Em 24/11/2008 | Guns N' Roses: "Chinese Democracy" é o final de uma era

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Guns N' Roses: "Chinese Democracy" é o final de uma era

Fonte: NY Times

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"Tudo que tenho sobrando é tempo", canta W. Axl Rose na faixa-título do novo álbum do GUNS N' ROSES, e agora ele deve estar sabendo de fato o que as pessoas pensam deste verso.

Matéria publicada em 24/11/08. Quer matérias recentes sobre Rock e Heavy Metal?

O texto original em inglês do artigo abaixo, de autoria de Jon Pareles, foi publicado no NY Times:

Rose, 46 anos de idade, único integrante que sobrou da formação original do GUNS N'ROSES, precisou de 17 anos, mais de 13 milhões de dólares (valores divulgados em 2005) e de um batalhão de músicos, produtores e assessores para realizar “Chinese Democracy”, o primeiro álbum de inéditas do GUNS N'ROSES desde 1991, que está sendo lançado e, nos Estados Unidos, será vendido exclusivamente pela cadeia de lojas “Best Buy” (em outra atitude típica do novo milênio, a melhor canção do álbum, “Shackler’s Revenge”, surgiu primeiro em um video-game, “Rock Band 2”).

“Chinese Democracy” é o Titanic dos álbuns de rock: o navio, não o filme, embora tal qual o filme, se trate de uma produção monumental de estúdio. É descomunal, grandioso, obsessivo, tecnologicamente avançado, e claramente representa o final de uma era. E assim como o navio, naufraga pelo excesso de pretensão e pela produção excessiva. Em suas catorze faixas há vislumbres de ferocidade e desespero que soam sinceros, assim como momentos de notável talento musical. Mas eles ficam submersos sob incontáveis camadas de firulas de estúdio e por um tom de falsa autopiedade. O álbum finaliza com uma sucessão de cinco fortes baladas enfileiradas.

“Chinese Democracy” soa como o último e ruidoso suspiro do reino dos popstars auto-indulgentes: o tipo de músico cujo sucesso inicial estrondoso lhe garantia grandes platéias, pagamentos generosos, ambições desmesuradas e prazos perigosamente flexíveis. A atualmente enxuta e vulnerável indústria fonográfica está longe de nutrir perfeccionistas erráticos deste quilate (Rose ao menos foi mais rápido do que Kevin Shields, do MY BLOODY VALENTINE, que voltou a excursionar neste ano mas ainda não conseguiu lançar um sucessor do seu grande sucesso, o álbum “Loveless”, de 1991). O novo paradigma do rock, um retorno aos anos 50 e começo dos anos 60, é gravar rapidamente, o mais barato possível e com mais freqüência, e posteriormente sair em turnê antes que a nova sensação recém-descoberta no YouTube distraia a atenção dos potenciais fãs.

“Chinese Democracy” é um evento tão antigo que a esta altura nenhum álbum poderia saciar tamanha expectativa ou satisfazer o fascínio acumulado nestes anos. Nas últimas duas décadas, o álbum de estréia do GUNS N' ROSES, “Appetite for Destruction”, de 1987, vendeu cerca de dezoito milhões de cópias somente nos Estados Unidos. A banda original, especialmente a dupla formada por Slash na guitarra solo e Izzy Stradlin na base, colaborou para forjar uma combinação de Glam, Punk e Metal como base para a voz feroz e abrasiva de Rose, que podia oscilar de um grunhido no tom de um barítono a um grito agudo e agressivo. Cantando sobre sexo, drogas, bebidas e estrelato, Rose criou uma história de sucesso nos anos oitenta, saindo da pobreza e chegando à MTV: disse ter sido vítima de abuso quando criança, nascido no coração dos Estados Unidos, descrevendo a si mesmo como alguém que saiu de Indiana e se reinventou como um dos maiores astros do rock em Hollywood, carismático e volátil, e sempre se dizendo incontrolável.

Em meio a turnês, problemas dos integrantes com drogas e envolvimentos com modelos, o GUNS N'ROSES lançou um EP e depois os extremamente bem-sucedidos dois volumes do “Use Your Illusion”, que foram seguidos por uma coleção desleixada de releituras Punk, “The Spaghetti Incident?”, de 1993, antes que a banda se dissolvesse, restando apenas Rose como proprietário da marca GUNS N'ROSES. Era evidente que a nova banda seria muito diferente, mas havia pouca dúvida que Rose ainda tinha muito a dizer. Ele vem anunciando a iminente finalização do “Chinese Democracy” desde pelo menos 1999, e vêm cantando ao vivo boa parte das canções do álbum desde 2001. Gravações piratas ao vivo e versões inacabadas de estúdio circulam online e estragaram parte da surpresa quanto ao disco finalizado. Entretanto, Rose continuou trabalhando, regravando e alterando as canções. A lista de créditos do disco enumera catorze estúdios.

Durante anos Rose vem sendo taxado como uma espécie de Howard Hughes do rock, coisa que seu agente de 1991 já dizia. Mas isso não é necessariamente algo tão ruim; isolamento e obsessão deram origem à grandes canções. Entretanto, embora “Chinese Democracy” seja um notável produto da indústria do excesso, o resultado deixa a desejar. A versão de Rose para o grupo, composta de integrantes que ele pode contratar e demitir e não por verdadeiros parceiros, impede que seus piores impulsos possam ser atenuados.

O GUNS N'ROSES continua a ser fruto de várias colaborações; as faixas do “Chinese Democracy” são creditadas a Rose e aos músicos que passaram pela banda desde meados dos anos noventa. Os guitarristas Buckethead e Robin Finck, o baixista Tommy Stinson e os bateristas Josh Freese e Brain guiam Rose ao caminho do rock, e facilitam seu trabalho nas baladas. Se comparadas com as do antigo GUNS N'ROSES, as composições atuais são mais próximas da pompa de “November Rain” do que da força rítmica de “Welcome to the Jungle” ou das inovadoras linhas de guitarra de “Sweet Child O' Mine”. A única canção de “Chinese Democracy” composta apenas por Axl, “This Is My Love”, é de longe a faixa mais sentimental do disco, e ele presta homenagem, com seu vocal em vibrato, a Freddie Mercury, do QUEEN.

Assim como nos discos antigos do GUNS N' ROSES, “Chinese Democracy” se alterna entre arrogância e dor, gemidos e desdéns. Hoje em dia Rose se apresenta como alguém cercado por cada lado, encurralado e sem nada a perder. Ele é atormentado pelos demônios interiores e, por fora, pelos antagonistas, amantes e pessoas que frequentemente o traem e o exploram. "Perdoe-os por rasgar minha alma", ele canta em "Madagascar", enquanto trompas tocam uma nota fúnebre (o meio da canção inexplicavelmente traz uma colagem extraída de filmes e diálogos do Reverendo Dr. Martin Luther King Jr.).

Todo o trabalho de Rose e as várias formações, tanto os inspirados quanto os descomedidos, transparece na obra finalizada. Rose e o co-produtor, Caram Costanzo, ao que indica apenas empilharam os sons uns nos outros. Instrumentos de Corda? Acordes no piano de brinquedo? Vozes que murmuram em idiomas estrangeiros? Harpa? Baterias eletrônicas? Corais? "Eu tenho um sonho"? Está tudo aí, junto com intermináveis toques de bateria e milhares de notas de guitarras.

“Chinese Democracy” revela múltiplas camadas arqueológicas sonoras, incluindo o que era fascinante na década de noventa e no início dos milênio: o METALLICA de “Enter Sandman” na arrogante e indulgente "Sorry"; os efeitos de distorção do NINE INCH NAILS em “Shackler’s Revenge”; guitarras em sustenido e batida marcial estilo U2 no início de “Prostitute”; uma combinação do piano de Elton John com arranjos de cordas (cortesia de Paul Buckmaster, que trabalha com Elton há muitos anos) junto com guitarras estilo SMASHING PUMPKINS em “Street of Dreams”.

Alguns dos melhores momentos do álbum estão nas introduções. Ostentando o que tempo e dinheiro podem trazer, há passagens que cativam os ouvidos tal como um coro a capella em "Scraped", uma sirene mesclada com a voz de Rose na canção “Chinese Democracy” e a versão compacta da banda do início de "Better". Esta canção conduz o ouvinte ao que o GUNS N' ROSES faz bem - oscilando entre riffs ganchudos de Hard Rock e levadas Reggae mescladas com Metal e melodias do Rock de Arena - de maneira que quase compensa a levada preguiçosa da canção. “If the World” abre com uma parte acústica sugerindo que a levada será algo oriental, mas acaba descambando para o ritmo ditado pelo wah-wah e pelo arranjo de cordas que sugere a trilha sonora para um filme blaxploitation [nota do tradutor/editor: não ficou claro, mas possivelmente o autor se refere às canções de Soul Music típicas deste tipo de filme], enquanto Axl solta algo como um falseto vindo diretamente da alma.

Parece insano? As vezes. Rose se importa com isto? Aparentemente não. "Estou louco!" ele exclama sobre a guitarra frenética e os tom-tons proeminentes de “Riad N’ the Bedouins”, enquanto em “Shackler’s Revenge” ele encarna um maníaco-depressivo em potencial. Em “Scraped” ele alterna depressão e toques maníacos, avisando “não tente nos deter agora” sobre um riff que se encaixaria no LED ZEPPELIN. “Catcher In The Rye” evoca THE BEATLES em sua melodia, ao mesmo tempo em que alude a Mark David Chapman, que assassinou John Lennon: “Se eu soubesse que estava louco/ bem, acho que me divertiria mais”, ele canta.

Mesmo quando está presumivelmente representando a si mesmo, Rose segue produzido além da conta. Ele exibe sua voz repleta de overdubs de todas as maneiras - ora soa ríspido, soluçado, agudo, gritado — enquanto Finck, Buckethead e Bumblefoot tocam frenéticos solos de guitarra, a ordem é voar alto e zumbir rápido.

O que chama atenção no “Chinese Democracy” não é mais a selvageria e esbravejada arrogância que o jovem Axl e seus barulhentos colegas de banda nos anos oitenta incutiram no GUNS N' ROSES, mas sim a atenção desmesurada a todo e qualquer detalhe passível de ser averiguado nesta era de Pro-Tools: a infinitude de pequenos ruídos que surgem a cada instante, a possibilidade de recriar cada som e reconfigurar cada detalhe, a chance de testar cada solo de guitarra criada para uma canção - ou talvez todos os solos ao mesmo tempo - e no fim mesclá-los num arranjo de cordas para deixar na medida correta.

Este microscópico detalhamento é óbvio em todo o “Chinese Democracy”; cada nota parece ter sido afiada, lustrada e apontada - e finalmente inserida numa canção que já está repleta de outros virtuosismos instrumentais. Há momentos em que tudo parece fora de controle, tal como o fim de “Catcher In The Rye”, que cai como uma luva para o título de uma canção do MEAT LOAF: “Everything Louder Than Everything Else” ("Tudo é mais alto que o resto").

Seria fácil imaginar Axl determinado a eternizar sua juventude e sua antiga banda, mas com menos perspectivas e centenas de novas músicas conforme os anos fossem passando. Se o GUNS N' ROSES tivesse lançado “Chinese Democracy” em 2000, este seria considerado um grande evento, mas também seria tratado como um momento de transição da contínua carreira da banda. Segurando este disco até agora e mexendo tanto nele, Rose pressionou a si mesmo a criar algo épico - ainda mais considerando que o próximo álbum do GUNS N' ROSES não chegará ao mercado antes de 2025. E os fãs estavam esperando que ele desafiasse o mundo novamente, não que fizesse algum truque digital. Algo se perdeu durante os anos de trabalho, virtuosismos e extravagâncias entraram no lugar das emoções.

Enquanto Rose se lastima sobre o amor perdido ou promete que enfrentará a vida como tiver de ser, sem aceitar compromissos, a música de “Chinese Democracy” flui ruidosamente ao seu redor, frenética e quase sem deixar espaço para respirar. É difícil concebê-lo como o autor, considerando a maneira em que as canções parecem propor o que seria um anti-herói lutando sozinho contra o mundo, já que ele parece estar dividindo a trincheira com um elenco composto por milhares de colaboradores.

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