Do que andei ouvindo esta semana, uma coisa me marcou profundamente: o álbum de 1980 de Joni Mitchell chamado "Shadows & Light" que reúne os concertos de sua fase mais jazzy com uma banda de colocar os cabelos em pé. Lembrei logo do disco gravado com Charlie Mingus, que tanto ouvi na época, quando a musa dentuça letrou algumas das maiores pérolas deste gênio, que estava no fim da viagem e acompanhou tudo numa cadeira de rodas. Nestes tempos bicudos e insalubres me veio à lembrança a sentença: "God must be a Boogie Man!"
Tudo começou quando meu amigo e "enfant terrible" Fernandinho Andrade me chegou com uma expressão apocalíptica e diagnosticou: "Este fim de mundo está te fazendo mal, você precisa ouvir as mulheres, você precisa ouvir as mulheres", repetiu com o olhar beatífico, como se fosse um personagem de Nelson Rodrigues. Isto dito, me entregou, quase tremendo, um bálsamo para moribundo: dois cds da Joni Mitchell, não sem antes relatar detalhes mínimos das lendárias coxas que a musa do folk jazz dos 60 possuía então. Fiquei um tanto perplexo com a performance e olhei os títulos: uma coletânea bastante abrangente (hits) e o álbum duplo ao vivo chamado "Shadows & Light". Após deixar meu amigo embebido no auge dos hormônios descritivos, onde cada caso com cada Crosby, Still, Nash & Young foi relatado com os detalhes picantes e picarescos que lhe são peculiares, ainda o ouvi na esquina enquanto me afastava: "Presta atenção na banda! Está à altura das coxas". Diante disto, parei na rua mesmo e abri o cd como se fosse a última edição da Playboy e estava lá: Pat Metheny (guitarra) Lyle Mays (teclados) Michael Brecker (sax), Jaco Pastorious (baixo) e Don Alias (bateria) - realmente uma indecência de boa esta banda...
Nunca fui um fã muito entusiasmado de folk bitter sweet, coisas como James Taylor, Carole King etc... Sempre tiveram meu respeito, mas uma certa distância do meu toca disco. Lembrava-me de Joni Mitchell cantando "Coyote" e fazendo dueto com Neil Young no filme despedida do The Band e era só até me cair na mão no início dos anos 80 o famoso disco feito em parceria com Charlie Mingus, onde Pastorius como de costume só faltava fazer chover em suas surpreendentes linhas de baixo.
Quando este disco foi gravado, Mingus estava paralisado em uma cadeira de rodas e aparece em várias gravações de diálogos entremeando seus clássicos e algumas músicas originais, além de Pastorious, Wayne Shorter e Herbie Hancock dando suporte. A versão de sua homenagem a Lester Young, "Goodbye Pork Pie Hat", ganhou uma bela letra e um solo de baixo inesquecível.

Doidão notório, era um glutão, biriteiro e alucinado de todas as drogas possíveis. Sua autobiografia chamada "Beneath the Under Dog" é de leitura obrigatória pra todo mundo que tenha ouvidos e coração abertos. Têm de tudo um pouco, exploração de mulheres (cafetinagem brava), lembranças dos amigos, opiniões importantes e sensíveis sobre musica - uma geléia geral, assim como é a vida mesmo.


Segue o que tem dentro:
Disco 1
1- Introduction
2- In France they Kiss on Main Street
3- Edith and the Kingpin
4- Coyote
5- Goodbye Pork Pie Hat
6- The Dry Cleaner from Des Moines
7- Amelia
8- Pat's solo
9- Hejira
Disco 2
1- Black Crow
2- Don's Solo
3- Dream land
4- Free Man in Paris
5- Band Introduction
6- Fury sings the Blues
7- Why do fools fall in love
8- Shadows & Light
9- God must be a boogie Man
10-Woodstock

Poetiza e pintora de talento (desenhou algumas capas famosas) Joni Mitchell em sua fase posterior não me agrada tanto. Mas este ao vivo com certeza está entre aqueles de ouvir sempre.
Parece que o meu amigo conseguiu o que queria. Esta dobradinha Mitchell e Mingus é pra acabar com qualquer fundamentalismo dogmático. Se os baixos de Charlie e Jaco se foram há algum tempo, nos deixaram o fervor de sua música marcando o tempo no compasso de seus gênios. Afinal, como já foi dito por eles e por aqui: "God must be a Boggie Man!"
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Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.
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