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'A vida é injusta. Acostume-se', ensina o sábio Marcelo Nova

Em 27/05/04 | Fonte: UOL Tablóide
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Ele já avisou as crianças: "isso é só o fim". Ele narrou o o assassinato da Joana D'Arc e o homicídio doloso da Beth. E ele comandou insultos a uma tal de Silvia, seja lá quem for ela. E lançou uma banda chamada Camisa de Vênus ainda nos anos 80, quando tudo era tabu - principalmente o sexo. Sim, o cantor baiano Marcelo Nova é destemido. Tão destemido que até concedeu uma entrevista ao editor do UOL Tablóide.

Editor do UOL Tablóide - Marcelo Nova, você é suspeito de ter cometido três crimes, a saber:
1 - assassinato de Joana D'Arc;
2 - espancamento seguido de homicídio da pobre da Beth;
3 - agressão - física e moral - à Sílvia.
Você se declara culpado ou inocente?

Marcelo Nova - Olha, eu antes negava tudo, mas agora... Pô, agora eu nem lembro direito! Faz muito tempo! (risos)

Editor do UOL Tablóide - Faz muito tempo, mas todo mundo lembra, Marcelo! Eu ouvi uma dessas músicas ontem, no rádio!

Marcelo Nova - Eu não lembro! Eu tava era bêbado! (risos)

Editor do UOL Tablóide - Camisa de Vênus foi um nome revolucionário para um grupo musical, principalmente nos anos 80. Quais foram os nomes rejeitados? DIU? Pílula?

Marcelo Nova - (risos) Na verdade, nenhum. A idéia me ocorreu na época em que já estávamos ensaiando, e a banda ainda não tinha nome. E as pessoas iam ver os ensaios e todas saiam reclamando, falando que o som era isso, aquilo, desconfortável, que era um incômodo. Eu me lembro bem dessa palavra: "incômodo". Aí eu pensei nesse nome, que caiu como uma luva, digo, como uma camisa-de-vênus para a banda! (risos)

Editor do UOL Tablóide - E como foi a história da gravadora que te pediu para mudar o nome da banda?

Marcelo Nova - Foi o seguinte... A gravadora pediu-nos para trocar o nome da banda, dizendo que nenhuma rádio ia tocar uma música de uma banda com esse nome, que a divulgação ia ficar difícil etc. E aí nós apresentamos um outro nome: Capa de Pica. E fomos gloriosamente expulsos da gravadora, a mesma que lançou, há dois anos, uma caixa com coletânea da minha carreira. O que me lembra uma frase e tanto: tudo na vida é passageiro, menos o cobrador e o motorneiro! (risos)

Editor do UOL Tablóide - Um dos seus maiores sucessos tem no refrão "ô, criança, isso é só o fim... Isso é só o fim..." Você se lembra qual era seu objetivo ao compor essa música? Provocar uma onda de suicídio entre as crianças brasileiras?

Marcelo Nova - (risos) Essa música é curiosa! Em primeiro lugar é uma boa canção... Não tinha refrão, só os versos. E eu estava em casa e chegou alguém e me pediu para tocar Rolling Stones. E eu coloquei, e começou a tocar "Gimme Shelter", que, no seu refrão, tem "wow, children...".
E, embora a letra e a música da minha canção não tivessem nada a ver com "Gimme Shelter", teve gente na imprensa me acusando de plágio, o que é um absurdo. A minha relação com a imprensa é muito interessante.

Editor do UOL Tablóide - Interessante? Por quê?

Marcelo Nova - Eu tinha vindo de uma província do Norte e, quando eu formei a banda, eu não queria fazer sucesso, ser um astro, nada. Eu queria esculhambar a cena cultural baiana, que é uma farsa completa. Depois eu descobri que o Brasil é uma grande Bahia.
As revistas especializadas em música sumiram, as críticas de shows acabaram. As bandas ficaram com um espaço muito reduzido, a não ser, é claro, pelas matérias pagas. E acabou havendo um embate entre músicos e jornalistas. E eu sempre gostei de uma boa briga, então sempre dei a cara a tapa, diferente de alguns músicos que, para não se indisporem ou simplesmente por covardia, se calaram.

Editor do UOL Tablóide - E o que mais te magoou nesta briga com os jornalistas? Você pode aproveitar este espaço no UOL Tablóide e falar mal de todo mundo!

Marcelo Nova - Mas nada me magoou! Eu me divirtia muito com a imprensa - e ainda me divirto um pouco! O que acontece é que eu sou um cara absolutamente egoísta: eu não faço música para fã, para gravadora ou para jornalista. Eu faço música para mim.

Editor do UOL Tablóide - E você nunca ficou magoado mesmo? Porque há coisas que marcam. Uma vez eu escrevi um texto em um jornal daqui de São Paulo e recebi mais de mil ameaças. Aí um dia eu respondi ao que parecia ser o "líder" dos caras, e ele me mandou um e-mail meio que pedindo desculpas. Isso não mudou nada, nem na minha carreira nem na minha vida, mas eu fiquei magoado com esse infeliz.

Marcelo Nova - Meu caro, eu vou lhe dizer uma coisa: a vida é boa, mas não é justa. Nem um pouco. Acostume-se com isso.

Editor do UOL Tablóide - Não consigo. Talvez por ser muito novo. Você já conseguiu se acostumar?

Marcelo Nova - Já! Mas veja bem: acostumar pressupõe acomodar. Acomodar: jamais! Minha raiva se mantém intacta. Toda vez que isso acontece, você tem que tentar não levar mágoa.
Pra eu ficar magoado com uma pessoa eu tenho que considerá-la muito, mas muito mesmo, para só então ficar decepcionado com ela - e, assim, ficar magoado.

Editor do UOL Tablóide - Mudando de assunto, Marcelo. Sua filha está na TV, fazendo sucesso, e falando sobre... sexo. Que educação ela teve em casa, hein?

Marcelo Nova - Olhe, eu não sei se foi a melhor educação. Eu e mãe dela nos separamos quando ela era nova, tinha 10, 12 anos, e ela foi morar comigo. Ela teve uma educação liberal, e nunca houve assunto tabu em casa. Desde cedo nós tratamos de sexo, drogas e rock 'n roll!

(Marcelo Nova e o editor do UOL Tablóide se despedem.)

Marcelo Nova - Vocês são legalzinhos, mas eu sou maravilhoso. E juízo, hein?

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