Em 02/02/2004 | Criador de Ziggy Stardust discute o futuro do rock

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Criador de Ziggy Stardust discute o futuro do rock


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O CRIADOR DE "ZIGGY STARDUST" DISCUTE O FUTURO DO ROCK COM O VOCALISTA DA BANDA THE DANDY WARHOLS

David Bowie/Courtney Taylor

da "Black Book"

Você pode gostar ou não da atitude declarada de rock star de Courtney Taylor, mas não pode ignorar seu talento e seu belo visual pálido, que transformaram sua banda, The Dandy Warhols, nos queridinhos do cenário pop-rock. No Festival de Glastonbury (Inglaterra) em 2000, ele e sua banda vanguardista de Portland, inspirada no grunge, cativaram até o verdadeiro Duque Branco Magro, David Bowie -conquistando para os Dandies o cobiçado lugar de banda de apoio para a turnê "Reality" no ano passado. Sempre um camaleão, Bowie conversa com Courtney sobre suas personificações, que causaram choques culturais durante décadas, e oferece a seu jovem e ambicioso protegido sábios conselhos sobre o poder de perdurar e a importância de agradar a si mesmo.

Courtney Taylor - Acho que nunca houve um momento na história em que os artistas não tivessem de enfrentar os avanços tecnológicos da época, desde a pintura com frutas silvestres até a invenção da tinta a óleo e da tela -não importa. O que importa é manter-se aberto. Afinal, o verdadeiro campo de batalha está em você mesmo, em suas próprias limitações e sua própria capacidade de se distanciar objetivamente enquanto se movimenta emocionalmente. David e eu obviamente não somos tão estranhos e diferentes a ponto de sermos os únicos a gostar de nossa música -você sabe, somos apenas obcecados por essa coisa, essa música, e o que ela faz com as pessoas, e isso é uma coisa universal. Apenas 85 anos atrás não havia discos de sucesso -havia música em papel, e ela se espalhou como um incêndio-, por isso você sempre vai em frente, seja qual for o meio.
David Bowie - Acho que deve ter sido maravilhoso ver a própria música transcrita para rolos de piano, como Jelly Roll Morton: transferido para um rolo, depois este era reproduzido, multiplicado e enviado para todos os lugares. Eu tenho lembranças disso. Você conhece um sujeito que trabalhou dos anos 30 até os 70, chamado Harry Partch?
Taylor - Hmmm, não.
Bowie - Era um velhinho extraordinário, costumava fabricar seus instrumentos. Acho que seu sucesso foi a idéia de trabalhar com uma escala harmônica completa. Ele tinha instrumentos com nomes do tipo "florescência bucal". O meu favorito se chama "despojos de guerra".
Taylor - Sim, você poderia dizer: "Você tem uma guitarra, ou um... "despojos de guerra'?".
Bowie - E havia outro, o "menino do sopro".
Taylor - Ah, essa é boa. Eu não poderia dizer isso.
Bowie - Muitos alunos dele ainda atuam na Califórnia. Encontraram a maioria de seus instrumentos, os restauraram e fazem sessões orquestrais. Quer dizer, ele fez centenas de instrumentos -seria possível montar uma orquestra com as coisas dele. E começou como um autêntico vagabundo. Costumava viajar em trens de carga.
Taylor - Você vê os vagabundos viajando em trens de carga? Eu vejo isso como algo iminente ou inevitável, ou uma coisa da vida que faz parte do meu futuro - esse é o grande medo que me move.
Bowie - A vagabundagem?
Taylor - Aquela solidão. Você ainda a sente? Sente? Deve tê-la sentido quando era mais jovem.
Bowie - Sim, sempre pensei nisso como uma ameaça...
Taylor - ... pairando sobre sua cabeça. Ainda hoje isso me faz... não importa o que eu fizer, não importa o que eu ganhar, daqui a seis anos terei desaparecido e não terei nada, mas emocionalmente vou ficar tão destruído e devastado, porque eu realmente tinha me tornado um sucesso internacional.

A ÊNFASE SERÁ PARA OS SHOWS, A MÚSICA EM SI E A DISTRIBUIÇÃO VÃO SOFRER UMA MUDANÇA TÃO RADICAL QUE NÃO VAMOS MAIS PENSAR NELAS DO MESMO MODO

Bowie - A sua família era da classe trabalhadora?
Taylor - Meus pais eram solidamente classe-média, mas meu pai era a pessoa mais zen. Ele sabia que ter um certo período de férias, fins de semana livres e sair do trabalho às 17h todos os dias era a vida perfeita, porque ele teve pais milionários muito infelizes que perderam todo o dinheiro.
Bowie - Porque eu vejo muito isso, especialmente na classe trabalhadora britânica -eles sempre acham que nunca vão ter dinheiro suficiente.
Taylor - Eu tenho medo de coisa pior.
Bowie - Escute, voltando à questão tecnológica, a coisa mais imediata tem de ser encontrar uma maneira de evitar que as pessoas invadam seu computador e telefone, descobrir um tipo de privacidade para que as pessoas possam se comunicar livremente. Isso tem de ser descoberto, e acho que será.
Taylor - Minha única esperança é que o público é tão complexo, que existe simplesmente tanta gente, que não se consegue encontrar quem você quer. Vá em frente, tente colocar etiquetas em todo mundo...
Bowie - Qual foi sua reação durante o blecaute [em Nova York, em agosto de 2003]? Você acabou tocando em algum bar?
Taylor - Apenas me juntei com umas sete ou oito pessoas, passando a guitarra de mão em mão, tomando cerveja e fumando baseados, fazendo a festa na Rockefeller Plaza. Derrubamos uma garrafa de tequila no saguão. Eles fizeram churrasco, filé mignon por US$ 5, porque ia estragar mesmo!
Bowie - É, nós ficamos sem nada. Como moramos um pouco mais acima, não tínhamos nem água. Todos os meus instintos de sobrevivência despertaram e acordei às 6h30 da manhã seguinte e simplesmente saí correndo e fui a todas as lojas o mais rápido possível, fiz um estoque de baterias de lítio, velas, água... Eu também estava lá no blecaute de 77, e foi muito mais sério, porque houve saques, mas desta vez nada saiu errado. Acho que em 11 de setembro houve uma clara evolução.
Taylor - É incrível. Acho que você é a única pessoa que conheço que esteve nos dois, e essa noite foi uma das mais divertidas da minha vida. As pessoas estavam simplesmente bêbadas.
Bowie - Ouça, Courtney. Aquele primeiro álbum, vale a pena eu comprar? Aquele antes de "Welcome to the Monkey House"... "Come Down"?
Taylor - Você quer que eu lhe mande um, David? Black Book - Entre na Internet. Provavelmente vai conseguir de graça.
Bowie - [risos] Eu sei. Fiquei muito contente ao ver que "Reality", meu novo álbum [lançado no final do ano passado], está no Kazaa. Mas, se você o baixar, todas as faixas são "Jean Genie", repetidas cerca de sete vezes. Acho que é terrivelmente frustrante para as pessoas. Mas acho que a indústria está desmoronando. Acho que as gravadoras estão falindo. Honestamente, não acredito que elas sobrevivam muito mais que três ou quatro anos. A ênfase será para os shows, mais que qualquer coisa, e a música em si e a distribuição de música vão sofrer uma mudança tão radical que não vamos mais pensar nelas do mesmo modo.
Taylor - Essa turnê que estamos fazendo agora nos EUA esgotou imediatamente, e a programamos exatamente do tamanho da que fizemos três anos atrás. Não lançamos nenhum disco, então deveríamos ter encolhido, mas ficamos muito maiores, porque hoje existe uma distribuição infinita, de graça.
Bowie - Eu lhe digo, a indústria mudou de modo irreconhecível desde que comecei, quando a idéia de criar um espetáculo estava realmente na agenda, e a maioria das pessoas que trabalhava nas gravadoras não tinha nada a ver com números, estatísticas.
Taylor - Verdade? Puxa, cara, devia ser um sonho.
Bowie - Você podia fazer os álbuns mais loucos que quisesse e lançá-los quando quisesse. Hoje eles vendem sapatos, estritamente.
Taylor - Eu nem quero fazer discos originais. Quero fazer discos que sejam tão claros e óbvios que as pessoas apenas se emocionem, e os tratem como se fossem discos do Kenny G. Você sabe, é tão legal para essas pessoas quanto para aquelas pessoas.
Bowie - Kenny G? Não, não entendo [riem].
Taylor - Sim, Brent e eu acabamos de fazer um disco, só nós dois tocando guitarra. É tão maravilhoso que Jack White [guitarrista do White Stripes] vai chorar e... Kenny G vai chorar. Caso você não tenha notado, nos últimos dez anos o rock branco na rádio não mudou: Pearl Jam, Creed, 3 Doors Down, Green Day, Blink 182... rock de garotinho bonito. Não mudou. Acho que é a única vez na história em que se passaram dez anos sem uma mudança. 74 a 84? 64 a 74? Foi maciço.
Bowie - Certo.
Black Book - David, qual o maior risco que você já assumiu como músico?
Bowie - Bem, parecia arriscado na época, mas era quando eu mudava de estilo de modo muito drástico. Inicialmente, cada vez que eu fazia isso meu coração ficava na boca.
Taylor - Mas parece a coisa mais segura a se fazer.
Bowie - Para mim fazia mais sentido, como um artista em evolução. Eu apenas tinha de fazer isso, para não me esgotar na área em que estava. Embora fosse satisfatório, também havia uma espécie de nervosismo sobre o que eu ia fazer, até que você chega ao ponto de pensar: "Oh, isto é maravilhoso! Não me importo se as pessoas vão gostar. É simplesmente ótimo".
Taylor - É aí que quero chegar, finalmente, com "Last High", o vídeo, percebi que estava fazendo algo tão maravilhoso e importante que não dou a mínima se a Capitol vai comprar ou não. Eu simplesmente quero que eles façam, porque as pessoas precisam ver isso. E você vai gostar, porque eu passei por uma fase em que via essa coisa de história do rock, e eles falavam sobre Jim Morrison, depois Iggy, e depois "quem vai vestir as calças de couro?". Por isso, nos primeiros cinco anos dessa banda usei constantemente calças de couro e adereços de caubói...
Bowie - Gostei do novo cabelo, aliás. Vi uma foto outro dia. Agora está meio desarrumado, certo?
Taylor - De todo modo, dê uma olhada, você sabe o tipo de coisa teatral, pseudo-mental que você costumava fazer? Como o Duque Branco Magro [personagem de Bowie, "Thin White Duke"], esse tipo de coisa?
Bowie - Sei.
Taylor - Que ninguém mais faz hoje - está totalmente esquecido. Nenhum garoto tem coragem. Nenhuma banda nova está pensando desse modo.
Black Book - Você falou no Duque Branco Magro: poderíamos dizer que vocês dois foram símbolos sexuais brancos e magros.
Taylor - Durante vários anos.
Black Book - O sexo é tão parte do rock and roll - é uma coisa que vocês sentiam, ou foram pressionados?
Bowie - Eu não sinto pressão disso, não.
Taylor - Acho que você está botando banca. Ou seria eu projetando? Será que quero que você se importe tanto quanto eu com isso?
Bowie - Sou completamente indiferente. Quer dizer, é excitante trabalhar diante de uma multidão e tem um lado sexual na coisa. Mas não faz parte do que faço conscientemente quando estou trabalhando no estúdio, criando e compondo. Eu não diria que o que eu componho é assexuado, porque a própria banda dá esse tipo de fibra, de sexualidade, para as canções.
Taylor - A banda dá?
Bowie - Como deveria, musicalmente. Mas, liricamente, estou trabalhando em um nível bastante seco a maior parte do tempo. Uma parte é bem-humorada, mas em geral o tema não é muito sexual. Acho que os Dandies diferem de mim - o conteúdo lírico é muito mais sensual que o meu.
Taylor - Isso não sai do meu cérebro por um segundo. Adoro criar algo que eu ache realmente sexy. Acho que tudo que eu sempre quis foi ser quente como as mulheres de "Elle" e "Vogue", quando eu estava no colégio. Queria ser quente como aquelas mulheres de cabelo escuro e maçãs do rosto salientes.
Bowie - Parece um adolescente!
Taylor - Você pode fazer de si mesmo seu ícone favorito, mas precisa controlar cada fotógrafo, cada iluminação, tudo.
Bowie - Após um tempo você se cansa disso. Exige muita energia ser tão controlador.
Taylor - Mas eu adoro isso, porque é compensador, e tudo o que o recompensa constantemente, você gosta. É apenas a natureza humana, entende o que estou dizendo? É pavloviano.
Black Book - David, depois de passar por tantas reinvenções, você teria algum conselho para Courtney?
Bowie - Ah, não, tudo o que eu fiz foi por sorte e por impulso. Realmente, você sabe...
Taylor - ... trabalho duro.
Bowie - Devo ter tido sorte para ainda estar aqui, fazendo o que queria fazer desde o início. É realmente surpreendente. Graças a todos os deuses, aliás. E a única coisa que eu poderia dizer para alguém que está trabalhando nesse tipo de coisa é que agrade apenas a si mesmo. Faça apenas o trabalho que lhe agrada. Nunca, jamais, tente agradar o público.
Taylor - É, você nunca pode realmente saber do que os outros vão gostar.
Bowie - É impossível adivinhar, você tem de agradar o que está no seu íntimo. Se conseguir isso, estará no caminho certo.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves.

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