O início do ano está difícil. Um torpor lamacento me leva a uma imobilidade digna de chamar Dorival Caymmi de "The Flash". Nessa já vão quase três meses sem escrever nada. Até de Decano do Ócio já andaram me chamando. Na verdade ando carregando uma dúzia de pianos todo dia, chega à noite e o máximo que dá pra fazer é ver um filme ou ler um livro escutando um som. Botei uns discos de Zydeko que andaram me emprestando e vamos ao movimento antes que o sangue fique mais turvo que as águas deste Mississipi.
No meio de tudo isso alguns bálsamos do espírito andaram aliviando este imobilismo estático. Um deles foi o filme (que recomendo) chamado "Beat" do diretor Gary Walkow com a rainha do biscate que atende por Courtney Love e o pé na jaca Kiefer Sutherland que fazem o papel do casal Burroughs (William e Joan) no México quando recebem a visita de Allen Ginsberg e Lucien Carr. Daí ocorre o famoso episódio em que Bill mata a mulher numa alucinação em que resolvem brincar de Guilherme Tell. Joan coloca o copo na cabeça e acaba levando uma azeitona fatal na testa. Burroughs acabou se livrando da cana dura e se transformou em um dos maiores escritores do século passado. Este episódio está relatado em um trecho do ultracitado poema Uivo (Howl) de Ginsberg assim como milhões de outros. O filme é bem interessante, sem ser genial e surpreende com a atuação de Courtney Love até contida na boa reconstituição de época. Vale a pena alugar (já saiu em DVD) e assistir pegando gosto pra encarar os livros do homem.

Não se pode falar de ócio sem lembrar de Ruan Rulfo, escritor mexicano que era considerado um dos melhores latino americanos tendo publicado apenas dois livros (Pedro Paramo e Planalto em chamas). Os dois (fininhos) são realmente excelentes e complementam um clima onírico delirante e fantástico com a secura de um chão árido. Como se Graciliano Ramos tivesse tomado mescal ou coisa parecida. Mas o mais interessante é que depois destas publicações Rulfo passou muitos e muitos anos vivendo da fama alcançada sem conseguir produzir uma linha sequer. Isto curiosamente passou a ser um charme extra e tal qual um oráculo mudo gerou inúmeras interpretações e expectativas sobre o que estaria por trás daquele silencio. O que poderia (e deveria) ser mero bloqueio criativo passou a ser incensado como uma opção estética. Uma escassez Zen. Andei relendo Rulfo também depois de muitos anos. O que cá entre nós, não estimula muito a fecundidade.
Após todo este longo prólogo divagante e antes que uma viúva da objetividade venha me acusar de digressão vamos aos fatos se é que isto é possível depois de tanta preguiça.




No meio do nosso papo telefônico o Ugo chegou a dizer que num ato de suprema audácia e coragem o Homem (Gales) andou excursionando com Buddy Miles & Billy Cox reeditando a Band Of Gipsys. Né por nada não, mas este cara tem peito. Pois bem, os shows serão em início de junho e já me vejo sentado na primeira fila. Este não dá pra perder, não é mesmo?
Para quem tinha se programado para escrever sobre Tortoise, Eno e ambient music até que saí bastante do roteiro original, mas é que foi dando uma lezeira... Pensando bem esse papo de que o que move o mundo é o trabalho é coisa de quem quer te ver trabalhando. Uma boa parte de ócio é necessária para a gestação de grandes idéias e quem anda pra cima e pra baixo não tem tempo de prestar atenção no que vale a pena.
"Habitante de orgias sonolentas, criador de um número infinito de teorias sobre o sono. Sono que não te leva à parte alguma, só para dentro... distâncias infinitas. Num pequeno navio de todas as nações levando piratas de um outro país".
(Carl Solomon)
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Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.
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