Esta semana fui surpreendido com um empréstimo de meu velho amigo Miguelito 78, que veio na forma de um pacote, contendo quatro cds de uma banda setentista, que não ouvia tinha muito tempo: "Be Bop de Luxe" é o nome da pérola rara, e seu guitarrista e líder Bill Nelson andou declarando que quando remasterizou estes discos não se reconheceu em nada e apesar de gostar deles, disse não ter mais nada a ver com essas músicas. Caramba!

Antes de mais nada vou explicar o porquê do 78 do Miguelito: peça rara, mito do underground carioca nos anos 70, meu amigo acredita piamente que o mundo acabou em 31 de dezembro de 1978 e se recusa a entrar em contato com qualquer coisa gravada depois disso. Chega a ficar nervoso e é clássica a história de sua recusa em ouvir uma gravação rara do Gentle Giant (que ele adora) apenas porque foi gravada no nada, ou seja, em janeiro de 1979. Não peçam que ele explique, se o mundo acabou vai explicar o quê?
Para ser sincero, parei de ouvir o Camel no fatídico ano de 78, quando era uma banda de enorme sucesso e o disco "Mirage" habitava nove entre 10 casas de amigos da época. Andy Latimer e seu solo em "Lady Fantasy" povoavam minhas memórias e dos outros três Dino Boys que atravessavam comigo a Ponte Rio Niterói rumo ao show. Lembrávamos que não conseguíamos lembrar nada desta época, só uns pedaços de histórias em que alguma música do Camel estivesse presente. Chicozé, Pé de Pato e Eldon Pop tinham cada um causo inesquecível, e já esquecido pra contar.
Entre inúmeras gargalhadas e outros tantos preparativos espirituais, chegamos ao local um tanto cedo demais e resolveu-se tomar um chopp hidratante. Não mais que de repente Chicozé, que havia participado de uma vaquinha que possibilitou a vinda dos senhores ingleses nestas terras quentes, foi chamado para ser entrevistado pela MTV. Apareceu uma ninfeta esplendorosa que se dirigiu ao velho rocker como se estivesse falando com um DJ de techno funk. Quando senti o clima, disse: "essa eu não perco" e o resultado foi no mínimo hilário, com o pobre colunista aqui fazendo um "papagaio de pirata" voluntário que possivelmente entrou para o memorial do ridículo da TV brasileira de todos os tempos. O sorriso forçado, acredito ter sido digno de figurante de "A Praça É Nossa". Não vi o resultado, mas ainda tenho esperança de alguém me descobrir pra platéia do "Raul Gil" ou quem sabe "dançarino do Latino". A performance foi digna disso.

Quanto ao show, se quiserem set list, informações técnicas e contexto histórico é melhor dar um pulinho na coluna de progressivo do Cláudio Fonzi aí do lado. Vocês vão encontrar tudo isso lá bem melhor do que eu poderia explicar ou esclarecer (já deu pra notar que meu negócio é confundir). Mas posso dizer que gostei bastante, inclusive das musicas novas. Mr.Latimer, fazendo a linha "maracujá de gaveta encanecido", está tocando o fino e em alguns momentos me fez lembrar o David Gilmour dos melhores tempos. Muita técnica com experiência - quer saber? Acho que está tocando melhor do que antes.
Dá uma certa melancolia imaginar que artistas deste nível tenham dificuldades em conseguir público. Se não fosse a ação de um produtor abnegado e de mais uma meia dúzia de fãs participantes, possivelmente teria sido impossível viabilizar um show como esse. Uma pena! Surpreendeu-me a quantidade de gente nova vibrando com o som dos caras. Legal isso.
O que era pra ser uma noite datada e saudosista acabou se tornando uma noite das Arábias. Com Príncipe Etíope, Inglês alucinado e quatro Dino Boys que seguiram um camelo, como se fosse uma miragem, com muita água, alto astral, boa música e gente nova que segue viagem e não acredita que o mundo acabou em 78 como quer o Miguelito.
(Fotos: cortesia Rock Progressivo Brasil)
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Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.
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