Para dar dinamismo a esta matéria, vamos delinear um tema básico e apresentar panoramas sob a forma de quadros distintos. A idéia aqui, em síntese, é mostrar que o Brasil vive a fase do eufemismo: tudo é como sempre foi, só que com palavras mais bonitas. A censura continua a existir e num cenário em que as nações são impelidas ao capitalismo global, vivemos uma era algo meio mercantilista, algo como no tempo de “Casagrande e Senzala”. A mentalidade dominante no Brasil é o que mais atrasa o país, sem dúvida, e o heavy metal é uma das nuances que ilustram esta figura.
Esta matéria foi publicada em 21/11/07. Procura matérias recentes sobre Rock e Heavy Metal?
Pequenos fatores que, incluindo o heavy metal, ajudam a desvendar o pensamento corrente de um país.
Para começo de conversa, não vivemos a tão propalada liberdade de imprensa. Como jornalista, bem sei que a grande mudança foi que a caneta do “não” passou do censor militar para o chefe da redação, que agora obedece a grandes grupos ou a interesses dos mais escusos. E o governo inventou formas mais brandas de fazer o que fazia: por exemplo, para quê torturar e martirizar jornalista, se ao invés disso você pode apenas ameaçá-lo financeiramente, mandar os fiscais escarafuncharem até os mínimos detalhes burocráticos da editora, ou simplesmente, comprar seu apoio através de anúncios agenciados por empresas estatais?
Quando o assunto em pauta cai para os temas mais segmentados - e aqui entram os games, o heavy metal, a cinema, a arte, a filosofia e a cultura - a censura aparece sob a forma de desestímulo, do descaso ao escárnio, pois não interessam à manutenção do status quo. No último show do Iron Maiden no Pacaembu, por exemplo, havia, segundo dados oficiais, 45 mil pessoas. Ninguém noticiou isto. Mas no TIM Festival, que ocorreu no mesmo ano, poucos dias depois, todos os portais de Internet e diários possíveis e imagináveis destacaram a presença de uma grande massa de 40 mil pessoas...
Já disse que sou jornalista e, mainardianamente falando, tenho vergonha desta classe, como de muita coisa daqui. Por exemplo, os formadores de opinião mais populares do país acham que podem desconsiderar tendências ou menosprezar o que consideram “fútil” segundo seu ponto de vista. Pois eles agem como o juiz, o júri e a sentença.
Vamos a alguns exemplos mais práticos: nos idos dos anos 80 e 90, enquanto a computação pessoal e corporativa crescia e prometia revolucionar o jeito como vivíamos (como de fato o fez), os jornalistas daqui achavam bonito relegar a segundo plano os assuntos envolvendo informática, tratando-a como uma excentricidade de nerds e jovens desocupados... O resultado? Hoje, Bill Gates é o segundo homem mais rico do mundo, ninguém faz nada sem um computador e a Índia exporta muito, mas muito mais serviços na área de informática que o Brasil...
Um pouco depois veio a febre dos games: ah, o Atari e o MegaDrive – e uma brincadeira da Sony, o Playstation. Lá fora, pessoas antenadas como o próprio Bill Gates, Ken Kutaragi da Nintendo e Akio Morita da Sony sabiam que o negócio era muito mais promissor e investiram para os anos que se seguiriam. E de fato: hoje, a indústria dos jogos eletrônicos movimenta mais grana no mundo que Hollywood com toda sua pompa e estrelas. Metal Gear Solid e o último Final Fantasy, por exemplo, foram verdadeiras produções que consumiram centenas de profissionais e cifras aproximadas de US$ 100 milhões. Mas para o formador de opinião brasileiro, isto tudo estava errado: os jogos sempre foram tratados e ainda o são como brincadeiras fúteis de jovens desocupados e pessoas vis, enquanto todo o contexto econômico é desprezado.
E para coroar, vamos falar um pouco do cenário musical. Os jornalistas brasileiros acham, porque têm uma retórica mediana e um centímetro a mais de cultura que seu público despreparado, que dominam todo e qualquer assunto e que podem sair disparando por aí contra tudo e todos, ao estilo “metralhadora giratória” sem pesar as conseqüências. Quem aí não se lembra do vovô Jabor e seu preconceito rasgado em rede nacional no incidente do show do Damageplan? Pois é, meu povo, são estes caras que dominam o meio de comunicação, completos analfabetos de marketing e que querem forçar uma opinião que ELES consideram como correta.
Assim, o heavy metal e estilos congêneres são exibidos ao público, quando o são, como estilos marginais, ligados a pessoas drogadas, fracassados ou até mesmo bandidos ou vagabundos. Eu entrei no site oficial da Noruega e me espantei em saber que, na seção de música, eles destacam suas “grandes orquestras” e, logo a seguir, “suas ótimas bandas de black metal”. E não é piada! Quando o Nightwish veio para o Brasil pela segunda vez, foi convidado de honra do então embaixador da Finlândia no Brasil, provavelmente um diplomata engomadinho que nunca ouviu nem Paranoid. Isso a despeito do Nightwish cantar em inglês e não representar a música típica de seu país.
Pergunto: o embaixador é burro? Claro que não. Ao jeito dele, está passando um recado que o mundo inteiro entendeu, exceto alguns países como o Brasil: que a indústria cultural é o motor a girar as engrenagens da economia e a pender a balança das influências mundiais, coisa que os chineses já descobriram em sua indústria de livros. AlôôÔ!? Alguém aí já ouviu falar de Walt Disney!?!?!
No Brasil, não. Prefere-se avacalhar com tudo o que os senhores da mídia não consideram bom. Nesta linha, temos o Massacration. Tá bom, Hermes e Renato são bacanas, a sátira é bem feita, mas cabe a pergunta: por que eu tenho que aceitar na esportiva este tipo de manifestação se a banda Raiumundos chegou a ser processada por uma capa de CD (Só no Forevis) ironizando o clichê das bandas de pagode. Aliás, há uma samba do Fundo de Quintal, que termina com um arrogante e prepotente “você não samba, mas tem que aplaudir!”
Ei, ei, ei! Muita calma nesta hora, eu não sou uma foca e não tenho que aplaudir nada. Respeito o samba de raiz, mas só aplaudo quem eu achar que merece. E ponto final.
Já o grupo Libera o Badaró foi chamado de fascista por causa da música “Jesus Negão” onde brinca com bandas de rap no estilo dos Racionais. A conclusão é que o humor, no Brasil, é que é seletivo!
Bill Gates, Pac Man e Iron Maiden são três símbolos da miopia de nossos formadores de opinião. É tão difícil enxergar que na diversidade a cultura prolifera e gera proventos!? Parece que sim. Caspitta, dizia vovó! Aliás, como vovó dizia: “Quem não tem colírio, usa óculos escuro. Quem não tem filé, come pão e osso duro. Quem não tem visão, bate a cara contra o muro”! Vamos bater a cara contra o muro até quando?
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