Ramones: a melhor biografia de um ex-integrante

Resenha - Minha Vida Como Um Ramone - Marky Ramone

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Por Mário Pescada, Fonte: Amazon
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O RAMONES foi uma banda que tinha tudo para dar errado: quatro sujeitos maltrapilhos, sem muitas perspectivas na vida, que mal sabiam tocar o básico dos seus instrumentos e cheios de problemas. O mais estranho de tudo é que deram certo, muito certo - a banda se tornou uma das mais amadas do rock e com um legado que ultrapassa gerações.

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“Minha Vida Como Um Ramone - Punk Rock Blitzkrieg” do baterista Marky Ramone segue o padrão do nascimento até o fim/momento atual. O livro é cheio de detalhes, mas longe de ser cansativo, bem escrito e de fácil leitura.

Marky (nome verdadeiro Marc Steven Bell) nasceu em 1952 e teve contato com a música graças a um rádio dado de presente por seus pais ainda criança, pela influência do irmão mais velho Fred e através de colegas de escola. Como muitos garotos daquela época, o contato com os BEATLES fez com que ele achasse ali um estilo de vida, querendo ser como seu ídolo Ringo Starr.

Com seu irmão que tocava guitarra, logo se juntaram a outros amigos e criaram a banda THE UNCLES. Pouco depois, aos 18 anos de idade, formou o DUST que lançou dois discos: Dust (1971) e Hard Attack (1972). A banda chegou a abrir para o ALICE COOPER em 1971 tendo um relativo reconhecimento, mas por motivos diversos, não vingou.

A essa altura, Marky já estava decidido a seguir pela música. Participou do teste para ser baterista do NEW YORK DOLLS. Chegou a tentar o country na banda ESTUS e depois em uma banda pré-punk, a WAYNE COUNTY AND THE BACKSTREET BOYS - tudo sem sucesso.

Como ia a diversos shows pela cidade, Marky já conhecia os RAMONES, que segundo ele eram bem desorganizados. Nessa época, a formação era: Joey, Tommy, Johnny e Dee Dee.

Aproveitando o embrião do movimento punk em Nova Iorque, se junta ao GRUPO RICHARD HELL AND THE VOIVODS que chegou a fazer uma tour pela Inglaterra abrindo para o THE CLASH. Outra banda, novo fracasso.

As coisas começam mesmo a dar certo para Marky quando Dee Dee sugere que ele entrasse para os RAMONES que estava tendo problemas com o então baterista Tommy. Ele fez um ensaio, passou no teste e crivo do chefe Johnny sob algumas condições: não ficar doidão no palco, usar jaqueta de couro, vestir calça jeans, usar tênis, etc. Marky entra para banda na véspera do lançamento de “Road To Ruin” (1978) tendo que aprender cerca de 40 músicas em apenas 21 dias antes da banda sair em excursão dentro de uma van cruzando os EUA de costa a costa.

Nessa época, enfurnado na van por horas com os outros membros, ficaram claras algumas características dos outros RAMONES: Joey tinha síndrome do toque, repetia as mesas coisas várias vezes como abrir e fechar portas e não tomava bando por dias, Dee Dee usava todo e qualquer tipo de substância que pudesse deixar ele chapado e Johnny era mandão, conservador e por vez radical nas suas opiniões.

A banda chegou a passar alguns apuros em festivais ao abrir para BLACK SABBATH e VAN HALEN e depois AEROSMITH e TED NUGENT: foram massacrados pela plateia com direito a chuva dos mais variados objetos no palco. A partir daí, foi decidido que não se arriscariam mais nesse tipo de turnê, apesar dos polpudos cachês. Mas também houve momentos de diversão, como as gravações para o filme “Rock N Roll High School” (1979) sobre conflitos entre uma diretora durona e alunos que gostavam de música - Marky gostou de ter atuado, até porque ele teve vários problemas na época de escola e aquilo era uma forma de se sentir vingado de tudo de ruim que passou nesse período.

No início das gravações de “End Of The Century” (1980), ocorreu um dos fatos que marcariam a vida dos RAMONES para sempre: Linda Marie Daniele foi “roubada” de Joey por Johnny, o que selou a inimizade entre os dois até o fim da banda. A coisa foi tão séria que por décadas eles mal se falaram, nem mesmo quando Joey estava no leito de morte Johnny entrou em contato.

Além do clima hostil entre os dois, também era preciso saber lidar com cada vez mais viciado Dee Dee. Nessa época lançam o mediano “Pleasant Dreams” (1981) e para piorar, Dee Dee e Joey chegam às vias de fato - com direito a nocaute de Dee Dee.

Mas não era só Dee Dee que se afundava no vício. Marky perde o controle com o álcool, chegando a beber escondido nas gravações e sofre um acidente que por muita sorte não causou danos maiores do que uma loja destruída pelo seu carro. Como Johnny era o dono da banda, Dee Dee o principal compositor e Joey a figura central, acabou sobrando para Marky: foi demitido por telefone.

A partir daí Marky abre sua vida de uma forma bem sincera e transparente: relata seu vício, suas passagens por clínicas de reabilitação, a entrada no AA (Alcóolicos Anônimos), o confronto com o pai, chega a largar as baquetas, se tornar bike boy pelas ruas de NY e depois entra no ramo da construção civil. Um período de afastamento da loucura do showbiz que acabou salvando sua vida.

Dois anos depois, já sóbrio e limpo, forma a banda KING FLUX. Pouco tempo depois, recebe outro telefone dos RAMONES, dessa vez pedindo seu retorno no lugar de Richie Ramone que brigou com a banda por causa da divisão das vendas de camisas. Richie gravou três discos: “Too Tough To Die” (1984), “Animal Boy” (1986) e “Halfway To Sanity” (1987).

Nova mudança: sai Dee Dee Ramone - agora cantor de rap - pouco depois do lançamento do disco “Brain Drain” (1989). Marky dá poucos detalhes sobre a entrada de CJ Ramone, inclusive que não gostou da sua forma de tocar, mas por decisão de Johnny, ele acabou ficando (estranho como que em nenhuma biografia de ex-RAMONES, CJ tem o merecido reconhecimento).

Um fato bem legal do livro é o destaque aos fãs brasileiros e argentinos: se os fãs brasileiros eram exaltados, os argentinos eram completamente loucos pela banda, verdadeiros devotos. Em 1992 a banda ganha o disco de ouro no Brasil pelo disco “Mondo Bizarro” (1992). A essa altura, a banda já estava bem desgastada pelo tempo de estrada, brigas, drogas e uma sensação de pouco reconhecimento por tudo que tinham feito pela música até então.

Depois do disco de covers “Acid Eaters” (1995) foi a vez do derradeiro disco: “Adios Amigos!” (1995). Dia 06 de agosto de 1996, depois de 2.262 shows (todos cadastrados com detalhes pelo metódico Johnny), a banda faz seu último show, com participações de EDDIE VEDDER (fã de carteirinha que chegou a viajar pelo mundo filmando as últimas apresentações da banda), RANCID, Lemmy (MOTORHEAD), Dee Dee Ramone e CHRIS CORNELL. Uma curiosidade para deixar os fãs brasileiros atônitos: nessa época a banda recebeu a proposta de fazer mais um show, o último mesmo, no Brasil pela bagatela de US$ 1 milhão. Porém...Joey se recusou alegando motivos de saúde, mas Marky acredita que tenha sido só para deixar Johnny possesso.

Daí em diante, Marky forma a banda THE REMAINZ com Dee Dee e depois MARKY RAMONE AND THE INTRUDERS que chegou a vir algumas vezes para a América do Sul. Também chegou a tocar bateria no disco solo de Joey, “Don´t Worry About Me” (2002), que morreria poucos meses depois por câncer.

Pouco depois, finalmente a banda teria um reconhecimento digno da sua história: a nomeação ao “Rock And Roll Hall Of Fame” com a presença de Johnny, Marky, Dee Dee e Tommy - a família de Joey estava presente, mas não foi chamada a subir ao palco para receber o prêmio por decisão de Johnny, o que enfureceu Marky. Como forma de ser justo e dar o troco em Johnny, Marky aproveitou momento para agradecer a Tommy e Joey por tudo que fizeram pela banda e por ele.

Ainda em 2002, Dee Dee é encontrado morto por overdose e em 2004 Johnny morre por câncer. Acabava ali o núcleo central dos RAMONES.

Das três biografias que já li sobre a banda, essa foi sem dúvidas a melhor. “Coração Envenenado - Minha Vida com os Ramones” de Dee Dee Ramone é confusa e foca mais nos vícios do ex-baixista do que na sua passagem pela banda. Já “Commando”, de Johnny Ramone, trata os outros membros como verdadeiros idiotas e que se não fosse por Johnny e seu pulso firme, os RAMONES não teriam durado nem dez anos.

Marky se mostra extremamente agradecido pela oportunidade de ter passado por tudo na vida apesar dos trancos e barrancos ao lado de Tommy, Dee Dee, Johnny e Joey, cada um com seus defeitos - como todos nós - mas pessoas únicas que deixaram sua marca para sempre no coração de milhões de fãs pelo mundo todo (inclusive eu!).

Minha Vida Como Um Ramone - Punk Rock Blitzkrieg
Editora: Planeta / 448 páginas
Preço médio: R$ 40,00

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Sobre Mário Pescada

Mineiro, leitor compulsivo, ouvinte de todas as vertentes do rock - do blues ao grindcore. Valoriza mais a honestidade e entrega em cima do palco do que a técnica. Guarda os flyers dos shows que vai como se fossem relíquias.

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