Blaze Bayley: um relato apaixonado e trágico do vocalista

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Blaze Bayley: um relato apaixonado e trágico do vocalista

Traduzido por Ligia Fonseca | Fonte: Blabbermouth

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Matéria publicada em 16/10/08. Quer matérias recentes sobre Rock e Heavy Metal?

O vocalista britânico de heavy metal Blaze Bayley (IRON MAIDEN, WOLFSBANE), cuja esposa, Debbie Hartland, faleceu no mês passado depois de sofrer um derrame cerebral quando estava internada no hospital, deu a seguinte declaração:

"Obrigado a todos pelo apoio durante este momento tão difícil.

Algumas semanas antes de Debbie ter seu primeiro derrame cerebral, conversamos sobre o que faríamos se alguma coisa acontecesse com o outro parceiro. Não sei bem por que o assunto surgiu, talvez tenha algo a ver com a perda do sobrinho dela, que se envolvera em um acidente de trânsito fatal semanas antes.

'O que faço se alguma coisa acontecer com você?', ela perguntou. Eu tinha esquecido de tomar alguns remédios para a pressão, receitados por meu médico, e ela ficou brava comigo. De forma argumentadora, eu disse 'E o que eu faço se alguma coisa acontecer com você?' Consigo lembrar dela muito claramente, parando o que estava fazendo, olhando pra mim e dizendo 'O que você faria se alguma coisa acontecesse comigo?'

'Nada', eu disse. 'Eu desistiria. Não há razão para viver se você não estiver comigo.' Ela olhou para mim e sorriu, da forma como fazia quando sabia que, quando eu dizia que a amava, era pra valer.

'Não', ela disse. 'Quero que você continue com sua música.'

Poucas semanas depois dessa conversa, Debbie estava em coma.

O médico nos disse que esse derrame cerebral pode ter sido causado por uma malformação arteriovenosa (MAV), algo que nós da família nunca tínhamos ouvido falar antes. É uma anormalidade congênita no cérebro que pode nunca te fazer mal ou pode acabar contigo.

Lembrei daquela conversa rápida e casual que tivemos quando tive de tomar a decisão de sair para fazer os shows que Debbie tinha agendado para mim e a banda. Só conseguia pensar que ela tinha falado sério quando disse 'Quero que você continue.' Foi muito difícil ficar longe dela enquanto estava tão doente. A primeira vez foi no dia seguinte ao ocorrido. Debbie foi levada ao hospital em 6 de julho, um domingo. Na noite anterior, estávamos todos no Twickenham com o IRON MAIDEN. O show foi ótimo. O backstage tinha comida e bebida de graça. Encontrei muitas pessoas que não via há anos e Debbie fez muitos amigos e contatos. Falamos a todos que o álbum sairia na segunda-feira. Quando segunda chegou, o mundo tinha mudado. Debbie estava em coma na UTI neurológica do hospital em Birmingham.

Debbie tinha organizado uma sessão de autógrafos para a banda no HMV em Birmingham às 5 da tarde. Neste momento, apenas familiares próximos e a banda sabiam da situação. O hospital ficava a 15 minutos do local da sessão. Debbie estava em estado crítico, mas estável. Decidi tentar ir à sessão e voltar o quanto antes.

Essa foi uma das coisas mais difíceis que tive que fazer.

A próxima coisa que ela tinha planejado era uma viagem promocional à Itália. Até o último minuto pensei em ir, mas na noite anterior não tive escolha a não ser cancelar, porque Debbie tinha que passar por uma cirurgia no cérebro e havia risco de ela não sobreviver. Contei a Fulvio, meu amigo de muitos anos e empresário da banda CLAIRVOYANTS, que tinha organizado a viagem, sobre a situação. Enquanto esperávamos Debbie sair da cirurgia e, depois, da anestesia, eu e todos da família ficamos acampados no hospital e estávamos nervosos. Às vezes, eu saía para checar mensagens de texto e atualizar o resto da família sobre a situação de Debbie. No domingo à tarde chegou uma mensagem de texto de Fulvio na Itália: festival cancelado por causa de uma terrível tempestade de trovões. Pensei: aquela viagem que Debbie e eu queríamos tanto fazer não ia acontecer nunca.

Debbie passou por mais duas cirurgias no cérebro e uma no estômago para um tubo de alimentação especial chamado 'peg', mas nenhuma delas coincidiu com nenhum show que ela tinha marcado para nós. Então, saí do lado dela por poucos dias para fazer os shows que ela tinha planejado. Quando eles acabavam, consegui passar a maior parte do tempo com ela no hospital entre visitas de parentes e amigos. Os caras da banda continuaram a fazer as coisas e prosseguiram com o que havia sido planejado pela Debbie para a turnê em 2009.

Cerca de uma semana depois da última cirurgia no cérebro, a condição de Debbie parecia estar melhorando de forma lenta, mas significativa. Os períodos de coma profundo sem resposta pareciam um pouco menores e nas vezes em que ela parecia mais acordada, parecia mais desperta do que quando o primeiro derrame aconteceu. Houve momentos, segundos de consciência, mas eu sabia, podia ver que ela estava tentando lutar para voltar para o mundo e para mim. O fisioterapeuta e os terapeutas ocupacionais me mostraram todos os exercícios que Debbie tinha de fazer para ter a melhor chance de manter o movimento e a mobilidade nos membros e articulações para que, à medida que melhorasse, ela teria mais movimentos e menos trabalho na fisioterapia. Fiz os exercícios com ela todos os dias em que fiquei no hospital. Imaginei-a voltando para casa, pensei em mudar a casa para facilitar a circulação e pensei na turnê no ano que vem, esperando que ela estivesse suficientemente bem para ir conosco no ônibus, e podíamos fazer os exercícios e a terapia entre os shows. Senti que se alguém pudesse voltar disso, era a Debbie. Senti, acreditei que ela estava voltando para mim. Os dias pareciam mais esperançosos.

Para mim, cada dia em que ela estava viva era um dia em que eu era abençoado. Todos os dias em que ela tinha melhoras mínimas eu comemorava. Chorei lágrimas de alegria muitas vezes durante os exercícios. Ela não conseguia falar ou abrir os olhos, e muitos dos movimentos que fazia eram instintivos ou involuntários, mas também houve vezes em que os movimentos eram uma resposta direta a um pedido. 'Mexa os dedos dos pés, Deb', eu perguntava e ela conseguia mexer os dedos do pé direito. 'Aperte minha mão', e ela conseguia apertar com a mão direita. 'Abra a mão', ela conseguia. 'Feche a mão', e ela conseguia. 'Balance a cabeça', e o minúsculo movimento da cabeça me fazia chorar. Ela tinha dificuldade no lado esquerdo porque ele parecia ter sido o mais afetado. O fisioterapeuta chamou de lado fraco. Enquanto continuávamos todos os dias para trabalhar no movimento, ela até conseguiu fazer um movimento muito pequeno com o pé esquerdo.

Era praticamente nada, mas estava lá, e isso me fez derramar lágrimas de orgulho e felicidade. Neste ponto, fiquei com ela todas as noites, em uma cadeira ao lado da cama, observando para ver se ela não se machucava quando se mexia na cama. Seu pé direito parecia buscar coisas que ela podia sentir com os dedos. Com a mão direita ela às vezes tentava tirar o tubo da traqueostomia. Outras vezes, ela tossia e engasgava e a enfermeira vinha cuidar dela. Essas noites foram dolorosas e bonitas para mim. Embora em circunstâncias terríveis, passei cada noite com minha mulher. Por volta do meio-dia, a mãe, o pai ou a irmã da Deb ia ficar com ela e eu ia para casa. Chequei meu e-mail e todos os dias havia mensagens de apoio de fãs do mundo inteiro. Conversava sobre negócios da banda com Nick e Dave e, depois, tentava descansar um pouco para passar a noite com Debbie.

Quando tudo parecia realmente estar melhorando, Debbie sofreu um segundo derrame forte. Ela fez exames no cérebro e foi levada para a UTI. Depois disso, achamos, ela sofreu outra hemorragia pequena. Apesar da realidade, recusei a acreditar que não havia esperança de recuperação. Só que quando a realidade é um médico excelente, que explicava detalhadamente a verdadeira magnitude da condição da Debbie, e você está no consultório com as pessoas com quem dividiu a esperança, lágrimas e o desespero daqueles dias, olhando umas para as outras sem precisar dizer nada, não é mais um caso de lutar para manter a esperança viva, não deixar que o último fio de esperança seja cortado. Só que enquanto aquela voz suave e confiante diz as palavras que descrevem a condição do cérebro da pessoa que você ama, a esperança acaba. Ela derrete. É algo tão precioso, mas sem valor mundano, e é substituída de forma silenciosa e cruel por um sentimento fatalista desesperado que entra na alma, agora que não há mais esperança.

Debbie lutou por mais duas noites. Na manhã de 27 de setembro, às 10:05, ela morreu com sua mãe e eu a abraçando e confortando enquanto ela começava sua viagem para a outra vida, além deste mundo de dor e sofrimento. Neste momento, meu coração partiu.

Eu vivia só por ela, porque ela disse semanas antes que queria que eu continuasse. Então, decidi tentar participar do Metieval Festival em Beverley, perto de Hull. Fiquei doente depois da morte de Debbie e o médico me deu o que podia para tentar ajudar a manter minha voz e manter sob controle o resfriado, infecção no peito ou vírus que estava me abatendo. O show foi muito difícil e duvidei que minha voz duraria até o fim. A última música da lista foi a música de Debbie, 'While You Were Gone'. De alguma forma o som no palco tinha melhorado e minha voz ainda tinha um pouco de força, e consegui cantá-la para ela. Foi a primeira vez que a tocamos ao vivo e não tê-la ali para escutar foi, de novo, muito difícil.

O funeral foi na terça, o maior que a minúscula igrejinha tinha visto nos últimos anos. Os organizadores do funeral não tinham visto tantas flores para mais ninguém. Todos que ela tinha conhecido ainda pareciam estar ligados a ela. Se tivessem sido amigos, mesmo que por pouco tempo, eles ainda pareciam sentir uma ligação anos depois.

Na sexta-feira houve um velório pequeno e privado. As cinzas de Debbie foram colocadas em um local particular onde nós que a amávamos podemos visitar.

Agradeço seu apoio, amizade e lealdade neste momento. Acredito que nossa natureza é revelada nos piores momentos. Minha banda têm apoiado a Debbie e a mim constantemente. Meus fãs me fizeram ficar humilde com sua generosidade de espírito, fidelidade e compreensão. Perdi o amor da minha vida, perdi minha razão de viver. Mas, porque ela me pediu para continuar vivendo e para continuar no caminho que ela trabalhou tanto para que eu andasse, continuarei. Por ela e por vocês, todos vocês que acreditaram que ela estava certa em ter fé em mim, continuarei. Por sua memória e para honrá-la, continuarei".

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Sobre Ligia Fonseca

Tradutora, formada em Jornalismo pela PUC-SP, resolveu mudar de carreira quando percebeu que gostava mais de traduzir do que de escrever textos. Descobriu o rock aos 5 anos, ao assistir o clipe de “I Love it Loud” do Kiss.

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