Pain of Salvation (Carioca Club, São Paulo, 30/09/12)

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Pain of Salvation (Carioca Club, São Paulo, 30/09/12)


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Matéria publicada em 07/10/12. Quer matérias recentes sobre Rock e Heavy Metal?

Para o filósofo Immanuel Kant, o gênio era alguém profundamente original, dotado de um talento inato para a produção de novas ideias, e não simplesmente imitá-las e reproduzí-las. Guardada a devida contextualização, se existe, ouso dizer, um gênio no rock pesado, seu nome é Daniel Gildenlöw. Basta sobrevoar a discografia do Pain of Salvation para verificar dois aspectos, digamos, “geniais”: o primeiro deles, os diferentes conceitos trabalhados em cada álbum. Aquilo que a mente insana de Tobias Sammett, com muito esforço, fez – brilhantemente, diga-se de passagem – em cinco discos, Gildenlöw faz desde o primeiro. O segundo aspecto é em relação à sonoridade da banda: não conheço outra banda que una passagens complexas e intrincadas – dignas de um Dream Theater –, letras inteligentes e bem trabalhadas – do tipo Pink Floyd –, sem deixar de lado a “pegada” e a energia do rock n’ roll. Pergunto-me, às vezes, se é possível classificar o Pain of Salvation segundo os rótulos convencionais: Rock Progressivo? Ouça o pesadíssimo álbum “Be”. Metal Progressivo? Ouça o início suingado de “No Way”. E os shows enérgicos, irreverentes, prezando igualmente a execução das músicas e a empolgação do público, daria margem para rotulá-los como Hard Rock? Penso que não. Talvez seja a junção de todos estes elementos que torne o Pain of Salvation uma banda diferente e genial, e, portanto, inclassificável segundo os rótulos que temos disponíveis.

Mas vamos ao show. Antes de falar de música, tenho duas observações preliminares a fazer: em primeiro lugar, senti falta de uma banda de abertura, já que no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, tocaram The Reign of Kindo e o Wishcraftt, respectivamente. Conheci algumas – e boas – bandas aquecendo os ouvidos do público, e acho esse espaço fundamental para a divulgação delas e para perceber se, de fato, a banda é boa para além do Youtube e do MySpace. Em segundo lugar, faltou, em minha opinião, organização quanto ao merchandising da banda. Lembro-me, no show do Sebastian Bach, que foi também no Carioca Club, de uma sala especial apenas para a venda dos produtos da banda, contando também com máquinas para cartões de crédito/débito, sala esta que estava fechada no show em questão. Pequenos problemas estruturais; mas deixemos isso de lado e vamos ao que interessa.

A disposição do palco me chamou bastante a atenção: o teclado estava ao fundo e a bateria estava à frente do palco, porém virada de lado para a plateia; havia também um canhão de luz incandescente direcionado para o pedestal do meio, para as músicas com clima mais intimistas do setlist. Pontualmente às 20h, apagaram-se as luzes e se iniciou a reprodução da música “Let the Sunshine in”, extraída de Hair, o famoso musical da Broadway. Ao fim da música, Daniel Gildenlöw surgiu das sombras, sem o restante da banda, e tomou o centro do palco para cantar a premiada “Road Salt”: dando um show de interpretação, o vocalista parecia não apenas cantar a música, mas mergulhar em seu interior, se misturando a ela, vivenciando-a em toda a sua plenitude – essa ligação é tão intensa que ele se sentou enquanto cantou “so I sit down” ao final do refrão. Tive, enquanto espectador, a impressão de não estar apenas ouvindo a música, mas sentindo-a e (com)partilhando do tom melancólico que a perpassa. “Essa noite será grande”, pensei comigo mesmo, enquanto o genial vocalista era ovacionado por todos os presentes. Enfim: uma abertura absolutamente magistral! E se o prelúdio já foi assim, imaginem o que estaria por vir...

Em seguida, o restante da banda entrou em cena. Gildenlöw apresentou, um a um, todos os integrantes da banda sueca – contando porém com um guitarrista islandês e um baterista francês. Assim que soaram as primeiras notas de “Road Salt Theme”, faixa instrumental que abre o último disco lançado, “Road Salt Two”, que dá nome à turnê, confesso que fui ficando cada vez mais tenso e apreensivo. Daniel começou, então, a tocar o arrastado riff que abre “Softly She Cries”, a sequência da música anterior em “Road Salt Two”. Minha tensão apenas aumentava. Até que veio a virada de bateria, a partir da qual todos os instrumentos entram na música. “A primeira impressão é a que fica”, já diz o provérbio; e se é possível reduzir a uma só palavra a impressão que tive neste momento do show, esta palavra é: êxtase. E, embora seja antifilosófico, tenho de ser justo com o senso comum e admitir que a sensação de êxtase, de fato, me acompanhou – ora mais, ora menos forte – ao longo de todo o show. Um detalhe que deve ser destacado é a participação de Ragnar ZSolberg: embora tenha entrado na banda pouco mais de três meses depois do lançamento do álbum, ele já parecia estar “em casa”: o guitarrista islandês, embora mais frio que Daniel, parecia bastante à vontade para cantar – e não se saiu mal neste aspecto, já que estamos falando da banda de Gildenlöw! – e tocar suas partes nas músicas. Parece que Gildenlöw encontrou um substituto à altura do carismático Johan Hallgren. Em seguida, emendaram com “Linoleum”, faixa de “Road Salt One”, com Gildenlöw distribuindo caretas enquanto cantava. Estas duas últimas, com seus riffs explosivos, fizeram com que os músicos as tocassem de modo bastante enérgico, batendo cabeça no ar e pulando feito doidos; a iluminação – uma série de luzes brancas giratórias, localizados ao fundo do e em direção à plateia –, em conjunto com a movimentação incessante dos músicos, trouxe a esta parte do show um aspecto visual bastante interessante. Seguiram o setlist com a pesada “Diffidentia”, de “Be”.

Depois, Gildenlöw fez uma pausa e conversou um pouco conosco. Fez, também, uma “piada” com o baterista Léo Margarit, fato que se repetiu novamente mais adiante. Gildenlöw é bastante bem-humorado e carismático, características estas perceptíveis facilmente ao longo de todo o show. Quando começou a dizer que voltaria um pouco no tempo, Daniel foi interrompido por um grito: “nineteen seventy nine!”. Em meio a risadas, “agradeceu” ao fã pelo “spoiler”, praguejou contra o Youtube – o suposto responsável por vazar a informação – e pegou seu violão, a fim de tocar a nostálgica “1979” e “To the Shoreline”, ambas de “Road Salt Two”; esta última é uma música privilegiada para se perceber a enorme extensão vocal de Gildenlöw; nela, ele mostra uma enorme confiança em sua capacidades e habilidades como cantor, já que, em dado trecho, o vocalista canta acompanhado apenas pelo piano, cantando as mesmas notas que são tocadas. Simplesmente brilhante!

Na sequência, uma espécie de “revival” do álbum “The Perfect Element”, responsável por tornar a banda famosa no mundo todo: “Used”, “In the Flesh”, “Ashes”, “Morning on Earth” e “Reconciliation”, todas do álbum supracitado, configuraram o momento catártico do show, sobretudo por terem sido executadas nesta sequência, já que possuem uma forte ligação entre si e com o conceito do álbum, em especial a passagem entre as duas últimas.

Subitamente, todos os músicos deixam o palco. Alguns minutos depois, os músicos retornam ao palco, exceto Gildenlöw, que aparece no camarote – nessa hora, é possível que tenha batido na maioria dos presentes “aquele” arrependimento por não ter comprado camarote! Mostrando muita simpatia, ele cumprimentou os fãs mais próximos e começou a cantar “Iter Impius”, do álbum “Be”. Vale a referência ao inspirado solo executado por ZSolberg, durante o qual Daniel retornou ao palco. Na sequência, veio a multifacetada “Stress”, do primeiro álbum da banda, “Entropia”, e “Undertow”, cantada por ZSolberg de forma bastante bonita e sentimental, e a progressiva “Beyond the Pale”, estas duas últimas do álbum “Remedy Lane”. O set regular chega ao fim.

Depois de alguns minutos, os músicos retornam ao palco para o “bis”, porém com os instrumentos trocados, com a exceção de ZSolberg, que permaneceu com seu próprio instrumento: o tecladista Daniel Karlsson assumiu o baixo de Gustaf Hielm, que pegou a guitarra de Gildenlöw, que tomou posse das baquetas de Léo Margarit, que, por sua vez, ficou de fora do cover de “Black Diamond” do Kiss: Gildenlöw “puxou” apenas a introdução, ao passo que o restante da música foi cantado por ZSolberg. Ao final do momento de descontração, o irreverente Gildenlöw parafraseia o Kiss gritando ao microfone: “You want the best, you got the second best!”,

Já com os instrumentos originais de volta, Daniel começa a cantar a quebrada e entrecortada “No Way”, de “Road Salt One”, em sua versão entendida. Ao fim desta, no auge da empolgação, no clímax do show, Daniel aproveitou a guitarra, já meio baleada, e a jogou no chão, levando os presentes ao delírio.

Por fim, Daniel anuncia que a próxima será a última música da noite, e que ela é uma de suas favoritas (e, coincidentemente, uma das minhas também!): a belíssima “Sisters”, de “Road Salt One”; Gildenlöw acompanhou seu andamento carregado e pesado, deixando transparecer uma imensa carga emocional através de seu forte recurso interpretativo.

Com efeito, o Pain of Salvation é uma banda que certamente ama seus fãs e tem prazer em estar nos palcos; basta assisti-los ao vivo para comprovar isso. A contagiante alegria, quase brasileira, do europeu Gildenlöw quase nos faz esquecer que ele é o gênio que é. Afinal: como podem sair de um único ser humano todas aquelas músicas, totalmente diferentes entre si, todas aquelas letras, inteligentes e sensíveis, uma extensão vocal absurda, uma voz poderosa e ao mesmo tempo angelical e uma interpretação beirando o teatral?. Um show solo de Gildenlöw já valeria o ingresso; acompanhado de uma banda afiada e bem entrosada, então, melhor ainda!

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