Barrados na galeria
Preconceito contra os 'emos': eles são proibidos em lojas do Centro
LUDMILA AZEVEDO
ludmila.azevedo@grupoestado.com.br
Sexta-feira, duas horas da tarde. Adolescentes vestindo camisetas de suas bandas favoritas começam a chegar na Galeria do Rock, no Centro de São Paulo. Eles não possuem cortes moicanos ou cabelos volumosos. A franja caída no rosto é um dos códigos de identificação dos emocores ou 'emos'. Garotos a garotas que gostam de um som levemente pesado e adoçado com letras românticas. Em pequenos grupos, namoram nos corredores, mostrando diferentes possibilidades de se relacionar. Seriam apenas os hormônios desenfreados?
O JT procurou o síndico Antônio Carlos Souza Neto para a realização desta reportagem. A resposta, por telefone, foi taxativa: "Vocês podem fazer matéria todos os dias que quiserem na Galeria do Rock, menos às sextas-feiras. Dissemos 'não' a outros jornais e equipes de televisão. Não queremos incentivar a presença dos emos por aqui". A autorização negada apenas serviu como motivação para desvendar o porquê da restrição.
"Eu não gosto da presença desses emos aqui. Eles não compram discos e atrapalham o movimento. Sem contar a mania que têm de ficar se beijando na porta das lojas", comenta uma comerciante, que pediu para não ser identificada. Outra loja chegou a pregar na vitrine o cartaz com os dizeres: "proibido estacionar emos e emas". Mas nem todos se sentem incomodados com eles. "Não tenho nada contra os emos. A Galeria sempre foi freqüentada por punks, metaleiros e até a turma do hip hop sem que houvesse qualquer tipo de censura. Muitos deles nem compravam disco. Porém, como gostam de música, quando começam a trabalhar voltam para levar alguma coisa", justifica o comerciante Luiz Calanca.
Os emocores não acreditam que serão "personas non gratas" pelo condomínio por tempo indeterminado. "Aqui não é como um shopping? Não entendo o motivo da irritação", diz Henri Baldiezo, 16 anos. "Tratar com diferença quem gosta de emocore só alimenta a violência. Eu apanhei de um skinhead outro dia, mas não foi na Galeria", denuncia Thiago da Silva, 19 anos.
Os ídolos 'Emos'
Talvez pela falta ou excesso de informação, ao classificar quem levanta a bandeira musical do movimento, a mídia nem sempre acerta, na opinião dos fãs de carteirinha.
"Eu não acho que Hateen e My Chemical Romance sejam emocore. Apareceu nas paradas, é vendido", diz Márcio da Silva, 18 anos. A preferência pelo "lado B" predomina entre os freqüentadores da Galeria, que são unânimes ao elogiar o Dance of Days, formada há 10 anos em São Paulo e com quatro discos na bagagem. "A banda não é como o For Fun, que quando apareceu era uma coisa e hoje é outra", diz Marina Fernandes, 16 anos.
As nuances sutis são percebidas às vezes apenas por quem está muito por dentro do assunto. Alguns emos estreantes se vestem com camisetas do Good Charlotte e ouvem Simple Plan. "Tem sempre os que querem se enturmar e os posers (gente com mais caras e bocas do que atitude)", ensina a garota.
O problema é que o estilo emo ganha conotação pejorativa. "Outro dia vi um cara atravessando a rua fora da faixa e um motorista gritou: 'Cuidado, seu emo'. Ele respondeu: 'Xinga minha mãe, mas não me chama de emo'. Um absurdo", diz Marina. Música deprê sempre existiu desde que o mundo é mundo e as pessoas tomam um fora. Daqui a pouco ninguém mais liga para o emocore. Aí quem sabe a mentalidade de quem se choca com estes adolescentes também evolua?
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