & Fagen, invariavelmente vamos comparar com as obras primas anteriores e é aí que mora o perigo, pois pode nos tirar a paciência para descobrir algumas pepitas ocultas no estranhamento que as novas músicas podem ocasionar. Uma levada interessante nos ancestrais Fender Rodhes de Fagen ou um solo beliscado na guitarra de Becker muitas vezes só serão percebidos lá pela terceira escutada, de preferência roncando nos fones. A cobrança pela perfeição é desesperante, quase sempre paralisa, congela no excesso de sal, vira estátua de si mesmo.

Quando saiu o disco anterior (2000) chamado "Two Against Nature", a babação foi generalizada. Nunca ganharam tantos prêmios (o Grammy inclusive) e os fãs estavam extasiados com o retorno da banda aos estúdios depois de vinte anos sem gravar nada novo. Isto pode ser conferido no excelente DVD da excursão de lançamento do trabalho. Mas conheço uma série de pessoas que odiaram o disco após uma única escutada. De tanto tempo ouvindo os velhos hits não admitiam trair suas preferências com as novidades. Mais do mesmo este era o lema.

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Qual a novidade que traz o novo "Everything must go"? Aparentemente nenhuma, muito pelo contrário, estão lá as guitarras beliscantes, as quebradas soft funk, as perguntas e respostas do coro nos refrões, os sopros bem arranjados pontuando os riffs "ganchudos" ou seja, tudo aquilo com que estamos acostumados, belas melodias etc.

Um "rodrigueano idiota da objetividade" diria: Pois então? É mais do mesmo confere? Sim e não responderia. Pois o disco cresce a cada audição e se alguma previsibilidade na forma se faz presente, ao mesmo tempo se percebe a eterna busca no polimento dos arranjos, nos vocais bem colocados e nos faíscantes solos de guitarra (marca registrada do grupo).

Um eterno perigo que sempre rondou a banda foi a identificação por ouvidos mais apressados com um padrão smooth jazz FM ideal para ilustrar propaganda de Xampu, Leite desnatado, animar festinha de advogados emergentes ou publicitários de blazer e barba de três dias.

Esta busca obsessiva do groove perfeito leva também a algumas encruzilhadas e muitas vezes parece que vamos ouvir a mesma saída para alguns impasses, mas como uma centelha, aparece a solução em uma variação ou mesmo num esparramado solo de guitarra ou sintetizador. Ou seja, o que aparentemente parece simples e banal é fruto de uma visão bem sofisticada.

Afinal tenho que responder: O disco é bom? É muito bom. Está a altura dos clássicos como "Royal Scam" ou "Pretzel Logic"? Acredito que não, mas isto não me tirou o prazer de conferir um excelente duelo de solos em "Green Book", as letras sarcásticas e cínicas, o bom gosto no uso de alguns elementos anacrônicos, a altíssima precisão na execução, fiquei satisfeito com o resultado final. Entretanto, acredito que numa perspectiva histórica este não ficará entre os grandes discos do Steely Dan.


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Já no disco dos Allman a coisa é um pouco, ou muito diferente. Os caras simplesmente depois de quase quarenta anos de atividade gravaram um de seus melhores trabalhos. Parece que a saída de Dickey Betts, que andava rasgando dinheiro, cuspindo em santo e cantando a sogra, fez um bem danado à música deles. Sem a sombra do caipira marrento (Betts), Greg Allman esqueceu que se seus cabelos não são mais o ó, a voz continua a mesma, só que curtida em trinta anos de barris de carvalho. Warren Haynes (será heresia?) não faz feio nem à memória do sempre saudoso Duanne Allman - antes que comecem a dizer "interna, interna o esclerosado!" eu desafio e recomendo: ouçam e me digam se Derek Trucks não está tocando o fino também, se o velho Hammond de Gregg não esqueceu de vez as facilidades pops e se um som que cultua o passado no formato não aponta para o futuro por sua extrema qualidade?

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O nome do disco é "Hittin' the Note" e tem tudo aquilo que havia de melhor na velha Allman Brothers Band dos anos 70. Desde o bluesão irado e rasgado ("Desdemona" e "Heart of Stone"), a linda balada country ("Old before my time") onde slides deslizantes passeiam entre a voz de mormaço de Mr Allman; guitarradas vigorosas ("Who to believe"), uma maravilhosa versão de "Maydell" (Haynes) antes gravada por John Mayall e a eterna busca de repetir a climática "In Memory of Elizabeth Read" que desta vez chegou perto na instrumental "Illness", uma peça jazzy de doze minutos onde todo mundo mostra o que sabe e Haynes emula um Duanne imemorial gemendo seu slide pra cima e para baixo, com o Hammond pontuando as quebradas.

Dezoito entre dez críticas a este disco dizem ser o melhor desde "Brothers and Sisters" gravado em 73 e por aqui não vai se contestar isso. Apesar de gostar muito do "Shades of Two worlds" de 91, não há termo de comparação. Este sim estará entre os melhores de todos os discos da Allman Brothers Band.


Eu que acompanho as duas bandas há mais de vinte anos fico feliz de ver tanto vigor onde poderiam existir apenas turnês caça-níquel. Os caras estão em forma e se o senso comum pede sempre mais do mesmo, porque não? Se esse mesmo se renova ao manter a maestria, ao invés de querer inventar a roda uma vez por ano e acabar rodando quadrado, esta turma resolveu percorrer velhas estradas sem deixar de perceber o encanto de algumas novidades que tornam tudo diferente. O duelo de slides acústicos ao som das botas em "Old friends" do disco dos Allman e a primeira entrada do coro em "The Last Mall" do Steely Dan faz esquecer de vez o vendedor de veneno e gilete. Dá uma vontade danada de desligar o celular e botar o carro pra rodar em estrada vazia. Sem rumo e com uma só certeza, se melhorar estraga!

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Sobre Cláudio Vigo

Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.

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