Para quem não conhece a figura, o australiano Daevid Allen foi fundador de dois dos mais importantes e influentes grupos de rock psicodélico/progressivo europeu: o Soft Machine (1966, na Inglaterra) e o Gong (1970, na França). E essa verdadeira lenda viva veio no final do ano ao Brasil para uma série de concertos sob o epíteto de “Daevid Allen & Gong Global Family”, reunindo apresentações das bandas Fabulous, University of Errors e Invisibops, todas tendo como elemento comum a participação de Allen. Essa foi a segunda visita dele ao Brasil, pois já havia vindo na época da conferência sobre o meio-ambiente Rio-92 (ou ECO-92).
Esta matéria foi publicada em 23/02/08. Procura matérias recentes sobre Rock e Heavy Metal?











O show aqui resenhado ocorreu no SESI e foi o primeiro da turnê brasileira, que incluiu ainda apresentações no Studio SP e no Festival Contato, da Universidade de São Carlos. Com ingressos a módicos R$3, o público compareceu em peso e proporcionou um bom ambiente ao espetáculo.
Pontualmente, às 20h, Daevid Allen adentrou o palco, vestindo um macacão branco todo “pichado” com frases, símbolos e referências poéticas e espirituosas à própria mitologia do “Planeta Gong”, por ele arquitetada. Cumprimentando o público em português, ele inicia sozinho o show, de maneira intimista e climática, e tocando guitarra no estilo “glissando”, sua marca registrada. Para quem não sabe, é uma técnica que consiste em deslizar uma varinha metálica (no caso, uma alavanca de guitarra) pelas cordas, gerando um efeito hipnótico de grande eficácia para um som psicodélico. A segunda música foi basicamente uma performance de Allen na guitarra e vocal, sendo que na verdade esse início de espetáculo já constituía a apresentação do duo Fabulous, embora seu parceiro Josh Pollock só fosse se juntar a ele a partir do terceiro número. Nesse momento, Pollock (vestindo o que mais parecia ser um confortável pijama) assumiu o piano e Allen passou a se restringir aos vocais nos 2 números seguintes, que incluíram vários improvisos e temas criados em cima de poesias.
Com isso, chegou a hora de trazer ao palco o baixista Michael Clare e o baterista brasileiro Fred Barley (que muitos devem conhecer da banda CompaCta Triô, entre outras), completando assim a formação do University of Errors presente nessa turnê (Barley não faz normalmente parte do grupo, sendo apenas um músico convidado para os shows no Brasil). Com Pollock se revezando entre a guitarra, o piano e até o Theremin, o repertório do show foi baseado no disco “Jet-Propelled Photographs”, do Soft Machine (o único onde ele participa como membro efetivo da banda). Mesmo assim, músicas de outros discos do mesmo grupo foram apresentadas, como "Hope for Happiness", "Why Am I So Short", "Save Yourself", "You Don’t Remember" (todas do "Soft Machine Vol. 1", 1968), e "Stoned Innocent Frankenstein", do "Bananamoon" (álbum solo de 1971). Apesar do entrosamento ainda estar ocorrendo “on the fly”, as performances foram marcantes, pois todos são músicos bastante experientes, com estrada. Fred estava inspirado e seguro como sempre; Michael, contido, mas bastante sólido, e Josh revezava-se entre a guitarra (tocada em um volume altíssimo, na posição de canhoto, mas com as cordas como numa guitarra de destro) e o piano, com um estilo um tanto quanto “alucinado”, para se dizer o mínimo. No centro das atenções, é claro, estava Daevid.
Com o encerramento do show do University of Errors, teve fim a primeira parte do concerto, seguindo-se um breve intervalo. A segunda parte iniciou-se ainda com as cortinas fechadas, que ao serem abertas mostraram o grupo Invisibops (Invisible Opera Company of Brazil), anunciado como sendo uma “banda multicultural representando o espírito do Gong”. Contando, logicamente, com Allen, mais Pollock e Barley, e ainda Fabio Golfetti na guitarra (e glissando), Gabriel Costa no baixo (ambos do Violeta de Outono), e ainda Marcelo Ringel (da The Central Scrutinizer Band, tradicional banda cover do Frank Zappa) nos saxofones e flauta, o repertório se baseou obviamente no legado do Gong, com ênfase na era “Camembert Electrique” (1971). Foi quando a platéia reconheceu mais imediatamente as músicas e proporcionou uma resposta mais intensa, deixando Daevid cada vez mais animado, com uma expressão que misturava o cansaço físico (a noite estava bem quente) à excitação. Entre as músicas, "You Can't Kill Me", "Fohat Digs Holes In Space" e "Tropical Fish/Selene". Da célebre trilogia temática “Radio Gnome”, que inclui os discos “Flying Teapot” (1973), “Angel’s Egg” (1973) e “You” (1974), tocaram "Radio Gnome Invisible", "Flute Salad", "Oily Way", "Outer Temple", "Inner Temple” e "Master Builder". As partes vocais originalmente feitas pela Gilli Smyth foram emuladas por Pollock, que utilizou um megafone para compensar a estranheza do uso de uma voz masculina, com efeito apenas parcial. O bis apresentou "Dynamite/I Am Your Animal", também do “Camembert Electrique”, fechando a apresentação de forma energética, com o público totalmente satisfeito e realizado.
Para os privilegiados que puderam comparecer a algum dos shows, foram momentos históricos. Uma pena que a turnê tenha se restringido apenas à Grande São Paulo, mas há de se entender que as dificuldades logísticas e financeiras tornam uma gama mais extensa de apresentações algo um tanto quanto tortuoso para os organizadores – sem falar no grande desgaste para Daevid, que, prestes a completar os 70 anos, já não é mais o mesmo jovem beatnik que circulava com desenvoltura pela Europa nos gloriosos anos 60 e 70... De qualquer maneira, se o corpo já não mais agüenta o pique, a cabeça permanece lúcida (até onde é possível para alguém como Allen). Finalizamos com um detalhe curioso: o baixista Gabriel Costa nos confidenciou que, durante uma sessão de fotos promocionais da turnê, Allen teria sugerido que todos tirassem a roupa por completo. Ninguém topou, mas a situação inusitada mostrou que o “velhinho” continua irretocável...
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