Os anos 60 foram pródigos em um tipo de personagem que está cada vez mais raro. Com um teclado na mão e uma orquestra inteira na cabeça, eram chamados de "supersession mans", ou seja, produziam, tocavam e muitas vezes concebiam toda a proposta musical de muita gente boa daquela época. Naquele clima de "bater o córner e correr pra cabecear" esses caras fizeram de tudo um pouco em quase sempre brilhantes carreiras solo. Existiram outros, mas vamos falar por aqui de um four de ases que é bem representativo. Com vocês: Dr.John, Leon Russell, Billy Preston e Al Kooper.

Dizer que gosto de Dr. John é pouco, me lembro ainda hoje a primeira vez que vi (ouvi) a peça, no filme despedida do The Band, o "Last Waltz", onde ele aparece e detona num pianinho biriteiro no clássico "Such a Night", simplesmente inesquecível. Daí em diante comprei uma montoeira de discos e adorei todos eles. Essa mistura de Jazz com música tradicional de New Orleans e rock'n'roll é muito estimulante. Não assisti o show do Free Jazz, mas um amigo me contou que foi ótimo e que o sujeito é estranhíssimo, cheio de patuás, caveirinhas e outros badulaques macumbeiros.
Pra quem não conhece, recomendo: "Gumbo", "Back to New Orleans" e "In a Sentimental Mood", que são meus preferidos, mas tem outros ótimos também. Se ficar com medo, é só cantar pra subir que o clima desanuvia. Salve Dr.João. Axé Baba'.

Nasceu também em 41 em Lawton Oklahoma e se criou na Goiânia de lá, Tulsa, se entupindo de Country Music até 58 quando passou a acompanhar ninguém menos que Jerry Lee Lewis, que influenciou seu piano de forma marcante pra todo sempre. Outra lenda viva dos estúdios, Phil Spector, o utilizou em várias gravações. É seu o piano de "Mr Tambourine Man" do The Byrds.
Depois disso os históricos encontros com Delaney & Bonnie, Marc Benno e as parcerias com Joe Coker (Mad Dog & Englishman), Clapton e mais uma montoeira de gente. São clássicas suas participações no "Concerto em Bangladesh" e da alucinada excursão com Joe Coker. Seu primeiro álbum solo é uma obra prima instantânea e traz standarts como "Song for You" e "Delta Lady" e as participações de Clapton, Steve Winwood e George Harrison.
Leon Russell escreveu muitos dos grandes hits dos anos 70 e foi um enorme sucesso na voz de outros interpretes: "Song For You" (Ray Charles), "This Masquarede" (George Benson, Carpenters), "Hummingbird" (B.B.King).
Ainda hoje é um enorme prazer escutar estes álbuns de Leon Russell, o que faço sempre que posso. Sua figura parecendo um urtigão hippie com cabelão e barba branca e cartola é um dos ícones da época.
Assisti o homem aqui no Rio em 88 com Edgar Winter e foi simplesmente genial. Apesar de estar estranhíssimo - não mexia um milímetro a cabeça (?) e usava uma hilária calça de tergal com uma camisa daquelas de turista havaiano, tocou e cantou muito dos seus sucessos me levando aos céus.
Não tem errada. Quer agradar num fim de noite? É só colocar um Leon Russell, de leve, que tudo acontece.

Sua pegada no piano e no hammond são inconfundíveis e sensacionais. Também tocou no histórico concerto de Bangladesh. Algumas de suas composições são clássicos da época como "You Are So Beatiful". Tocou também com os Stones, ou seja, o homem estava em todas.
Tenho alguns discos de Billy Preston que são ótimos. Tem um clima soul refrescante que permanece apesar de tanto tempo. Vale a pena dar uma conferida.

Adoro também seu trabalho solo (muito pouco conhecido por aqui, é uma dificuldade achar um disco pra comprar) com músicas brilhantes e arranjos primorosos de um dos grandes desconhecidos do rock. Seu site é muito interessante, cheio de casos e fotos da época onde sempre se fica no clima "onde está Wally (Al)?" No meio dos astros. Pra quem não conhece fica a recomendação da audição urgente.
Pois é, tirando o Dr.John que está sempre lançando novidade, este time anda meio parado e esquecido. Transbordaram criatividade nos anos 70 e agora muita gente nem sabe quem foram. Vale a pena dar uma conferida no que andou fazendo esta turma na época. Os relançamentos em cd estão aí pra facilitar a empreitada. E cá entre nós, não há quem possa com um four de ases não é mesmo?
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Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.
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