Esta matéria foi publicada em 27/03/05. Procura matérias recentes sobre Rock e Heavy Metal?
Com "No Gravity", seu primeiro disco solo, o guitarrista do Angra faz raio-X de sua carreira como músico e toca violão, teclado, piano, percussão e baixo. Só faltou a bateria.
Em seus 13 anos comandando, ao lado de Rafael Bittencourt, as guitarras do Angra - uma das mais cultuadas bandas brasileiras de heavy metal-, o paulistano Kiko Loureiro já está mais do que acostumado aos solos. Mas, em 2005, ele optou por experimentar um solo diferente: um disco-solo (com o perdão do trocadilho infame). Trata-se do recém-lançado "No Gravity" (Hellion Records), que o próprio músico chama de "auto-biografia".
"Um CD solo, principalmente no meu caso, onde já tenho um trabalho principal no qual tenho total espaço, torna-se um retrato do que sou como músico", explica ele, em entrevista concedida por e-mail para a AOL no meio da turnê internacional do Angra. "Controlei tudo sozinho, desde as composições e gravações, assim como produção e organização do projeto, arte, divulgação, edição, contratos etc... É um raio-X da minha capacidade como músico - que, nos dias de hoje, tem que ser mais que um instrumentista, tem que ter a visão ampla de criar um trabalho e conduzi-lo da primeira idéia musical até o produto estar na loja. Fiz tudo por conta própria. Afinal, quem vai acreditar na minha música se não for eu mesmo?".
"No Gravity" começou a ganhar vida no segundo semestre de 2003, quando Kiko entrou de cabeça no processo de composição de "Temple of Shadows", o novo e elogiadíssimo disco álbum do Angra. "Neste período, surgiram idéias para o 'Temple...' e mais tantas outras. Mostrei o material para o Dennis Ward (produtor) e ele me incentivou a gravar o CD solo". Então, logo depois do término das gravações do Angra, o guitarrista organizou o estúdio e o contato com Mike Terrana - baterista que já trabalhou com o grupo Rage e com os guitarristas Axel Rudi Pell e Yngwie Malmsteen. "Fui para Alemanha, ensaiei por alguns dias. A gravação do CD teve a duração de 23 dias, sendo que Mike gravou em um dia e meio todas as bateras. Depois eu fui gravando os instrumentos intercaladamente. Terminado o trabalho, era a hora exata na agenda para a finalização das vozes e mixagem do 'Temple...'".
Apesar de ser fã de guitarristas clássicos como Eddie Van Halen, Steve Vai, Pat Matheny, Jimmy Page, Joe Satriani e Jeff Beck, Loureiro é do tipo eclético, ouvindo desde música clássica até MPB. "Sempre ouvi MPB, mas hoje tenho uma gama bem maior de conhecimento dos nossos compositores. Ainda sou muito fã das harmonias e composições de Edu Lobo, Milton, Chico Buarque, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti". Era de se esperar, portanto, que em "No Gravity" o guitarrista desfilasse uma maior gama de influências. “Pau de Arara” e “Beautiful Language", por exemplo, são faixas recheadas de elementos regionais. E "Choro de Criança" é exatamente o que o nome sugere: um chorinho.
"Convivo com diversos outros músicos, fora da cena metal, com os quais aprendo outras perspectivas musicais. Destas influências, que a cada dia são mais naturais para mim, eu misturo com o rock e o heavy metal, que também já toco há tanto tempo e já esta intrinsecamente incorporado ao meu estilo. Portando esta mistura acaba sendo super natural para mim", explica ele, sem medo da reação dos fãs mais radicais do Angra ao seu trabalho-solo. "Quem gosta do Angra já deve ter visto coisas assim em faixas como 'Sprouts of Time' ou 'Mourning Star' (ambas do disco 'Temple of Shadows')".
Malmsteen, Satriani, Vai e tantos outros nomes como Robert Fripp e John Petrucci (Dream Theater) são cultuados pelos fãs tanto seus projetos paralelos quanto em profílicas uniões como o G3 (que, no ano passado, passou pelos palcos brasileiros). Mas será que existe espaço para este "culto ao guitarrista" no Brasil? Loureiro garante que sim. "Temos três revistas especializadas, inúmeras escolas de música onde a guitarra é o instrumento mais popular. Faço trabalho de workshops nas mais diversas cidades do Brasil, indo de Porto Velho à Pelotas, e sempre com bom público e galera bem interessada".
Para ele, a versatilidade é o principal tempero no trabalho dos guitarristas brazucas, em comparação com os ídolos estrangeiros. "Obviamente a parte rítmica inserida no nosso sangue é o mais evidente, mas vale lembrar que a rica harmonia de Villa Lobos, Tom Jobim e complexas melodias de Pixinguinha, Ary Barroso deixaram um legado em nós, músicos brasileiros, que deixam qualquer gringo admirado".
Para promover "No Gravity", Loureiro está rebolando para conciliar agendas. Respondendo entrevistas na cidade em que estiver (este papo por e-mail, por exemplo, veio diretamente de Taiwan) e fazendo shows em alguns meios de semana quando o Angra tiver uma folga, ele promete não deixar a peteca cair. "Foi uma experiência bem divertida a de poder gravar tudo e também um desafio", desabafa. O resultado não desagrada: há cerca de uma semana, o disco inteiramente instrumental figurava entre os dez álbuns nacionais mais vendidos do site de comércio eletrônico Submarino. Parece que os fiéis fãs do Angra também são, afinal de contas, fiéis fãs de Kiko Loureiro.
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