Adaptação cinematográfica de uma bem-sucedida peça da Broadway, Rock of Ages: O Filme chega às telonas encarando de frente três obstáculos potenciais. O primeiro deles, obviamente, são os fãs de cinema que não suportam musicais – e, acredite, eles são uma parcela bem considerável dentre os amantes da Sétima Arte. O segundo é o fato de que a ambientação da película, que se passa na Los Angeles dos anos 80, com foco no cenário “rock farofa” (ou “metal farofa” / “hair metal” / “poddle metal” / “metal laquê”…você escolhe a denominação), não ser exatamente familiar para as grandes massas. E o terceiro, claro, reside nos próprios fãs de rock, que estão longe de ser unânimes com relação a este estilo musical. Tente convencer um fanático por thrash metal, por exemplo, a ouvir no máximo dois minutos de uma canção do Poison e você pode ter certeza de que está arrumando uma briga. E das boas.
Se você se encaixa em qualquer uma das categorias acima, vale o alerta: Rock of Ages: O Filme é exata e rigorosamente o que vendem todos os vídeos promocionais. A história? Esquece, nem precisa se preocupar com isso. Estamos falando de um fiapo de roteiro. Mas é, ao mesmo tempo, um musical alegre, colorido, bem pra cima, exatamente o que se esperava de uma película sob a batuta de Adam Shankman, o camarada responsável pelo igualmente divertido Hairspray – Em Busca da Fama. Do nada, pessoas que aparentemente não se conhecem começam a cantar e dançar juntas, em coreografias ensaiadas, bem ali no meio da rua ou em um bar lotado.
E tudo com uma trilha regada às guitarras cantantes, aos refrãos contagiantes, às letras sobre festanças e sobre a mulherada liberal e também às baladas melosas que os grupos de hard rock sabem fazer tão bem. Se este parágrafo te empolgou, Rock of Ages é o programa certo para você, como foi para mim, leia-se. Caso este parágrafo tenha te causado calafrios, é melhor pesquisar uma outra opção para o seu final de semana.
A trama é fácil, fácil demais: uma garota interiorana (Julianne Hough, especialista em musicais, já esteve em Burlesque e no remake de Footloose) viaja para a Cidade dos Anjos em busca de seus sonhos como cantora. Acaba sendo roubada e, sem lenço e sem documento, encontra um jovem sonhador (Diego Boneta, da série Pretty Little Liars), também aspirante a músico, que a ajuda a encontrar um emprego no bar mais histórico da Sunset Strip – no caso, um dos circuitos mais roqueiros da chamada West Hollywood. Mas o dono do pardieiro, Dennis Dupree (Alec Baldwin), sempre amparado por seu fiel ajudante Lonny (Russell Brand, impagável e meio), pretende sair da lama financeira graças ao aguardado show de despedida do lendário Stacee Jaxx (Tom Cruise), que está abandonando sua banda Arsenal e iniciando uma carreira solo, com uma performance na casa onde foi revelado. O grande lance é que Jaxx (não por acaso, ídolo do casal de protagonistas, que vai se separar por algum motivo que não vem ao caso, mas vai se reencontrar perto do final, você já imaginava) está longe de ser um sujeito confiável.
Aliás, a exemplo do que aconteceu em Hairspray, também filme de Shankman, é o coadjuvante de luxo quem rouba a cena. Enquanto em Hairspray a versão feminina e corpulenta de John Travolta domina o filme, em Rock of Ages ninguém brilha mais do que Tom Cruise. Hough e Boneta são esforçados, cantam bem, chegam até a empolgar quando soltam a voz em canções como Don’t Stop Believin’ (do Journey, é bom que se diga, e não do Glee, ok?) e no combo romântico Heaven (Warrant) e More than Words (Extreme). A cantora de R&B Mary J.Blige, no papel de uma cafetina de luxo, surpreende na interpretação de Shadows of the Night, de Pat Benatar – que tem outra canção, Hit Me With Your Best Shot, trazida de forma competente por Catherine Zeta Jones (a conservadora primeira-dama da cidade, inspirada em Tipper Gore, mulher de Al Gore). Até Paul Giamatti, que vive o malandro empresário de Staxx, se revela um cantor eficiente em Here I Go Again (Whitesnake). Mas Tom Cruise é a grande estrela da projeção, não há dúvidas.
O rockstar decadente Stacee Jaxx é, ao mesmo tempo, sedutor e ridículo. Cheio de excentricidades, extravagâncias e manias, é um homem de fala mansa, quase sempre bêbado, que anda cambaleante, tem um macaco raivoso como bicho de estimação, não fala com coisa com coisa e dorme no meio das pernas das maiores vagabundas da cidade. Com uma interpretação quase sempre canastrona, Tom Cruise constroi um personagem que pode até parecer falso, fora da realidade, exagerado. Mas, bem cá entre nós, eu consigo pensar em pelo menos três astros do rock que, na minha concepção, devem ser exatamente assim nos bastidores. Como se não fosse o bastante, Cruise ainda canta – e, para surpresa geral, até que não se sai mal. Ao longo do filme, ele domina o público com Pour Some Sugar on Me (Def Leppard) e revela o seu verdadeiro eu ao som de Wanted Dead or Alive (Bon Jovi). E nos créditos finais, ele assume sua persona Axl Rose e entoa Paradise City (Guns ‘n Roses). Como já tinha ficado claro em Trovão Tropical, uma coisa que os executivos de Hollywood precisam aprender é que, a esta altura do campeonato, Cruise parece estar cansado de ser o galã ou o herói de filmes de ação. Ele está mesmo é com vontade de se divertir.
Fique ainda de olhos abertos para as aparições especiais de roqueiros como Sebastian Bach (ex-Skid Row), Nuno Bettencourt (Extreme), Joel Hoekstra (Night Ranger) e Kevin Cronin (REO Speedwagon), entre outros. Em tempo: os produtores bem que podiam ter pinçado nomes como Bach e o sempre excelente Dee Snider (Twisted Sister), que sabem cantar e ainda atuam de maneira divertida e descompromissada, para papéis menores. Ia ser duplamente delicioso.
Rock of Ages não é o filme do ano. Não vai mudar a sua vida. Mas, em um dia cheio de pentelhações no trabalho, pode com certeza melhorar (e muito!) o seu humor. =D
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Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no mundodeelcid.blogspot.com.
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