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Andy Warhol & Velvet Underground

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Por Cláudio Vigo | Em 07/11/00

Quando morreu em 1987 Andy Warhol deixou uma imensa coleção que entre quinquilharias Kitsch e genuínas obras primas de todas as épocas foi avaliada em mais de 25 milhões de Dólares. Os inventariantes que entraram em sua casa disseram que encontraram salas e salas repletas de embrulhos fechados contendo tapeçarias raras, telas impressionistas, arte indígena e muita tranqueira sem nenhum valor. Tudo embalado sem nunca ter sido aberto, da mesma maneira que havia sido arrematado em algum leilão, pelo homem da peruca prateada que fez a custa de muita auto promoção e uma dose inegável de talento, o mundo girar a seu redor por quase vinte anos.


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Andy Warhol, supremo príncipe do underground nova iorquino, colecionava pessoas da mesma maneira que estes objetos, seus projetos incluíam o uso de inúmeros personagens que eram descartados no seu devido tempo, passado o prazo de validade da proposta (os famosos quinze minutos), sem dó nem piedade. Normalmente andava com um séqüito interminável (que deixaria Caetano Veloso babando de inveja) que atendia a cada sussurro, a cada viajada desta bicha estranhíssima que usava uma inacreditável peruca prateada e se alimentava basicamente de sonho de padaria com anfetaminas.

Em 1965 um dos elementos de sua usina de conceitos, chamada muito apropriadamente de Factory, Paul Morrisey imaginou que Andy podia ganhar dinheiro não apenas com filmes underground, mas também colocando os filmes em algum tipo de contexto rock n roll e resolveram sair à cata de uma banda que pudesse ser o suporte sonoro deste projeto. Pouco depois, a cineasta Bárbara Rubin ouviu um grupo chamado Velvet Underground no Café Bizarre e levou toda a turminha pra assistir gerando o seguinte comentário do líder: “Céus, você acha que nós devemos ficar com eles?”. Mas eles tinham underground no nome, musicas que falavam sobre heroína e sadomasoquismo e eram uns tipos bem estranhos e no balanço geral foram aceitos e aprovados com louvor pela corte.

O grupo se compunha na época de Sterling Morrison na guitarra, Maureen Tucker na bateria, um musicólogo galês, discípulo do compositor de vanguarda La Monte Young chamado John Cale que tocava viola e guitarra base e o vocalista e principal compositor um tipo enfermiço e genial: Lou Reed.


Alguns dias depois apareceu na Factory uma cantora alemã belíssima, uma deusa gelada chamada simplesmente de Nico que tinha em seu currículo uma participação na Dolce Vita de Fellini, um filho com Alain Delon, um curso no Actors Studio e algumas circuladas com os Stones em Londres. Era o creme que faltava no sonho de Andy, que imediatamente imaginou a cena da loura linda e sorumbática cantando na frente daquela bandinha desleixada vestida de preto enquanto dançarinos de todos os sexos serpenteavam na frente da projeção de seus filmes e luzes estroboscópicas atormentavam o público presente. Ë lógico que Reed & Cale não concordaram com a proposta e convencer a turma foi uma parada duríssima, o que só ocorreu quando perceberam que era uma chance única de divulgar seu trabalho e após alguns acordos do tipo: “nesta e naquela música esta lambisgóia não mete o bedelho” fizeram negócio.

O primeiro show foi antológico: Com os filmes de Andy sendo projetados ao fundo, os tais dançarinos simulavam se chicotear em meio às luzes, agulhas hipodérmicas e cruzes de madeira enquanto o velvet underground dava o seu recado com seu som cru e áspero numa porra-louquice que assustou muita gente na época e pavimentou o caminho pra muita coisa que viria muito tempo depois e que foi classificado pela crítica na época como “O casamento entre Bob Dylan e o Marquês de Sade”. O horror e a estranheza que tudo isso gerou no meio hippie foi enorme e ficou famosa a troca de farpas e insultos entre Lou Reed e Frank Zappa durante uma excursão pela costa oeste em que foram bem maltratados tanto pela crítica quanto pelo público que não estavam preparados paro o conteúdo daquelas letras e para aquela sonoridade ferro no ferro sem nenhuma lubrificação.

O disco, gravado em março de 67, se chamava The Velvet Underground & Nico tinha a famosa banana de Warhol na capa e trazia clássicos instantâneos como I m Waiting for the man, Vênus in furs e Heroin e parece que foi gravado ontem tal a atualidade da proposta que foi copiada a exaustão nos anos 80 por um sem numero de bandas moderninhas que pareciam estar descobrindo a pólvora, mas nada mais faziam que emular a turminha de preto.

Após estes “quinze minutos de interesse”de Andy por eles, seguiram sozinhos adiante (sem Nico) se transformando numa das bandas mais influentes e cultuadas da história do rock.

Frente à obra e ao personagem de Andy Warhol é impossível manter indiferença, ou se ama ou se odeia (estou na categoria dos que amam) muitos não aceitam o caráter “picareta” de muitos de seus projetos, como em suas serigrafias em que mandava seus asseclas pintarem as dúzias que eram vendidas por uma grana preta para que ele pudesse comprar suas quinquilharias e seus sonhos de padaria dopados. Crítica maior ao mercado de arte e a especulação eu não conheço, é botar o dedo na ferida e deixar exposto de forma cínica o que já é cínico por definição. Esta retrospectiva que andou recentemente pelo Centro Cultural do Banco do Brasil (RJ) foi uma verdadeira aula de sensibilidade pop, saí de lá atônito, eu que já conhecia varias coisas dele espalhadas por aí ao entrar em contato com o conjunto da obra reunido num só lugar tive a dimensão do artista fantástico que era a figura.

Frasista emérito, numa suprema ironia do destino ficou prisioneiro de sua frase mais famosa. Qualquer Gugu Liberato vive citando a história do “famosos por quinze minutos”. O perigo é que sua obra se dissolva no universo Kitsch e careta que tão bem retratou. Pra ficar num autor que Andy adorava, vamos de Marquês de Sade: ”Se é impossível para a natureza a eternidade dos seres, a destruição deles torna-se uma de suas leis”.

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