Marilyn Manson: escritor paulistano faz texto sobre roqueiro

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Marilyn Manson: escritor paulistano faz texto sobre roqueiro


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Matéria publicada em 14/04/13. Quer matérias recentes sobre Rock e Heavy Metal?

Del Candeias, escritor paulistano e autor de livros como "Uma dose de cortisol e uma porção de serotonina" (Com Arte, 2006) e "A Louca" (Annablume, 2007), escreveu para o Aplauso Brasil as suas impressões sobre a carreira do MARILYN MANSON e o seu impacto na música pop. Abaixo segue o texto, publicado originalmente em 2005.

"Às vezes, acabamos julgando certos artistas pela forma como aparecem e não pela forma como são. Quando vemos alguém em muitos programas de tv, em clipes da MTV, rodeado de fãs adolescentes, reagimos preconceituosamente por causa da mesmice da indústria cultural, e por isso, é possível não darmos o devido respeito a alguém que talvez tenha conseguido participar da indústria cultural e transcendê-la ao mesmo tempo. Na minha opinião, esse é o caso de Marilyn Manson.

Para quem não sabe, o nome Marilyn Manson é a união do primeiro nome de Marilyn Monroe com o do segundo de Charles Manson (o famoso assassino americano), constituindo um título que carrega um dos princípios de toda obra do roqueiro: compreender a totalidade, ou seja, o bem e o mal, o belo e o feio, e o verdadeiro e o falso. E aqui, não seria inapropriado fazer uma comparação com a teoria do sublime e do grotesco, apresentada por Victor Hugo, em seu prefácio a “Cromwell”. De modo que é possível afirmar que a transformação das figuras paradigmáticas dos opostos que constituiriam a totalidade, Esmeralda e Quasímodo, em um astro de Hollywood e um assassino têm alguma ligação com as mudanças que ocorreram na civilização ocidental – o que não é difícil de entender.

Na época do Romantismo, ou seja, no início do Capitalismo, o homem passava pelo constante conflito entre a integridade de seu eu individual e sua necessária adaptação ao funcionamento do aparato social. Portanto, sublime e grotesco, palavras tão grandiosas, ainda tinham seu espaço, já que o espírito poético do ser humano – ou se quiserem, a possibilidade de se pensar em transcender completamente a materialidade social – não tinha sido totalmente corrompido pelo prosaísmo da vida cotidiana. E com o passar do tempo, esses conflitos provocados por um sistema de extrema rigidez perduraram, mas de outra forma, pois sua negação completa parece ser inapropriada frente a extrema e duradoura consolidação do sistema vigente e tantas tentativas de transformação que não deram certo, como as revoluções socialistas (exceto a de Cuba).

Vemos, então, que ideais românticos como o amor (grandioso e não de novela), a honra e a lealdade acabaram se tornando piegas, antiquados, ou desandaram para a vulgaridade tão censurada pelos grandes nomes desse movimento artístico. Por isso, sublime e grotesco, Esmeralda e Quasímodo, transformaram-se em estrelato e psicopatia, e Marilyn e Manson. Notemos, aliás, que essa mudança refere-se à impossibilidade de transcender o âmbito social, pois diferentemente do estrelato e da psicopatia, sublime e grotesco abarcam objetos exteriores ao homem, como Deus e o Diabo, por exemplo. Afinal, no mundo contemporâneo de extremo antropocentrismo, onde a religiosidade foi transferida para a publicidade e o ser humano acredita cada vez mais num possível conhecimento e dominação total da natureza por meio da ciência, não há mais espaço para grandiosidades transcendentes – elas soam como ridículo ou devaneio.

Além desse, há outro aspecto que deve ser ressaltado no que diz respeito ao nome do roqueiro: os opostos escolhidos carregam uma contradição social.

Sabemos que os EUA são um país hegemônico, e sendo assim, devem ser considerados os mais civilizados. O que ocorre, porém, é que apesar de tanto uso da razão, como é o caso da tecnologia e das incontáveis ocasiões em que o planejamento aparece nos processos de desenvolvimento americanos, nos deparamos com situações de extrema barbárie, como foi o caso dos garotos do colégio de Columbine. Assim, vemos um percurso que transforma a civilização em barbárie ou a razão em disparate, e sua existência está referida no nome que une o glamour/beleza/requinte/delicadeza de Marilyn Monroe e a monstruosidade/feiúra/insanidade/brutalidade de Charles Manson. Tal percurso já foi identificado por Adorno, principalmente em “A dialética do Esclarecimento“, e o exemplo ideal escolhido foi o nazismo que talvez tenha erigido o auge da barbárie, graças ao auge da civilidade, por meio de uma racionalidade irracional.

Não à toa, o próprio Marilyn Manson faz muitas referências ao nazismo. E um de seus costumes, inclusive, é o de fazer shows atrás de púlpitos. Há entrevistas, nas quais ele mesmo afirma que o modo como está consolidada a sociedade de hoje não é tão diferente da que foi constituída por Hitler. As guerras, as cada vez mais rígidas exigências do trabalho, a tecnologização e burocratização crescentes, e principalmente, a propaganda e o mundo midiático, são associados aos tempos do Terceiro Reich. A música “The beautiful people” baseia-se nesse argumento, apontando como a padronização da beleza corporal não é tão diferente da eugenia fundamentada no princípio de raça ariana. Há, inclusive, um trecho em que próprio movimento dialético da razão culminando na barbárie é identificado:

“The worms will live in every host/It’s hard to pick which one they eat most/The horrible people, the horrible people/It’s as anatomic as the size/Of your steeple/Capitalism has made it this way,/Old-fashioned fascism/Will take it away”

“Os vermes viverão em todo hospedeiro/É difícil dizer qual eles comerão mais/As pessoas horríveis, as pessoas horríveis/É tão anatômico quanto o tamanho/Da torre da sua igreja/O capitalismo fez desse jeito/Facismo fora de moda/Vai acabar com isso”

No videoclipe dessa música, Marilyn Manson aparece como um ditador que leva as pessoas que o louvam para uma espécie de torre – tal qual a da letra da música – onde são alteradas fisicamente como quem faz plástica, numa espécie de laboratório, de modo a metaforizar a animalização do ser humano. Como já foi dito, esse papel serve é um costume do roqueiro. E num de seus primeiros cds, de 96, no qual ele mesmo se denomina como o anti-cristo superstar, é que parece que se consolida essa imagem, sendo reaproveitada até hoje. E então, surge a pergunta: Por que essa insistência?

Talvez porque, como tudo o que quer existir, mesmo sendo transgressor, Marilyn Manson foi inserido no sistema. E no seu caso, a inserção foi tanta que ele se tornou um dos artistas mais conhecidos da música pop – como seu nome já previa, o estrelato e a monstruosidade (essa nem tanto) culminaram nos seus ideais. Isso criou um estado de extrema tensão, pois o que é negado é ao mesmo tempo afirmado e vice-versa. A cultura criticada é a que dá espaço à crítica e a crítica é transformada em mercadoria e propaganda, tal qual se dá com grupos como NSYNC. Isso quer dizer que, necessariamente, Marilyn Manson é entendido e distorcido ao mesmo tempo, e assim, o processo de caricaturar, muito presente em sua obra, pode ser interpretado como uma maneira de dificultar a distorção: a explicitação do caráter distorcido da obra de arte, ou seja, de seu caráter meramente fetichista, propagandista e mercadológico. Como já disse o próprio Adorno, numa civilização como a nossa, é preciso escancarar, mesmo para apontar o que é óbvio.

Por isso, o fetiche se apresenta evidente no exagero de detalhes estéticos, seu sado-masoquismo e seu satanismo desconfiável (porque não parece ser levado a sério), que aparecem insistentemente. E vemos que a técnica e a produção que constroem um artista da música pop são explicitadas pelas roupas exageradas, a maquiagem carregada, o excesso de encenações e as mutações sofridas pelo roqueiro, como por exemplo, no clipe de “Dope Show”, no qual ele aparece transformado em uma mulher de formas estranhas. Em se tratando de mulheres, aliás, essas estão em muitos dos vídeos, lindas e bem tratadas, mas à maneira Marilyn Manson: góticas, exageradamente sensuais, e com uma aparência um tanto quanto “junkie”. Assim, as mulheres, incluindo as fãs, abundam nos vídeos como de costume – são um engodo freqüente dos artistas -, mas com algum caráter subversivo, goticizadas (o que não é um padrão da cultura pop), usando uniformes nazistas, participando de shows de cabaré; ou explicitadas como fetiche, como é o caso de uma moça que aparece de biquíni, segurando um grande “bloco de gelo” num copo gigante de bebida (clipe de “Mobscene”). Esses exemplos fazem parte de outro dos processos mais utilizados para sua crítica: a assunção de uma forma ou conteúdo, de modo a corrompê-los. E isso ocorre tanto com o nazismo, como também com o que é costumeiro no mundo pop, além de figuras mitologizadas (Marilyn Manson já se vestiu de Mickey Mouse e interpretou Willy Wonka, um papa, Virgem Maria e John Kennedy em alguns de seus clipes). Há também releituras de elementos do Dadaísmo e do expressionismo alemão e algumas surpresas esparsas como o uso da abertura de “Oito e meio”, de Fellini, para o início do cd “The golden age of grotesque” e trilha sonora de um curta-metragem. As suas versões de músicas conhecidas – as mais famosas são as de “Sweet dreams” e “Tainted love” – também se fazem a partir desse processo de subversão.

Portanto, além do evidente Romantismo do sujeito que não consegue se adequar ao mundo e à sociedade, encontramos na sua obra um caráter clássico, de imitação, talvez até como manifestação de um paradoxo que percorre nossa cultura. Apesar de a genialidade e a inventividade terem sido os principais valores que tornaram a arte moderna diferente da clássica, a indústria cultural e suas fórmulas acabaram revertendo o processo, educando um público afoito por novidades que repetem certos aspectos, como timbres, temas, ou simples fetiches, tal qual é o caso dos artistas que se utilizam do sexo para convencer o público de que sua arte tem algo que ela não tem. Outro ponto importante a ser ressaltado é o de que o próprio Marilyn Manson cita a si próprio, e tem de ser ouvido, visto e lido (para quem não sabe, ele é autor de dois livros e já fez exposições com seus quadros) com cuidado, porque sua arte forma um mundo simbólico próprio, de modo não muito incomum a artistas da modernidade, como David Lynch, Kandinsky e Magritte. Essa classicidade culmina numa espécie de carnavalização e nenhum símbolo, mesmo os do próprio cantor, pode ser devidamente respeitado, porque tudo é subvertido e, portanto, desrespeitado. E assim, cria-se uma espécie de religião ou fascismo do pop, mesclada com nazismo e ocultismo, que nega a si própria. E por isso é que ela é crítica, porque talvez não seja apenas Marilyn Manson que tenha inaugurado uma religião ou fascismo pop.

Enfim, inserido numa sociedade, onde a arte foi desfigurada em mercadoria, e a recepção baseada na compreensão da totalidade da obra em relação à totalidade da tradição foi deturpada no imediatismo do fetiche, Marilyn Manson, abusa das distorções e as critica ao mesmo tempo, de modo a estabelecer uma crítica tanto, obviamente, na transgressão, quanto na assunção dos valores vigentes. Mas é necessário ressaltar que, como um artista muito perspicaz, apesar de os fetiches aparecerem subvertidos, e as mulheres de corpos sarados e corados serem substituídas por moças brancas de aspecto não muito saudável, as festas de jovens animados darem lugar a encontros sado-masoquistas, as partidas de futebol americano se tornarem lutas, e apesar da beleza da modernidade ocidental vir sempre acompanhada de um olho de cada cor, seres deformados, sujeira, tristeza e morte, esses aspectos, que seriam negativos na nossa cultura, também não aparecem sozinhos. Afinal, na idade do grotesco, nós, os animais mecânicos, que fazemos da razão a barbárie e da barbárie a paz, não poderíamos eleger um superstar anti-cristo, que também não fosse anti-cristo superstar".

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Sobre Narcissus Narcosis

Narcissus Narcosis é fã de Marilyn Manson desde o final dos anos 90 e tirou o seu nome de uma música do cantor. Além do roqueiro, também é apreciador de literatura, cinema, filosofia, psicologia, teatro, shows, etc.

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