Os supergrupos sempre foram uma instituição roqueira (das menos estáveis, é verdade); volta e meia um enjoava da cara do outro na banda e saía pra juntar com os que haviam enjoado de outro lado. Querem exemplos? Blind Faith, Emerson Lake & Palmer, Asia, Crosby Stills Nash & Young, e por aí vai. Alguns foram sublimes, outros equivocados e muitos fruto da mais pura picaretagem. Lembrei de dois, de nome pequeno e não muito conhecidos por estes dias. Um sublime (801) e outro bastante equivocado (GTR) em dois álbuns ao vivo que fizeram história.
O Roxy Music no início dos anos 70 era uma das bandas mais cult e idolatradas pela crítica. Fazendo um som que mesclava a afetação do Glam reinante e as viajações do prog rock, era um núcleo de criatividade, de onde saíram inúmeras tendências. Seus quatro primeiros discos são geniais e os dois primeiros trazem a presença de uma das figuras mais alucinadas da história do rock: Brian Eno, que fazia o design sonoro do grupo à base de muito overdub e tratamento de instrumentos. Sua saída da banda foi uma sucessão de ataques de pelanca, e as trocas de farpas pela imprensa com o líder Brian Ferry foram antológicas.


Devido a problemas com as datas na França (alguns Hell Angels arrumaram inúmeras confusões por lá e os concertos foram proibidos) resolveram não deixar a peteca cair e participaram do Festival de Reading, sendo considerados a melhor coisa que tocou por lá naquele ano. A crítica caiu aos pés da banda e saíram reviews embasbacados em todos os veículos especializados


Conheço todas estas músicas em suas versões originais e o que sempre me fascinou foi o frescor das interpretações muitas vezes superiores que as primeiras. O que todo mundo está tocando é outra conversa. O trabalho de baixo do Mac Cornick é muito, muito bom, e todos estavam tocando o fino. Como começou a coisa acabou e cada um foi pro seu lado. O 801 foi um supergrupo de um disco só que ficou na memória de todo mundo que curtia boa música na época. No ano seguinte Manzanera tentou reeditar (sem Eno) a aventura em um feitio mais pop junto com Kevin Godley e Lol Creme que haviam saído do 10CC. Ainda não escutei, mas dizem que não chega nem aos pés do anterior. Este concerto de 76 é daqueles dias em que tudo dá certo e, portanto é melhor não repetir.
Se o que não tinha muito pra dar certo como o 801 deu nisso, imaginem a expectativa que se formou quando dois dos maiores expoentes da guitarra progressiva setentista: Steve Howe (ex-Yes) e Steve Hackett (ex-Gênesis) se juntaram com a intenção de formar uma "guitar band" pra emparelhar com as guitarras gêmeas de um Allman Brothers ou um Wishbone Ash. Todo mundo ficou de boca aberta esperando o petisco, mas eis que o que parecia uma cascata de camarão não chegava nem a sardinha.

Entre as músicas do único disco original do mesmo ano estão alguns clássicos do Yes ("Roundabout") e Genesis ("I know what I like") assassinados pelo vocalista (Max Bacon), que num cabelinho 'boi lambeu' se atormenta num timbre exasperante. É claro que qualquer coisa que tenha Hackett & Howe não pode ser totalmente ruim e apesar de todo o glacê e farofa podemos reconhecer um momento de gênio aqui, outro acolá e uns solinhos inspirados, mas aí volta o cantor e a maionese desanda. É infinitamente inferior aos resultados solo de ambos posteriormente.
Mas afinal o que foi que aconteceu? Acredito que a vontade de se inserir no mercado em um momento hostil foi o problema e os egos andaram batendo. O próprio Hackett tem um trabalho pop ("Cured") que é bem interessante e passa longe desta mesmice que às vezes lembra o horror de Foreigner, Journey e Reo Speedwagon. Mantendo o clima gastronômico: as guitarras maravilhosas dos dois são uma cobertura de chocolate suíço para um bolo de padaria.
Mudando totalmente de clima e assunto, não poderia deixar de comentar:
A maré não está pra peixe. Eu tinha acabado de ler o interessante livro de memórias de um herói do abismo chamado Chet Baker, onde está relatada uma vida inteira de devoção às drogas com o previsível fim, quando leio em primeiríssima mão, em um site de notícias, sobre a morte da Cássia Eller. Fiquei abobalhado por uns bons minutos juntando um monte de cacos. Mais um cordeiro que deu mole, mais um morto sem sepultura pra virar mártir da rebeldia controlada e vender um monte de disco. Uma lástima!
Se juntarmos todos os roqueiros, jazzistas, poetas, pintores, cineastas em geral mortos em circunstâncias semelhantes, não haveria cemitério que coubesse. A trilha do excesso é o único caminho pra quem resolve se exibir à margem e tentar outros mundos. O perigo é que o ego incha e se como queria William Blake leva além, costuma cobrar um preço que a maioria não tem como pagar. Subir neste pedestal deve ser brabo, uma enorme idolatria calhorda de quem vive por procuração e clama: "Eles morreram por mim".
Tem nada não. Depois vem o filme, o disco, o DVD e especiais de TV aonde um monte de gente vai se emocionar sem risco de pagar a conta, somente o mico. Todo mundo "horrorizado" mas sabendo de cor quantos ácidos tomava Hendrix, quantos Speed Ball derrubaram Chet Baker e que Charlie Parker parecia ter mais vinte anos quando morreu. O moralismo hipócrita se delicia com os detalhes sórdidos e todos lembram de uma maluquice beleza do finado. Estrada cheia de curva é fácil de derrapar e tudo que é demais costuma matar seja uísque, cocaína ou um reles quindim.
Apesar de não ser o tipo de musica do meu dia a dia, era inegável o enorme talento de Cássia Eller. Simpatizava muito com sua pegada roqueira e quase cheguei a conhecê-la pessoalmente através de uma amiga em comum. Estava numa tremenda ascensão que agora fica interrompida - vamos aguardar os detalhes do acontecido no programa do Ratinho.
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Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.
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